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sábado, 31 de julho de 2010

Sonhos - Parte 3

Os sonhos são processos mentais com mecanismos bastante semelhantes àqueles da formação dos lapsos (ver post Psicologia dos Erros). Os elementos que aparecem no sonho são uma forma de expressão de alguma idéia inacessível do indivíduo, da mesma maneira que a palavra "errada" no lapso era uma forma de expressão da intenção inconsciente.

O sonho é uma idéia inconsciente distorcida. O conteúdo do sonho da maneira como nos lembramos ao acordar é chamado de conteúdo manifesto, enquanto a idéia que lhe deu origem chama-se conteúdo latente.

Uma exceção a este padrão são os sonhos infantis (eventualmente, adultos podem ter sonhos deste tipo também). Em crianças pequenas, com menos de 5 anos de idade, é comum que o conteúdo manifesto seja igual ou bastante semelhante ao conteúdo latente, com pouca ou nenhuma distorção. Em geral, são sonhos em que a criança realiza um desejo que não conseguiu realizar enquanto estava acordada. Um dos exemplos citados no livro diz respeito a uma menina de três anos que foi passear de barco e ao final do passeio não queria ir embora e chorou muito para deixar o barco. No dia seguinte ela acorda dizendo que sonhou que estava passeando de barco.

Neste exemplo pode-se perceber claramente a famosa afirmação de Freud de que todo sonho é a realização de um desejo. Neste caso o desejo é consciente, mas na maioria dos sonhos não é. Em geral a idéia que dá origem ao sonho está relacionada a algum desejo não satisfeito e reprimido, que foi parar no inconsciente. No sonho ele se disfarça, escapa do inconsciente e se manifesta, assim como acontece com os lapsos e atos falhos.

Sonhos - Parte 2

Como citei no post anterior, a Psicanálise descobriu que os sonhos eram processos mentais e que tinham significado. Vou seguir a mesma linha de raciocínio que o Freud usou no livro, falando primeiro do significado e depois dos processos mentais responsáveis pela formação dos sonhos.

Ok, os sonhos têm significado. Mas como desvendar que significado é esse?

A técnica empregada pela Psicanálise é muito simples (o fato de ser simples não significa que seja fácil): perguntar ao sujeito que sonhou o que ele acha que o levou a ter aquele sonho e o que os elementos presentes no sonho o fazem lembrar*. E devemos prestar total atenção a tudo o que ele disser, pois suas palavras darão a pista para a explicação, não importando se ele diz saber exatamente do que se trata, não saber ao certo, ou não ter a menor idéia. Qualquer tipo de resposta já é um primeiro caminho para se chegar ao significado, uma primeira associação do conteúdo misterioso, e muitas vezes confuso, do sonho à idéia que lhe deu origem.

Esta técnica é chamada de associação livre e consiste em estimular o paciente a trazer à consciência uma sequência de idéias que se encadeiam e se aproximam cada vez mais do conteúdo mais profundo e inacessível do inconsciente.


* Outra pergunta comumente feita pelo psicanalista diz respeito ao sentimento presente no sonho, prazer, ódio, vergonha, culpa; mas vou deixar para falar disso mais para a frente.

Sonhos - Parte 1

No livro A General Introduction to Psychoanalysis, Freud aborda em 11 capítulos vários temas relacionados aos sonhos: técnicas de interpretação, conteúdo latente e manifesto, sonhos infantis, censura, simbolismo, mecanismos de formação, tudo isso recheado de exemplos de sonhos e suas respectivas análises.

Freud começa explicando o motivo do interesse psicanalítico no estudo dos sonhos. Joseph Breuer percebeu que os sintomas apresentados por alguns de seus pacientes tinham um significado e esta descoberta foi a base para o desenvolvimento do método de tratamento psicanalítico. Durante o tratamento, enquanto falavam sobre seus sintomas, os pacientes também mencionavam sonhos e isso levantou a suspeita de que os sonhos também tivessem um significado.

Estudar os sonhos é uma forma de preparação para se estudar as neuroses, pois o sonho por si só já é um sintoma neurótico, que ocorre em qualquer pessoa saudável. Assim, os sonhos, da mesma maneira que os lapsos e atos falhos abordados no post anterior, tornam-se objeto de estudo da Psicanálise.

Freud fala sobre o preconceito enfrentado na época pela Psicanálise com relação a este tema. Muitos leigos viam os sonhos como objeto de interesse de místicos e supersticiosos (a meu ver, hoje, mais de século depois este preconceito persiste). E mesmo na área científica o interesse nos sonhos tinha como objetivo demonstrar teorias fisiológicas. Para os médicos os sonhos eram apenas expressões mentais de estímulos físicos.

A partir da Psicanálise foi levantada a hipótese - posteriormente demonstrada e comprovada - de que os sonhos eram processos mentais!

Continua... (me disseram que blog com posts muito longos não dá ibope, a moda agora é twitter, mensagens curtas - caramba, estou ficando velha! - então resolvi quebrar o assunto em mais pedaços para deixar assim curtinho)

sábado, 3 de julho de 2010

Psicologia dos Erros

Nos capítulos 2, 3 e 4 do livro A General Introduction to Psychoanalysis, Freud fala sobre a Psicologia dos Erros.

Ele começa explicando que os erros aos quais se refere são aqueles frequentemente cometidos por todos nós, que podem facilmente ser observados em qualquer pessoa saudável e que nada têm a ver com doença. Alguns exemplos de erros são: trocar palavras enquanto falamos ou escrevemos, ler uma palavra que não estava escrita em um texto, ouvir algo que não lhe disseram (sem que exista um problema auditivo). Em uma outra categoria estão aqueles baseados no esquecimento temporário de algo, por exemplo, quando não nos lembramos de um nome que conhecemos bem , esquecemos de fazer algo ou não nos lembramos onde colocamos um determinado objeto.

Estes fenômenos são geralmente vistos como ocorrências sem importância, deixadas de lado por outras ciências, mas estas manifestações simples podem esconder problemas bem mais complexos.

Alguém que fala corretamente pode trocar uma palavra quando está cansado, distraído, ansioso ou com enxaqueca. E isso é fácil de se verificar. Esquecer o nome de alguém também é algo que pode acontecer nestas circunstâncias.

Entretanto estes mesmos erros e esquecimentos também acontecem em "condições normais", quando não estamos cansados, distraídos ou ansiosos. Por outro lado, executamos várias atividades em nosso dia a dia, dirigir por exemplo, de maneira automática, sem prestar muita atenção e o fazemos corretamente. Isso nos faz questionar se o motivo de ocorrência dos erros seria realmente a falta de atenção.

Muitas vezes observamos exatamente o contrário, erramos mais naquelas atividades às quais dedicamos toda a nossa atenção, e obtemos sucesso naquelas que executamos de maneira automática, quando pouca concentração e atenção são requeridas.

Há casos, inclusive, em que os erros relacionados a um determinado assunto ou evento se multiplicam e se relacionam uns com os outros. Por exemplo, em um primeiro momento a pessoa se esquece de um compromisso, num segundo momento, decidida a não esquecê-lo, descobre que trocou o dia ou o horário e falha novamente em comparecer. Falta de atenção?

O efeito da associação de palavras, valores sonoros das mesmas e similaridades deve ser levado em consideração, mas não é suficiente para explicar os erros. A forma mais simples e mais notável de troca de palavras consiste em se dizer exatamente o contrário do que se pretendia!

Todas as circunstâncias e aspectos descritos acima (cansaço, distração, similaridade entre palavras, etc) nada mais são do que condições facilitadoras para que os erros ocorram. Agora, qual seria o significado destes erros? E qual o resultado que eles produzem? Aparentemente estes erros representam um processo mental válido, com propósito, conteúdo e significado. O único problema seria o fato de terem se manifestado como intrusos em um outro processo mais esperado. "Os erros resultam da interferência mútua de duas intenções".

Mas será que todos os erros têm um significado, uma intenção?

Não, nem todos. Se psicológico é sinônimo de intencional (ver post anterior), os erros que resultam de causas orgânicas (fisiológicas/anatômicas) não têm uma intenção. Se o indivíduo sofreu um acidente que impactou a área cerebral responsável pela linguagem, ele pode trocar ou esquecer palavras sem intenção; se possui Mal de Alzheimer, pode se esquecer onde guardou determinado objeto sem intenção; se possui algum transtorno neurológico que impacte a execução das funções relativas aos erros citados acima, não há intenção. Caso contrário, sim, o erro é intencional!

Mas que intenção é essa e como ela interfere em uma outra?

Com relação aos lapsos de linguagem, em geral, o indivíduo teve uma idéia, um pensamento e decidiu não verbalizá-lo. Este pensamento recalcado fica no inconsciente esperando o momento propício para manifestar-se. Quando percebe uma oportunidade expressa-se através de uma palavra trocada, um neologismo, mesmo contra a vontade do indivíduo. Para que se expresse desta maneira, a contra gosto, certamente esta idéia teve sua expressão reprimida anteriormente. Ela só interfere em um outro processo se sofreu interferência em seu processo de expressão previamente.

E quanto aos esquecimentos de nomes, compromissos, perda de objetos? Freud apresenta e analisa uma série de situações para ilustrar estes fenômenos. De maneira bem resumida, ele diz que existe algo que queremos esquecer relacionado à pessoa, ao compromisso ou objeto perdido. Se ganhei um livro de alguém e em algum momento fico chateado com essa pessoa, é provável que eu me esqueça onde coloquei o livro, e mais tarde após uma reconciliação, como num passe de mágica eu abro uma gaveta e o encontro. Quanto a esquecer um compromisso, seguindo este mesmo raciocínio poderíamos dizer que o indivíduo está chateado com o amigo que marcou o compromisso e por isso o esqueceu, mas não é assim tão simples, uma análise mais profunda pode mostrar que existem memórias desagradáveis relacionadas ao local do encontro, por exemplo. Apesar de causar problemas, este "esquecimento" é uma forma do ego se defender, evitando a dor que pode representar a lembrança de qualquer coisa que esteja conectada a um sentimento desagradável.

Nesta mesma linha existe uma série de outros tipos de erros, como derrubar ou quebrar objetos, machucar-se. Se não existe uma causa orgânica para a sua ocorrência, sim, é intencional.

Sobre Psicologia dos Erros é isso! Ficou uma mistura do que Freud fala no livro com outros textos que li e conversas que tive com o César Ebraico...

Na segunda parte do livro ele fala sobre Sonhos... Este pedaço é mais longo, vários capítulos, pretendo ir escrevendo aos poucos.

Definição

Achei importante colocar aqui também a definição do que é a Psicanálise, antes de continuar. Para isso vou utilizar um texto do Luís César Ebraico, psicanalista com 40 anos de atividade clínica, que leu Freud em alemão, inglês, francês, e todas as notas de rodapé (segundo ele vários comentários importantes se encontram escondidinhos no pé da página).

"... dizer que a Psicanálise é "uma teoria e forma de tratamento psicológicos criados por Sigmund Freud" é uma péssima - e freqüente - maneira de se tentar defini-la. Tanto, na verdade, quanto seria tentar definir "avião" como "tipo de objeto voador inventado por Santos Dumond". Esse tipo de "definição" indica apenas que se "jogou a toalha", desistindo de encontrar para um certo "definiendum" um adequado "definiens".

Desse tipo de definição canhestra, de qualquer forma, aproveita-se que a Psicanálise existe em dois grandes registros: (1) como teoria psicológica e (2) como forma de tratamento a partir dela fundamentado. Exploremos isso:

(A) Que traço comum têm duas teorias psicológicas que mereçam ser chamadas de "psicanalíticas", por mais que, sob vários aspectos, possam diferenciar-se e, até mesmo, divergir, traço comum que nos permita legitimamente falar em "várias Psicanálises", p. e., em Psicanálise Freudiana, Existencial, Sullivaniana, Lacaniana, Loganálise etc.? Esse traço é o seguinte:

(1) uma especial definição do que seja o PSICOLÓGICO, desde sempre empregada por Freud (embora nem mesmo ele tivesse muita clareza sobre isso) e herdada de Franz Brentano, ou seja, a de que "psicológico" é sinônimo de "intencional". Ou seja, onde há intencionalidade há psicológico e onde há psicológico há intencionalidade, sendo a Psicologia Psicanalítica a ciência que estuda as intenções em (a) seus propósitos, (b) em suas intensidades e (c) nos conflitos que estabelecem entre si; e

(2) o reconhecimento de que tais intenções podem operar mesmo quando não conectam suas representações não verbais com suas representacões verbais, estabelecendo, por meio dessa conexão, uma "co(ns)ciência (= "co-ciência" = “ciência dupla”, verbal e não verbal);

Concluindo: sempre que uma TEORIA apresente as duas características que acabei de listar, ela merece ser designada como Psicanálise.

(B) Já enquanto TRATAMENTO PSICOTERÁPICO, uma técnica merece ser considerada como legítima representante da Psicanálise, se essa técnica, não importa quais seus procedimentos, tem por objetivo (1) estabelecer conexões inexistentes, ou (2) reestabelecer conexões anteriormente existentes, entre representações verbais e não verbais."




E para quem quiser ir mais a fundo, vale a pena ler " O conceito Freudiano de psicológico", escrito também pelo Luís César Ebraico e disponível em http://loganalisepro.blogspot.com/2010_02_01_archive.html , mas como ele mesmo disse, esse é hard stuff...

Introdução à Psicanálise

O primeiro capítulo do livro A General Introduction to Psychoanalysis consiste em uma palestra dada por Freud a estudantes de medicina explicando o que é Psicanálise e as dificuldades enfrentadas por quem deseja se aprofundar no assunto.

Ele fala da impossibilidade de se estudar a Psicanálise da mesma maneira em que se faz na Medicina, observando as características anatômicas, vendo a contração muscular como resultado da estimulação dos nervos, tendo contato com os pacientes e aprendendo sobre os sintomas das doenças através de evidências captadas pelos órgãos dos sentidos. Em Psicanálise boa parte do que acontece é uma troca de palavras entre o paciente e o psicanalista.

E mesmo o aprendizado da Psicanálise se torna mais difícil, pois esta troca de palavras não admite audiência, ou seja, o processo não pode ser demonstrado. Desta maneira, não é possível que o aluno esteja presente durante um tratamento psicanalítico, ele apenas pode ouvir os relatos deste tratamento, e o julgamento que ele faz sobre o tema depente fortemente da confiança que ele tem em seu informante.

Uma outra maneira de aprender Psicanálise, segundo Freud, é aprender consigo mesmo, através do estudo de sua própria personalidade. Adquirindo-se o conhecimento do método psicanalítico, existem vários fenômenos mentais simples que podem ser utilizados como material para a auto análise. Isso seria válido para convencer-se do processo e ganhar confiança na validade de suas concepções, entretanto há limitações. Pode-se ir muito mais longe submetendo-se à análise com um psicanalista capacitado.

Ele fala também de dois pontos essenciais da Psicanálise que são vistos com maus olhos, alvos de preconceito, dificultando sua aceitação.

O primeiro faz parte de sua própria definição, o reconhecimento da existência de uma parte da mente da qual não temos conhecimento, o inconsciente. Para Freud, "a aceitação dos processos mentais inconscientes representa um passo decisivo na direção de uma nova orientação no mundo e na ciência" (tradução minha).

O segundo ponto diz respeito à importância que à Psicanálise dá à relação ente os impulsos sexuais e os transtornos nervosos e mentais. Para ele, a aversão a esta questão é a principal fonte de oposição que a Psicanálise encontrou.