Este blog encontra-se inativo. Se quiser continuar lendo o que escrevo me acompanhe aqui:http://sheilaromejon.blogspot.com.br/

sábado, 3 de julho de 2010

Psicologia dos Erros

Nos capítulos 2, 3 e 4 do livro A General Introduction to Psychoanalysis, Freud fala sobre a Psicologia dos Erros.

Ele começa explicando que os erros aos quais se refere são aqueles frequentemente cometidos por todos nós, que podem facilmente ser observados em qualquer pessoa saudável e que nada têm a ver com doença. Alguns exemplos de erros são: trocar palavras enquanto falamos ou escrevemos, ler uma palavra que não estava escrita em um texto, ouvir algo que não lhe disseram (sem que exista um problema auditivo). Em uma outra categoria estão aqueles baseados no esquecimento temporário de algo, por exemplo, quando não nos lembramos de um nome que conhecemos bem , esquecemos de fazer algo ou não nos lembramos onde colocamos um determinado objeto.

Estes fenômenos são geralmente vistos como ocorrências sem importância, deixadas de lado por outras ciências, mas estas manifestações simples podem esconder problemas bem mais complexos.

Alguém que fala corretamente pode trocar uma palavra quando está cansado, distraído, ansioso ou com enxaqueca. E isso é fácil de se verificar. Esquecer o nome de alguém também é algo que pode acontecer nestas circunstâncias.

Entretanto estes mesmos erros e esquecimentos também acontecem em "condições normais", quando não estamos cansados, distraídos ou ansiosos. Por outro lado, executamos várias atividades em nosso dia a dia, dirigir por exemplo, de maneira automática, sem prestar muita atenção e o fazemos corretamente. Isso nos faz questionar se o motivo de ocorrência dos erros seria realmente a falta de atenção.

Muitas vezes observamos exatamente o contrário, erramos mais naquelas atividades às quais dedicamos toda a nossa atenção, e obtemos sucesso naquelas que executamos de maneira automática, quando pouca concentração e atenção são requeridas.

Há casos, inclusive, em que os erros relacionados a um determinado assunto ou evento se multiplicam e se relacionam uns com os outros. Por exemplo, em um primeiro momento a pessoa se esquece de um compromisso, num segundo momento, decidida a não esquecê-lo, descobre que trocou o dia ou o horário e falha novamente em comparecer. Falta de atenção?

O efeito da associação de palavras, valores sonoros das mesmas e similaridades deve ser levado em consideração, mas não é suficiente para explicar os erros. A forma mais simples e mais notável de troca de palavras consiste em se dizer exatamente o contrário do que se pretendia!

Todas as circunstâncias e aspectos descritos acima (cansaço, distração, similaridade entre palavras, etc) nada mais são do que condições facilitadoras para que os erros ocorram. Agora, qual seria o significado destes erros? E qual o resultado que eles produzem? Aparentemente estes erros representam um processo mental válido, com propósito, conteúdo e significado. O único problema seria o fato de terem se manifestado como intrusos em um outro processo mais esperado. "Os erros resultam da interferência mútua de duas intenções".

Mas será que todos os erros têm um significado, uma intenção?

Não, nem todos. Se psicológico é sinônimo de intencional (ver post anterior), os erros que resultam de causas orgânicas (fisiológicas/anatômicas) não têm uma intenção. Se o indivíduo sofreu um acidente que impactou a área cerebral responsável pela linguagem, ele pode trocar ou esquecer palavras sem intenção; se possui Mal de Alzheimer, pode se esquecer onde guardou determinado objeto sem intenção; se possui algum transtorno neurológico que impacte a execução das funções relativas aos erros citados acima, não há intenção. Caso contrário, sim, o erro é intencional!

Mas que intenção é essa e como ela interfere em uma outra?

Com relação aos lapsos de linguagem, em geral, o indivíduo teve uma idéia, um pensamento e decidiu não verbalizá-lo. Este pensamento recalcado fica no inconsciente esperando o momento propício para manifestar-se. Quando percebe uma oportunidade expressa-se através de uma palavra trocada, um neologismo, mesmo contra a vontade do indivíduo. Para que se expresse desta maneira, a contra gosto, certamente esta idéia teve sua expressão reprimida anteriormente. Ela só interfere em um outro processo se sofreu interferência em seu processo de expressão previamente.

E quanto aos esquecimentos de nomes, compromissos, perda de objetos? Freud apresenta e analisa uma série de situações para ilustrar estes fenômenos. De maneira bem resumida, ele diz que existe algo que queremos esquecer relacionado à pessoa, ao compromisso ou objeto perdido. Se ganhei um livro de alguém e em algum momento fico chateado com essa pessoa, é provável que eu me esqueça onde coloquei o livro, e mais tarde após uma reconciliação, como num passe de mágica eu abro uma gaveta e o encontro. Quanto a esquecer um compromisso, seguindo este mesmo raciocínio poderíamos dizer que o indivíduo está chateado com o amigo que marcou o compromisso e por isso o esqueceu, mas não é assim tão simples, uma análise mais profunda pode mostrar que existem memórias desagradáveis relacionadas ao local do encontro, por exemplo. Apesar de causar problemas, este "esquecimento" é uma forma do ego se defender, evitando a dor que pode representar a lembrança de qualquer coisa que esteja conectada a um sentimento desagradável.

Nesta mesma linha existe uma série de outros tipos de erros, como derrubar ou quebrar objetos, machucar-se. Se não existe uma causa orgânica para a sua ocorrência, sim, é intencional.

Sobre Psicologia dos Erros é isso! Ficou uma mistura do que Freud fala no livro com outros textos que li e conversas que tive com o César Ebraico...

Na segunda parte do livro ele fala sobre Sonhos... Este pedaço é mais longo, vários capítulos, pretendo ir escrevendo aos poucos.

7 comentários:

  1. "Se não existe uma causa FISIOLÓGICA para a sua ocorrência". Sheila, não sei se é de mim que se origina esse deslize, mas seria melhor ou (1) enriquecer, dizendo, "causa fisiológica e/ou anatômica", ou (2)simplesmente generalizar, falando "orgânica".
    De resto, você escreve muito bem: não usa palavras de mais, nem de menos para transmitir sua mensagem.
    Um detalhe menor: no quarto parágrafo, não cabe colocar vírgula entre "estamos" e "cansados". Deve ter sido erro de revisão.
    Parabéns pelo blogue e grato por me haver mencionado.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  2. Correções feitas :)
    Obrigada pela atenção, César!

    ResponderExcluir
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  4. Gostei da clareza das idéias. Você considera possível também que uma consciência extrafísica possa interferir na atenção e no desejo de uma consciência intrafísica facilitando ou promovendo esquecimentos específicos?

    ResponderExcluir
  5. Felippe, desculpe a demora em responder, só vi estes comentários agora.
    Obrigada pelo elogio :)
    Não entendi bem sua pergunta... o que você quer dizer com "consciência extrafísica" e "consciência intrafísica"?

    ResponderExcluir
  6. Sheila, que texto incrível o teu. Devo contar aqui que eu venho fazendo essa relação desde quando tomei aulas com uma professora de inglês que sonhava ser terapeuta mas que tinha estudado Publicidade e Propaganda, hahaha, veja só você! Bem, ela acabou fazendo uma terapia ali comigo (ou seja, realizando o seu sonho mas trabalhando como professora), e me fez perceber que o meu "TDAH" - que se manifestava em perdas de objetos, distrações, esquecimentos, essas coisas - podia ser explicado de alguma forma. Por que eu vivia perdendo a minha identidade, o meu RG? E as chaves, por que sempre as esquecia? O que representavam a minha identidade e as chaves para o meu inconsciente? Onde eu não queria entrar? Para onde eu não queria voltar? Quem eu era? De onde vinha meu sobrenome? Perguntas que aprendi a me fazer graças a essa bruxa que cruzou a linha da minha vida. Essa terapeuta maravilhosa que adoraria reencontrar em algum momento da vida.

    Interpretar o ato-falho é algo muito produtivo, apesar de eu não gostar do Freud (por ele ser misógino, por ele ter acreditado mesmo que nós, mulheres, temos inveja do pênis. Como poderíamos ter inveja do pênis se temos o úitero, não é mesmo? Há muito o que se debater sobre Freud, eu gosto mais da neopsicanálise feminista, focada no sofrimento das mulheres por vozes femininas.

    Imagina se o mundo começa a tratar o "TDAH" corretamente?
    Sem drogas, com conscientização, com educação?
    Ah, sonho! Sonho, meu!

    PS: o layout do teu blog é parecido com o do meu: linguainquieta.blogspot.com, eu escrevo poemas, se quiser me conhecer eu tô lá!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom que gostou :)
      Então, eu acho super importante ler Freud como um ponto de partida, mas há muito o que criticar na obra dele. Você viu este texto que escrevi sobre o Caso Dora? Chega a ser revoltante a análise que ele faz.
      http://www.psicanaliseparainiciantes.blogspot.com.br/2014/12/o-caso-dora.html
      Quanto ao TDAH e outros transtornos, acho que tanto o que questionar nestes diagnósticos e tratamentos...
      Dei uma olhada no seu blog, o layout parece mesmo! Adorei o "do não ao sim".

      Beijo!

      Excluir