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terça-feira, 16 de abril de 2013

Primeira Equação da Neurose

Dentre as vertentes da Psicanálise com as quais tive contato a que mais me agrada é a Loganálise, desenvolvida pelo Luís César Ebraico - psicanalista brasileiro com mais de 40 anos de experiência que tive o prazer de conhecer e manter contato até hoje.

O Luís César, assim como eu, tem um passado na Engenharia (mas ele, diferente de mim, descobriu que sua vocação era outra logo no primeiro ano de faculdade e mudou para a Psicologia). Acredito que reconheço em sua forma de escrever sobre Psicanálise uma lógica e um rigor quase matemático que me agradam e facilitam o meu entendimento.

Para explicar melhor a neurose, ele propôs esta equação, que chamou de Primeira Equação da Neurose:

Evento(s) => Ativação Energética (=Emoção) => Impossibilidade de Comunicação (=Repressão) => Memória Hipertônica (=Trauma) => Fixação => Transferência = > Sintoma Neurótico

Ou seja:

O indivíduo passa por algum evento (ou eventos) que gera uma emoção (seja uma única vez com uma intensidade muito forte, ou várias vezes em pequenas doses que vão se acumulando). Ao tentar falar sobre esta emoção, ele se sente reprimido ou recalcado, ou seja, percebe que não há escuta, sente que sua fala não foi ouvida e devidamente acolhida. Como esta carga emocional não pode ser descarregada através da fala, ocorre uma sobrecarga na memória do ocorrido, gerando a memória hipertônica (ou trauma). A memória hipertônica nos mantém fixados à emoção gerada pelo evento inicial e, uma vez ativada, tende a gerar um excesso de energia, transferindo para o presente sentimentos ligados a situações passadas, e podendo paralisar o sujeito ou desorganizar seu comportamento tornando-o disfuncional (podendo produzir sintomas neuróticos).

Um exemplo para ilustrar: A moça vai até a casa do namorado e lá chegando o encontra com outra (evento). Ela se sente profundamente traída (emoção), mas ao tentar falar sobre o que sentiu com os amigos ouve frases do tipo "ah, esquece isso, ele não te merece", "vamos sair, logo você conhece outra pessoa". Sua fala é reprimida, como se ela não devesse se sentir traída, nem falar sobre isso (repressão). O sentimento de traição adquire uma carga emocional muito forte (trauma) e em um relacionamento futuro ela passa a transferir o que sentiu para o novo namorado (transferência), ou seja, sente que está sendo traída mesmo que ele não lhe dê motivos para isso. A partir desta transferência ela pode, por exemplo, apresentar crises de ansiedade (respiração ofegante, suor excessivo, taquicardia...) sempre que chega à casa do namorado (sintoma neurótico).

Faz sentido? Para mim faz bastante!

Algumas pessoas que me encontram aqui no blog às vezes me escrevem pedindo indicação de livros de Psicanálise para leigos. Recomendo fortemente o livro do Luís César Ebraico, em que ele detalha e dá exemplos de cada um dos componentes desta equação. Para quem se interessar em saber mais, o livro está disponível na Amazon, segue o link:


Teoria Geral das Neuroses - Última Parte

A teoria e a técnica desenvolvidas por Freud têm como base para o desenvolvimento do trabalho o processo de transferência.

Para Freud trata-se da transferência para a pessoa do analista de sentimentos que surgiram em uma outra situação, com uma outra pessoa.

O analista deve utilizar esta transferência para chegar aos conteúdos reprimidos pelo paciente. Ele não deve rejeitar nem defender-se de eventuais declarações ou acusações que o paciente lhe faça, mas ajudar no processo de conscientização desta transferência e na identificação da situação que deu origem a este sentimento.

Para Freud, a transferência é "o campo de batalha onde as forças opostas se encontram".

Entretanto, a maneira como Freud tratava a transferência está meio ultrapassada. Ele só analisava a transferência que acontecia no setting terapêutico, entre paciente e analista; ou seja, para ter uma quantidade de material considerável era necessário que o paciente fizesse análise três, quatro ou até cinco vezes por semana! Algo financeiramente inviável para a grande maioria das pessoas.

Até hoje muitos psicanalistas trabalham assim e entendem que uma sessão de terapia por semana é insuficiente. De fato, se se trabalhar apenas com o que o paciente transfere para o analista, uma vez por semana é pouco mesmo. Mas quem disse que tem que ser assim?

As pessoas não escolhem o "alvo" da transferência, pode ser o terapeuta, o namorado, o chefe ou o vizinho! Caso o terapeuta observe e identifique na fala do paciente outras situações fora do consultório em que a transferência ocorre, ele pode (e deve) usar este material no processo terapêutico.

É por isso e outras coisas que, apesar de eu achar o Freud um gênio no que diz respeito à teoria, há melhores técnicas para colocá-la em prática. Pretendo abordar esta questão futuramente, em outro post.