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sábado, 28 de agosto de 2010

Os três desaforos para a humanidade

Estou lendo sobre a Teoria Geral das Neuroses, naquele mesmo livro do Freud que já citei em outros posts (A General Introduction to Psychoanalysis). Quero escrever alguns posts sobre esse assunto, mas antes quis colocar aqui só um trechinho muito interessante de um dos capítulos.

Segundo Freud a ciência já trouxe para a humanidade dois grandes desaforos ao seu amor próprio.

O primeiro quando descobriu que a Terra não era o centro do universo, mas um pedacinho de um sistema cuja magnitude era difícil de se conceber.

O segundo quando a Biologia roubou do homem seu privilégio particular de ter sido especialmente criado, e colocou-o como um mero descendente do mundo animal.

Mas o anseio por grandiosidade dos homens sofre agora do terceiro e mais amargo dos desaforos! A Psicologia vem provar a cada um de nós que não somos senhores nem mesmo de nossa própria mente, apenas nos satisfazemos com pedaços de informação sobre o que se passa em nosso inconsciente.

Este terceiro desaforo é tão grande, que mesmo dentro da Psicologia, várias vertentes não reconhecem a sua veracidade. E quanto ao público leigo em geral, poucas pessoas têm conhecimento e sabem da importância da descoberta do inconsciente.

Quando esta descoberta terá o mesmo alcance e reconhecimento das outras duas?


sábado, 21 de agosto de 2010

Cinema

Fui ao cinema na semana passada (sozinha pela primeira vez) assistir "A Origem". Não sei se eu fui esperando demais, porque só tinha ouvido críticas boas, mas me decepcionei. A experiência de ir ao cinema sozinha foi mais interessante do que o filme.

Como fala sobre sonhos fiquei empolgada para assistir. Eu sabia que o filme era de ficção, mas imaginei que fosse sair do cinema pensativa, cheia de questionamentos. Achei bem superficial, muita ação e pouca reflexão. A única coisa que achei legal foi uma imagem do filme que ilustra bem o conceito psicanalítico de "neutralidade". O personagem do Leonardo DiCaprio está atormentado com as culpas do passado e quando "entra na mente" do sujeito cujos sonhos ele deseja manipular estas culpas invadem o sonho na forma de um trem descarrilhado que cruza uma rua movimentada e altera o desenrolar do sonho. Os traumas do passado não permitiram que ele pudesse lidar com o material do inconsciente do outro de forma neutra. Acho que o filme é válido por esta analogia.

Este fim de semana fui assistir "As Melhores Coisas do Mundo". Eu assisti à entrevista da diretora e do ator principal no programa da Marília Gabriela e fiquei curiosa para ver o filme. Me surpreendeu! É um filme simples, despretensioso e verdadeiro. Fui sozinha novamente (estou curtindo a idéia!), tinha uma meia dúzia de pessoas no cinema, senti como se o filme estivesse passando para mim. E a história mexeu comigo, sofri junto com os personagens! Chorei demais em algumas partes, acho que os conflitos e frustrações da adolescência que aparecem no filme despertaram algumas memórias do que vivi nesta época.

Isso é outra coisa interessante de observar, psicanaliticamente falando. Alguns filmes, músicas, livros nos despertam emoções muito fortes, às vezes a gente chora descontroladamente sem nem saber por quê! Provavelmente aquilo mexeu com alguma memória inconsciente. Vale a pena parar para refletir. O que te faz chorar?

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Sonhos - considerações finais

Estes textos sobre os sonhos ficaram um pouco aquém do que eu tinha em mente para este blog.

Minha intenção era fazer uma espécie de aula sobre os sonhos, citando e explicando cada um dos conceitos, dando exemplos, mas percebi que neste momento minha voracidade em ler coisas novas anda maior do que a minha paciência em escrever algo mais minucioso.

Acabou ficando um "melhores momentos" do que li. O livro é extremamente rico em detalhes e exemplos, portanto para quem se interessa pelo assunto vale a pena ler na íntegra.

Os sonhos são fascinantes e o mais legal é que à medida em que entendemos mais sobre o assunto conseguimos começar nossa autoanálise, interpretando uma coisinha aqui, outra ali.

Para quem tiver disciplina recomendo fazer um diário de sonhos, anotando todos os dias ao acordar. Muitas vezes um sonho isolado não nos diz muita coisa, mas quando analisamos uma quantidade maior de material as idéias podem ficar bem óbvias. Nosso conflitos internos não descansam! Se não conseguimos resolver uma determinada questão, as idéias latentes se disfarçarão de mil formas diferentes e aparecerão noite após noite, manifestando o mesmo conteúdo. Comparar as várias formas de manifestação pode ser uma maneira de identificar os pontos em comum, os sentimentos associados, desvendando a charada.

Sonhos - Parte 6

Se todo sonho é a realização de um desejo - algo agradável, que proporciona prazer - o que Freud diz sobre os pesadelos e os sonhos carregados de ansiedade?

Alguns sonhos se originam a partir de desejos reprimidos extremamente fortes, a ponto de escapar da censura e manifestar-se no sonho sem qualquer distorção. A ansiedade é causada pela força do desejo que em outras situações fomos capazes de reprimir. Sendo assim, os sonhos de ansiedade são de extrema utilidade para a investigação do conteúdo inconsciente.

Mas além da ansiedade os sonhos podem vir acompanhados de outros sentimentos desagradáveis, causando sofrimento, muitas vezes nos fazendo acordar ofegantes no meio da noite. Aqui entra um ponto sobre o sentimento presente no sonho que citei em outro post.

Apesar das idéias latentes aparecerem nos sonhos de maneira disfarçada, o sentimento relacionado àquela idéia pode manifestar-se no sonho sem qualquer alteração. Por exemplo, se eu tenho um desejo cuja realização me causaria vergonha ou culpa, no sonho a satisfação deste desejo (mesmo que de maneira disfarçada) pode vir acompanhado da sensação de vergonha ou de culpa, tornando o sonho algo desagradável.

Nossas idéias reprimidas em si já representam um conflito, a oposição entre o desejo de realizar e o medo das consequências, os julgamentos, a moral. A realização deste desejo no sonho muito provavelmente trará consigo todos os sentimentos relacionados à sua censura.

Se o paciente puder se lembrar do sentimento presente nos sonhos, poderá fazer associações de outras situações e conflitos de sua vida em que se depara com este mesmo sentimento, auxiliando na interpretação do conteúdo latente do sonho.

Sonhos - Parte 5

Através da distorção o conteúdo latente é transformado em conteúdo manifesto. O caminho inverso deste processo é a interpretação dos sonhos, que busca a recuperação do conteúdo latente.

Este assunto dá bastante pano pra manga! E Freud escreveu um livro só sobre isso: A Interpretação dos Sonhos, 1900.

Por enquanto, queria destacar três pontos que achei bem interessantes e que acredito que já ajudem a começar a interpretar nossos próprios sonhos:

1) Um dos mecanismos de formação dos sonhos é chamado de condensação. Se pararmos para pensar em nossos sonhos não será difícil lembrar de momentos em que várias pessoas foram condensadas em uma só figura. Esta figura era semelhante a A na aparência, estava vestida como B, estava agindo como C, mas o tempo todo você sabia que na verdade ela era D. Em geral, esta figura composta serve para enfatizar alguma característica que seja comum a estas quatro pessoas.

2) Muitos sonhos em uma mesma noite em geral têm o mesmo significado e indicam uma tentativa de controlar um estímulo cuja urgência vem aumentando.

3) Uma parte importante da teoria dos sonhos é o simbolismo: uma relação invariável entre um elemento do sonho e a idéia latente, o que permitiria em alguns casos interpretar um sonho sem questionar a pessoa que sonhou sobre o seu significado. Alguns exemplos presentes no livro: uma casa representando o corpo humano; reis, rainhas, imperadores representando os pais; pequenos animais representando crianças, irmãos e irmãs; referências à água representando o nascimento; viagens representando a morte; e uma variedade enorme de símbolos relativos à vida sexual (armas e objetos pontudos represetando o pênis, cavernas, jarros, caixas representando a vagina, entre outros).

Obs.: o simbolismo nada tem a ver com misticismo, ou livrinhos mágicos que traduzem sonhos! Ele é resultado da interpretação de um número considerável de sonhos com os mesmos símbolos levando às mesmas idéias latentes, em pessoas diferentes com histórias de vida diferentes. Isso é ciência!

Sonhos - Parte 4

O que faz com que o conteúdo latente (a idéia que deu origem ao sonho) se distorça a ponto de produzir um sonho (conteúdo manifesto) muitas vezes confuso e aparentemente sem sentido?

A censura do sonho! Ela é responsável pela omissão, modificação e reagrupamento das idéias latentes produzindo a distorção.

Mas por que esta censura existe? Qual seu objetivo?

Em geral a censura age sobre idéias ofensivas sob o ponto de vista ético, moral, social; coisas sobre as quais não ousamos pensar, ou pensamos com um certo incômodo. Durante o dia a nossa recusa em pensar e falar sobre estas idéias faz com que elas fiquem guardadas em nosso inconsciente. Durante a noite estas idéias reprimidas tentam vir à tona e, visando proteger o nosso ego destes pensamentos ofensivos e incômodos, a censura entra em ação e permite sua manifestação apenas de forma distorcida e a princípio irreconhecível.

Em um primeiro momento a censura parece ser a vilã da história, afinal por que não podemos entrar em contato diretamente com o conteúdo latente? Para quê tanto mistério? É importante lembrar que uma das funções do sonho é nos manter dormindo, sendo assim, durante o sono só lidaremos com estas questões mais delicadas de maneira disfarçada, atenuada; sem permitir que elas perturbem nosso sono tranquilo.