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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ciúme do irmão

Eu percebo que muitas vezes a boa intenção não é suficiente na educação dos filhos. Com as melhores intenções possíveis acabamos agindo de uma forma não muito adequada por pura falta de informação.

Não acho que seja necessário que todos os pais façam graduação em Psicologia ou leiam a obra completa do Freud para saber como agir com as crianças, mas o conhecimento de algumas informações básicas pode mudar a vida de uma família.

Sem querer, muitas vezes acabamos reprimindo os sentimentos das crianças. O que significa isso? Não damos a devida a escuta e acolhimento para aquilo que eles sentem, principalmente quando se tratam de sentimentos desagradáveis como ciúme, raiva e medo.

Querem um exemplo? Vou compartilhar uma experiência pessoal.

Quando meu filho mais velho tinha uns dois anos, simplesmente parou de fazer cocô. Não eram dois ou três dias sem fazer, era mais de uma semana! Ele passou por várias consultas e exames com pediatra, gastropediatra e os médicos haviam descartado qualquer causa orgânica para o problema.

Na época eu estava fazendo terapia e comentei com o psicanalista sobre esta questão. Ele me perguntou se havia acontecido alguma mudança importante na vida dele quando os sintomas começaram. Eu relatei que a minha segunda filha havia acabado de nascer, mas que os sintomas apareceram ainda na gravidez. O terapeuta comentou que provavelmente ele estava vivenciando sentimentos de raiva e ciúme com a chegada do novo bebê e eu não estava dando a devida escuta a estes sentimentos.

Apesar de ele não dizer claramente que estava com ciúme (é raro que uma criança desta idade tenha consciência e consiga nomear os próprios sentimentos), ele falava coisas que davam a entender que sim. Comentei com o terapeuta que uma vez ele havia perguntado quando voltaríamos ao hospital para devolver o bebê e que eu havia explicado que não a devolveríamos, que a partir de agora ela viveria conosco e precisaria do nosso amor e cuidado. O terapeuta me disse que eu o estava reprimindo, que com a minha resposta o que eu disse para ele nas entrelinhas foi "você não pode querer sua irmã longe de você, você tem que amá-la". E o ideal seria que eu o deixasse falar mais sobre o que estava sentindo, que desse corda para a conversa.

Alguns dias depois meu filho me disse que queria jogar a irmã na privada e dar descarga. Eu já estava para soltar um "Não!", mas consegui me segurar e perguntei para ele o que ele achava que aconteceria se a jogássemos na privada. Ele me disse que ela nadaria até o rio e depois iríamos lá buscá-la. E nos dias que se seguiram surgiram outros comentários deste tipo e eu fui deixando ele falar (deixei falar, não deixei fazer). Em alguns momentos eu dizia que imaginava que não devia ser fácil para ele ter que dividir a atenção dos pais com a irmã, que eu entendia que às vezes ele devia ficar bravo com ela e com a gente e que era normal se sentir assim.

Adivinhem o que aconteceu? Ele voltou a fazer cocô. E eu, depois dessa, fui fazer Psicologia.