Este blog encontra-se inativo. Se quiser continuar lendo o que escrevo me acompanhe aqui:http://sheilaromejon.blogspot.com.br/

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O Caso Dora

Faz semanas que estou tentando escrever sobre o Caso Dora e o texto não sai! Desisti de relatar o caso. No lugar disso vou falar sobre a minha dificuldade em falar sobre ele.

Freud faz comentários tão, mas tão machistas que é difícil levar em consideração as análises que ele faz na sequência. Tem várias análises interessantes, mas elas se baseiam em uma suposição dele que para mim é difícil de engolir. Sim, eu sei, dá para escrever uma dissertação de mestrado sobre o machismo na obra do Freud, mas eu acho que neste caso ele passou do ponto.

Só para contextualizar, trata-se de uma paciente de 18 anos que apresentava como principal queixa uma tosse nervosa que a levava à perda completa da voz. Dora tinha uma relação distante com a mãe e era muito apegada ao pai. A família convivia bastante com um casal de amigos, o Sr. e a Sra. K.

Durante o tratamento, Dora relatara a Freud duas situações em que havia sido assediada pelo Sr. K, uma aos 14 anos (um beijo não consentido) e outra aos 16 anos (ele lhe fez uma "proposta amorosa", Dora disse se lembrar que o Sr. K disse "Sabe, não tenho nada com minha mulher" e em seguida ela lhe deu uma bofetada). Vou transcrever o trecho em que Freud relata o ocorrido aos 14 anos de Dora:

"Estava então com quatorze anos. O Sr. K. combinara com ela e com sua mulher para que, à tarde, elas fossem encontrá-lo em sua loja comercial, na praça principal de B , para dali assistirem a um festival religioso. Mas ele induziu sua mulher a ficar em casa, despachou os empregados e estava sozinho quando a moça entrou na loja. Ao se aproximar a hora da procissão, pediu à moça que o aguardasse na porta que dava para a escada que levava ao andar superior, enquanto ele abaixava as portas corrediças externas. Em seguida voltou e, ao invés de sair pela porta aberta, estreitou subitamente a moça contra si e depôs-lhe um beijo nos lábios. Era justamente a situação que, numa mocinha virgem de quatorze anos, despertaria uma nítida sensação de excitação sexual. Mas Dora sentiu naquele momento uma violenta repugnância, livrou-se do homem e passou correndo por ele em direção à escada, daí alcançando a porta da rua."

E ele complementa: "(...) o comportamento dessa menina de quatorze anos já era total e completamente histérico. Eu tomaria por histérica, sem hesitação, qualquer pessoa em quem uma oportunidade de excitação sexual despertasse sentimentos preponderante ou exclusivamente desprazerosos, fosse ela ou não capaz de produzir sintomas somáticos."

Sobre o que ocorreu aos 14 ela manteve-se calada. O acontecido aos 16 anos ela relatou ao pai. Ele conversou com o Sr. K que disse tratar-se de invenção da moça. O pai acreditou no Sr. K e foi falar com Freud, pedindo que colocasse sua filha "no bom caminho".

Resumindo: a moça é atraída para um local isolado pelo amigo do pai, ele dá um jeito de ficar sozinho com ela, a beija a força, ela foge correndo e não conta para ninguém o que aconteceu. Interpretação do Freud: ela é histérica porque certamente ficou excitada com o beijo, mas negou o sentimento. Minha interpretação: o beijo forçado causou uma grande repugnância, ela reprimiu o que sentiu (não contou para ninguém), a memória tornou-se traumática e ela manifestou esta emoção reprimida através dos sintomas.

Durante as sessões de análise Freud fala para Dora que acredita que ela esteja apaixonada pelo Sr. K e ela nega. Mas posteriormente, segundo ele "quando a abundância do material surgido tornou-lhe difícil persistir na negativa, ela admitiu que poderia ter estado enamorada do Sr. K.". Eu imagino que o fato de ouvir o analista - uma figura de autoridade -  repetir várias vezes sobre a possibilidade de ela estar apaixonada pelo Sr. K possa fazer com que ela passe a se questionar sobre os seus sentimentos, a se perguntar inclusive se deu a entender que tinha algum interesse por ele, algo que justificasse o beijo forçado.

Sobre a tal "proposta amorosa" que o Sr. K lhe fez aos 16 anos, ele diz: "Eu considerava que, de modo geral, ainda era preciso explicar o que a levara a sentir-se tão gravemente melindrada pela proposta do Sr. K., tanto mais que eu começava a me aperceber de que, para o Sr. K., a proposta a Dora não significara nenhuma tentativa leviana de sedução."

Ele passa toda a análise do caso sugerindo o interesse de Dora pelo Sr. K e diminuindo a gravidade do que o Sr. K fez, como se beijar alguém à força fosse algo esperado e natural. E tem outra, mesmo que ela tivesse algum interesse por ele, este interesse não faz com que um beijo forçado seja algo necessariamente desejável!

No final do relato do caso, Freud descreve uma interpretação que fez sobre a bofetada de Dora no Sr. K, explica que não foi por repugnância, mas por ciúme. Ele também diz que ela sonha com o Sr. K divorciando-se da mulher para casar-se com ela. Ela o escuta sem contradizer suas explicações. No final da sessão ela se despede e nunca mais aparece. E Freud conclui dizendo que o que a fez abandonar o tratamento foi a resistência!!!

Esta postura dele é muito revoltante para mim. Ele faz várias suposições baseadas em seus preconceitos, interpreta os fatos com base nisso, compartilha suas interpretações com a paciente, a induz a duvidar de seus próprios sentimentos e sugere outros. Tudo o que a gente aprende durante cinco anos de faculdade a NÃO fazer. Continuo gostando muito de grande parte do que ele escreveu, mas neste caso ele pisou na bola feio!

Enfim, acabei contando boa parte do caso, rs. Acho que esse meu desabafo ilustrou um pouco como eu acredito que deva ser conduzido o processo terapêutico. Quando um assunto nos causa algum incômodo o ideal é deixar o assunto de lado e começar falando sobre o incômodo que ele nos causa. À medida em que vamos falando, o incômodo vai se dissolvendo, dissolvendo... e quando nos damos conta estamos falando sobre o assunto que queríamos sem nos incomodar tanto!

P.S.: Estou saindo de férias, volto a atualizar o blog em janeiro. Boas festas para vocês ;)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Resistência

Ralph Greenson, em seu livro A Técnica e a Prática da Psicanálise - Vol. 1, expõe e dá exemplos de diferentes manifestações das resistências (falei mais sobre o conceito de resistência neste post). Ele explica que antes de analisar uma resistência é importante ser capaz de reconhecê-la. 

Alguns sinais do paciente que podem indicar resistência ao processo terapêutico:

- Silêncio ou falta de vontade de falar: o paciente não se mostra disposto a compartilhar o que se passa em sua mente (é a forma mais simples e comum de resistência);
- Ausência de afeto: monotonia ou apatia na fala, discordância entre aquilo que é dito e a emoção que é manifestada (ex.: a pessoa fala sobre uma experiência constrangedora ou desagradável dando gargalhadas);
- Postura: ausência ou excesso de movimentos, discrepância entre a postura e o conteúdo verbal (ex.: o paciente diz estar tranquilo e relaxado com relação a uma determinada situação, mas enquanto fala rói as unhas e se contorce na cadeira);
- Fixação no tempo: ausência de oscilação da narrativa entre o passado e o presente (ex.: o paciente fala continuamente sobre algo que está acontecendo no momento sem qualquer referência a acontecimentos passados);
- Trivialidades: conversas superficiais sobre assuntos que não levam a qualquer tipo de reflexão ou introspecção;
- Assuntos evitados: o paciente foge de determinados assuntos ou evita pronunciar certas palavras (ex.: não citar o nome dos órgãos sexuais, utilizar eufemismos);
- Rigidez: rotinas estabelecidas pelo paciente durante as sessões (ex.: começar a sessão sempre com um mesmo assunto, como os sonhos que teve, "colecionar" assuntos interessantes para evitar os silêncios durante o atendimento);
- Ausência de sonhos;
- Tédio: o paciente mostra-se entediado e sem interesse pela sessão;
- Alegria constante: sessões sempre leves e alegres;
- Ausência de mudança: os sintomas e comportamentos do paciente permanecem iguais.

E por que eu resolvi escrever sobre isso? Por que é importante que o terapeuta saiba identificar a resistência do paciente? Para virar para ele e dizer "ah, isso é resistência, você está evitando encarar seu problema"? NÃO! A resistência é uma defesa, uma forma do paciente se proteger daquilo que o faz sofrer. 

Quando o terapeuta perceber algum destes sinais é importante que ele tente identificar qual o conteúdo em sua fala (ou na fala do paciente) que precedeu esta reação. No fundo, o que o paciente está querendo dizer é "eu não estou pronto para falar sobre este assunto". A resistência faz parte do processo terapêutico e deve ser respeitada.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Orientação psicológica online

Semana passada o Conselho Federal de Psicologia aprovou o cadastro do meu site para a prestação de serviços psicológicos online. Foi um processo demorado mas finalmente saiu! :)

Não pude cadastrar o blog pois o formato exigido é bem específico, trata-se de um site estático, informativo. Caso queiram consultar a aprovação e entender mais sobre este tipo de atendimento, o site é este aqui (há um selo do lado direito, com um número de protocolo e o prazo de validade, que direciona para o site do CFP onde a autorização pode ser verificada).

Muita gente torce o nariz quando ouve falar de orientação psicológica online, por achar que o contato via computador seja frio e impessoal. Eu penso diferente e fico feliz que o CFP tenha aberto este caminho. 

Em 2011 fui voluntária do CVV (Centro de Valorização da Vida), uma ONG que atua com apoio emocional e prevenção do suicídio. Os atendimentos são feitos presencialmente, por telefone, carta, email e chat. Eu era voluntária no chat e me sentia tão próxima das pessoas com quem eu falava como em uma conversa presencial. Ao final do atendimento muitos usuários agradeciam e falavam o quanto aquela conversa os tinha ajudado. Acho que o único problema do chat é que escrevendo demoramos muito mais do que falando, por isso optei por oferecer o serviço de orientação psicológica via Skype.

Eu acredito que a escuta acolhedora dependa mais da empatia da pessoa que atende do que do meio utilizado.

Se quiser fazer uma sessão e testar se esta modalidade de atendimento funciona para você, me envie um email e marcamos um horário:

sheila.psc.br@gmail.com

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Quando o paciente quer interromper o processo terapêutico - parte 2

Continuando o assunto da semana passada, queria focar em duas questões: por que é tão difícil para os pacientes comunicar ao psicólogo a decisão de colocar fim ao processo terapêutico? E por que é tão difícil para os psicólogos aceitar esta decisão do paciente?

Acredito que nos dois casos seja a transferência atuando, ou seja, as pessoas estão deslocando para o presente emoções ligadas a acontecimentos do passado. Vou explicar.

Eu imagino que a grande maioria das pessoas já tenha passado por algum rompimento de relacionamento e que não tenha sido uma experiência muito agradável. Em geral, nestes momentos, falamos e ouvimos coisas que magoam. Se não tivermos oportunidade para falar sobre os sentimentos que vieram à tona durante este rompimento é bem provável que esta memória adquira o status de traumática e que nos fixemos à emoção relacionada a ela. Esta fixação pode nos levar a transferir para o presente aquilo que sentimos nesta situação do passado.

É de se esperar que alguém que tenha rompido um relacionamento e tenha ouvido ofensas como resposta tenha medo de interromper a terapia e ser ofendido pelo terapeuta. Da mesma forma que alguém que tentou romper um relacionamento e viu o parceiro implorando para que continuassem juntos pode temer que o terapeuta insista para que continue na terapia. E por aí vai, com medos e receios para todos os gostos!

Em algumas situações o trauma é tão grande que, ao transferir o sentimento para o presente, a pessoa percebe que não dá conta de reviver aquilo e inventa uma desculpa para interromper o processo terapêutico ou simplesmente não aparece na sessão seguinte para evitar comunicar o rompimento. Em outras, mesmo que seja difícil, o paciente sente que consegue falar abertamente com o psicólogo sobre a sua decisão. E apenas o próprio paciente é capaz de mensurar se ele dá conta de encarar a situação ou não. Caso consiga, uma conversa aberta com o terapeuta pode ser extremamente terapêutica (principalmente se o terapeuta der uma resposta diferente daquela que gerou o trauma inicial!).

Sentir-se rejeitado também não é nada agradável. E os psicólogos, assim como os pacientes, têm sua bagagem emocional repleta de experiências boas e ruins. Um profissional que tenha passado por alguma experiência traumática envolvendo rejeição pode não reagir bem ao ouvir do paciente que deseja interromper o processo terapêutico.

Mas existe uma diferença bem grande entre os dois! Enquanto o paciente busca na terapia um porto seguro para falar sobre seus pensamentos e sentimentos, do terapeuta espera-se uma escuta acolhedora e sobretudo a capacidade de reconhecer seus próprios traumas e inseguranças e não misturá-los às questões do paciente durante o atendimento. Ou seja, o terapeuta tem todo o direito de se sentir rejeitado, ficar chateado ou ofendido; mas transformar estes sentimentos em ação, respondendo ao paciente de forma não acolhedora é uma atitude inadequada e anti profissional.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Quando o paciente quer interromper o processo terapêutico - parte 1

Queria falar sobre uma questão delicada: e quando o paciente quer interromper a terapia? Já aconteceu comigo e já ouvi relatos semelhantes de outras pessoas sobre situações desconfortáveis envolvendo este tema.

Na primeira vez em que isso aconteceu eu já estava em terapia há algum tempo, mais de um ano. No começo eu gostei bastante, a terapeuta me ajudou muito, mas com o passar do tempo comecei a sentir que não progredia. Eu percebia que conseguia resolver mais coisas pensando sozinha em casa do que na terapia. Eu queria parar, mas não sabia como comunicar isso à terapeuta, tinha medo de que ela ficasse chateada comigo, tinha medo de que ela ficasse insistindo para eu continuar. Eu não lembro exatamente o que foi que falei para ela na época, mas sei que inventei alguma desculpa, não tive coragem de dizer que ela não estava mais me ajudando como antes.

Na segunda vez eu fui a uma primeira consulta com uma outra psicóloga. Não gostei dela logo de cara e conforme a sessão ia se desenrolando eu ia gostando menos. Quando terminou não tive coragem de dizer que não tinha gostado e que não voltaria mais. Deixei o horário marcado para voltar na semana seguinte. Durante a semana pensei várias vezes em ligar para ela, inventar uma desculpa e desmarcar; mas depois achei melhor encarar o problema de frente, ir até lá e dizer que eu não tinha gostado da sessão anterior e que não queria continuar. E foi o que fiz (não, não foi fácil, foi gaguejando e suando frio). Ela me disse que eu "tinha que ter fé que a terapia daria certo". E eu tive a certeza de que não daria certo, agradeci e fui embora. Não tenho dúvida de que este "rompimento" com ela foi terapêutico para mim, nele enfrentei alguns fantasmas que me atormentaram por muito tempo em outras relações. 

Das  histórias que ouvi de outras pessoas que decidiram interromper a terapia, das duas uma: ou a pessoa inventa uma desculpa para não falar a verdade, ou fala verdade e ouve como resposta uma abobrinha qualquer, uma acusação, uma interpretação tosca. É muito raro encontrar um psicólogo que compreenda e aceite a escolha do paciente nesta questão.

Eu vou dar uma sugestão. Se você estiver em dúvida se deve continuar ou não o processo terapêutico, tente compartilhar este sentimento com seu terapeuta. A maneira como ele reagir a isso te dirá se continuar com ele vale a pena ou não.

Tem outras coisas que quero falar sobre este assunto, fazendo uma ponte com a teoria psicanalítica, mas hoje não vai dar tempo, vai ficar para a semana que vem ;)

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Preservação dos sintomas

Ao longo da apresentação do caso Dora (assim que terminar de ler farei um post só sobre isso), Freud faz algumas considerações sobre o porquê de alguns sintomas reaparecerem mesmo após o conflito que o causou ter sido resolvido.

Ele explica que o processo de conversão de um conflito psíquico em um sintoma corporal é complexo, exigindo várias condições que favoreçam esta transposição. É uma "via de descarga" que dá trabalho para ser construída. Uma vez resolvido o conflito inconsciente que deu origem ao sintoma, este caminho utilizado para descarregar a energia psíquica fica à disposição do psiquismo do indivíduo para ser reutilizado quando necessário (é muito mais fácil utilizar uma via já transitável do que construir uma nova).

Quando surge um novo pensamento que - ao não ser devidamente verbalizado e acolhido - precisa de descarga, cria-se uma associação entre esta ideia e aquela que originalmente causou o sintoma e utiliza-se da mesma via para descarregá-lo. E o sintoma volta a aparecer.

Sendo assim, Freud entende que o sintoma histérico é a parte mais estável da doença, enquanto a parte psíquica apresenta-se como a mais variável, que pode ser substituída com mais facilidade.

Apesar de neste trecho ele tratar especificamente da histeria, a meu ver isso não se aplica apenas a ela. Digo isso porque passei por uma situação que se encaixa neste conceito.

Há alguns anos comecei a sentir uma tontura sem explicação aparente. Fui ao médico (eu achava que estava com hipoglicemia), fiz uma série de exames e nada que indicasse qualquer problema orgânico. Passei também por um otorrino para ver se não era labirintite e nada também, tudo dentro do normal. Este segundo médico me disse que poderia ser stress. Eu não estava estressada, mas o fato de qualquer causa orgânica ter sido descartada me fez pensar que a causa poderia ser emocional. Comecei a  relembrar as situações em que tinha sentido a tontura e desconfiei do que poderia ser a raiz do problema. Era algo que vinha me incomodando há algum tempo e eu não havia falado sobre isso com as pessoas envolvidas na situação. Resolvi falar e consegui encontrar uma solução para o problema. Logo em seguida a tontura desapareceu.

Alguns meses depois a tontura voltou! As circunstâncias em que ela apareceu já eram bem diferentes da original, mas na minha cabeça aquele sintoma era um sinal de que eu deveria prestar mais atenção no que estava se passando comigo emocionalmente, como se fosse um alarme interno avisando que algo precisava ser tratado. E novamente, refleti, desconfiei do que poderia ser a causa, cuidei do problema e a tontura desapareceu. 

Eu acredito que todos nós temos questões mais críticas a serem resolvidas relacionadas a partes mais sensíveis do nosso corpo - sim, porque o vínculo entre o conflito e o sintoma não é aleatório, há uma relação simbólica entre eles - e acho importante que cada um conheça sua "via de descarga". Faz parte do autoconhecimento e contribui para o processo terapêutico.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Explicação e compreensão

Uma coisa que eu acho muito legal na obra do Freud é que ele constantemente retoma conceitos anteriormente abordados e lança um novo olhar, revê, corrige, reformula.

No início do vol. 7 da Obra Completa, antes de apresentar o caso Dora, ele fala sobre as mudanças que implementou em sua técnica. De acordo com ele "a técnica psicanalítica sofreu uma revolução radical".

Ele explica que anteriormente preocupava-se em explicar cada um dos sintomas apresentados pelo paciente (o famoso "Freud explica"), mas com o tempo ele percebeu que esta abordagem não era adequada para "lidar com a estrutura mais fina da neurose". Então passou a deixar que o paciente escolhesse o tema sobre o qual gostaria de falar naquele momento. A partir desta mudança as questões ligadas a um determinado sintoma iam aparecendo aos poucos, em fragmentos, no decorrer das sessões, às vezes de forma bastante dispersa. Para ele "apesar dessa aparente desvantagem, a nova técnica é muito superior à antiga, e é incontestavelmente a única possível".

Para mim esta mudança consiste em sair da explicação para a compreensão. Quando nos preocupamos em explicar algo para alguém nos colocamos em uma posição de superioridade, o sabe-tudo que conhece o paciente mais do que ele mesmo. Quando buscamos compreender o outro ouvimos mais do que falamos, deixamos que ele nos guie através dos temas que ele deseja abordar, no momento em que quiser, da forma como preferir. Na explicação somos nós que apresentamos a solução. Na compreensão acolhemos aquilo que o paciente nos traz e o ajudamos a descobrir as respostas ele mesmo.

E concordo com o Freud, mesmo que esta segunda abordagem possa ser mais demorada, mesmo que o analista tenha que se conter e deixar de dar respostas que já formulou através de associações entre ideias que fez em sua cabeça enquanto o paciente falava, não tenho dúvidas de que ela é a única possível quando o intuito é oferecer ao paciente a possibilidade de se autoanalisar e alcançar a cura através do autoconhecimento.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Lembranças encobridoras

No vol. 3 de sua Obra Completa, Freud apresenta um conceito que ele chama de "lembranças encobridoras".

Ele explica que em geral aquilo que recordamos de nosso passado são eventos importantes, que de alguma forma causaram em nós um grande impacto. Entretanto muitas vezes nos surpreendemos por esquecer fatos que consideramos importantes e nos lembrar de outros que não parecem ter grande importância.

Freud cita como exemplo a história de um rapaz cuja lembrança mais antiga, de quando tinha entre três e quatro anos de idade, era de uma mesa com uma bacia de gelo em cima. De acordo com os pais dele, nesta mesma época ocorreu a morte da avó do garoto, fato que apesar de ter causado um grande impacto na criança não deixou qualquer lembrança em sua memória quando adulto.

A mesa com a bacia de gelo provavelmente trata-se de uma "lembrança encobridora", ou seja, a recordação de algo trivial que tem ligação com alguma lembrança importante cujos principais elementos foram omitidos. Esta lembrança surge como resultado da luta entre duas forças opostas: uma que quer guardar a experiência devido à sua importância e outra (uma resistência) que quer impedir a manutenção desta memória devido a algum sentimento desagradável gerado por ela.

Este conceito me chamou a atenção devido a uma lembrança que tenho da minha infância, a mais antiga talvez. Na imagem que ficou guardada em minha memória eu estou em casa na companhia de uma prima mais velha e estamos brincando de pisar em um grande plástico bolha. É uma lembrança feliz, em que me acabo de rir com o barulho das bolhinhas estourando. Conversando com minha mãe descobri que fiquei em casa na companhia desta prima quando ela foi com meu pai à maternidade para ter minha irmã, três anos e meio mais nova do que eu. Sobre o plástico bolha, ela me contou que na semana em que minha irmã nasceu eles tinham comprado uma geladeira nova (ou algum outro eletrodoméstico, não me lembro direito agora, tenho que perguntar de novo, rs), que veio envolta em plástico bolha.

É bem provável que o nascimento da minha irmã tenha trazido sentimentos contraditórios, um misto de alegria e ciúme, insegurança, medo talvez, das mudanças que aconteceriam com a sua chegada. Na luta entre as duas forças para guardar a lembrança de seu nascimento, um acontecimento marcante, e esquecer os sentimentos desagradáveis, me esqueci do nascimento e me lembrei do plástico bolha :)

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Ainda sobre sonhos

Estava aqui relendo o blog e os comentários e senti a necessidade de fazer um adendo à série de posts sobre os sonhos, que começa aqui e termina aqui.

Quero complementar o que escrevi no post Sonhos - Parte 6, sobre os sonhos desagradáveis e a afirmação do Freud de que todo sonho é a realização de um desejo.

Para facilitar a explicação, vou apresentar dois conceitos do Luís César Ebraico: o Desejo de Coisa e o Desejo de Palavra.

Vamos imaginar uma pessoa que tenha vivido uma infância difícil e tenha passado fome. Quando temos fome, queremos comida, o que sentimos é um Desejo de Coisa (sendo esta coisa a comida). Vamos supor que na vida adulta esta mesma pessoa tenha melhorado de vida e desde então não tenha mais passado necessidade, ou seja, pode satisfazer sua fome (seu Desejo de Coisa) sempre que ela surgiu. Mesmo assim, pode ser que a infância difícil tenha deixado marcas emocionais ligadas ao sentimento de passar fome. Para dar vazão a esta carga emocional, a pessoa sente necessidade de falar sobre como foi passar fome, ou seja, é um Desejo de Palavra. Quando a pessoa fala sobre o quanto sofreu quando passou fome não é comida que ela quer, é escuta e acolhimento do sentimento relativo àquela experiência.

Um outro exemplo mais sutil. Uma pessoa reclama que está se sentindo sobrecarregada, que não consegue cumprir todas as suas tarefas em casa, no trabalho. Pode ser que ela precise de ajuda para dar conta de todas as suas tarefas (Desejo de Coisa), neste caso a solução seria dividir as obrigações do trabalho com um outro funcionário ou contratar uma ajudante para auxiliá-la nos afazeres domésticos. Ou então pode ser que na verdade o que ela tem é necessidade de falar sobre as situações de sua vida em que sente que suas obrigações são maiores do que sua capacidade (Desejo de Palavra). Neste caso, arrumar alguém para dividir as tarefas não resolve o problema, o que resolve é poder falar sobre isso e se sentir acolhida.

(Não sei se ficou claro, pretendo voltar neste assunto.  Caso queiram mais detalhes sobre estes conceitos, recomendo o livro do Ebraico,)

Voltando aos sonhos. Para mim, a afirmação do Freud de que todo sonho é a realização de um desejo só faz sentido se entendermos o desejo da forma apresentada pelo Ebraico, ou seja, abrangendo o Desejo de Coisa e o Desejo de Palavra. E entendo que existem três tipos diferentes de sonhos:

1) Os agradáveis. São sonhos em que realizamos algo prazeroso, como sonhar que se está viajando, andando em um jardim florido ou conversando com alguém de quem gostamos. Pode ser tanto Desejo de Coisa quanto de Palavra. Eu já sonhei que estava contando para alguém uma coisa legal que tinha acontecido naquele dia, claramente um Desejo de Palavra!

2) Os desagradáveis ligados a um Desejo de Coisa. São sonhos em que realizamos algo que queremos (nosso ego quer), mas encontramos uma censura interna (o superego) que faz com que a realização deste desejo venha acompanhada de sentimentos desagradáveis (culpa, vergonha, nojo, etc.). Por exemplo, uma pessoa casada que tem desejo por outra e se sente culpada por isso. À noite podem surgir pesadelos em que ela se vê na companhia desta pessoa por quem se sente atraída (pode ser tanto um sonho em que isso apareça de forma nítida ou disfarçada), enquanto coisas ruins acontecem ao seu redor. Ao mesmo tempo em que realiza seu Desejo de Coisa (estar com esta pessoa), o sonho traz sentimentos ruins pelo fato de ela não se permitir realizar este desejo.

3) Os desagradáveis ligados a um Desejo de Palavra. São sonhos cujo enredo narra uma situação desagradável sobre a qual gostaríamos de falar. Imagine uma pessoa que tenha sido assaltada. À noite ela pode sonhar com o assalto, pode se ver sendo baleada, torturada, enfim, mil situações desagradáveis ligadas à experiência original. É claro que essa pessoa não tem o desejo de ser assaltada (não é um Desejo de Coisa), mas o assalto pode ter deixado uma memória traumática cuja emoção precisa ser "esvaziada" através da fala. O sonho apareceria como uma narrativa através da qual ela satisfaz seu Desejo de Palavra, sua vontade de contar aquilo que aconteceu, os medos que sentiu, o que imaginou que poderia acontecer.

Bom, e por que eu classifiquei desta forma? Porque acho que dependendo do tipo, o sonho nos indica questões diferentes a serem trabalhadas.

O primeiro é o mais fácil. Uma pessoa que só tem sonhos agradáveis provavelmente tem lidado bem com seus conflitos internos durante o dia para que eles lhe dêem sossego à noite e possibilitem um sono sereno. Acredito que o segundo aponta para um conflito entre valores internos (da própria pessoa) e externos (da sociedade) - o superego em geral representa valores sociais introjetados pelo indivíduo. Neste caso acho válida uma reflexão sobre a importância destas duas instâncias em sua vida, sobre as renúncias que tem feito e os desejos que tem atendido. Já o terceiro indica a necessidade de encontrar alguém que possa ouvir de forma empática e acolheradora. Sim, porque não basta falar para satisfazer o Desejo de Palavra, é preciso o retorno, a escuta apropriada. Quando o ouvinte responde com frases como "deixa pra lá", "já passou", a pessoa não tem seu sentimento legitimado.

Bom, por enquanto é isso. Caso futuramente me ocorram novas ideias sobre os sonhos eu retomo o tema ;)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Pacientes "analisáveis"

Estava dando uma organizada no armário e reencontrei um livro que comprei há algum tempo, mas que entrou na fila das leituras acumuladas e acabou ficando esquecido num canto. O nome é "A Técnica e a Prática da Psicanálise" do Ralph Greenson.

Comecei a folhear e encontrei respostas para algumas questões que tinham passado pela minha cabeça nos últimos dias. O livro é ótimo, escrito numa linguagem simples, bem didático, do jeito que eu gosto!

Uma pergunta que eu vinha me fazendo era: será que todas as pessoas são candidatas a uma terapia psicanalítica? De acordo com o autor a resposta é não.

Para Greenson, o tratamento psicanalítico é doloroso, profundo, sofrido e geralmente demorado. Para que o paciente tenha motivação para enfrentar este processo é necessário que seus sintomas tragam uma quantidade de sofrimento considerável, ou seja, seu estado psíquico atual deve representar uma carga pesada o suficiente para justificar tamanho investimento e disposição! Em sua opinião, problemas triviais e situações que exijam resultados rápidos não trazem a motivação necessária para este tipo de tratamento.

Outro ponto que o autor levanta diz respeito à situação de vida do paciente. Greenson entende que "não se pode fazer um trabalho analítico num campo de batalha. É preciso que haja oportunidade para a contemplação e introspecção fora da sessão analítica".

Apesar de eu adorar a Psicanálise e tê-la adotado como abordagem para a minha prática profissional, acredito que é preciso ter humildade para reconhecer a minha incapacidade para ajudar o paciente quando ele não se adapta à minha forma de trabalho e encaminhá-lo a um terapeuta cuja teoria e técnica possam atender àquilo que ele precisa naquele momento. Não acho que existam pacientes "não analisáveis" mas acredito que em alguns momentos a pessoa pode não estar disposta a cutucar as feridas e olhar para dentro de forma mais profunda.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Histeria, fobia e obsessão

No início de suas primeiras publicações psicanalíticas (vol. 3 da obra completa), Freud fala sobre as diferenças entre histeria, fobia e obsessão.

As três são desencadeadas por situações traumáticas cuja lembrança é erradicada da consciência enquanto os sentimentos ligados a esta lembrança continuam com uma carga emocional muito forte. A diferença reside no caminho que o psiquismo do indivíduo percorre para descarregar esta emoção.

Na histeria este excesso de energia ligado à situação traumática é convertido em um sintoma físico, geralmente distúrbios das funções motoras, como paralisia de membros, ou dos órgãos dos sentidos, como disfunções ou alucinações auditivas e visuais (sim, a pessoa pode ficar cega ou deixar de andar devido a um trauma psíquico!). Sendo o Freud médico neurologista, pode-se compreender porque sua teoria começou a ser formulada a partir do estudo da histeria. Estes pacientes o procuravam porque aparentemente havia algum problema neurológico para que o sistema sensório-motor "falhasse". 

Mas nem todas as pessoas convertem esta carga emocional do trauma psíquico em um sintoma físico. Nos pacientes fóbicos e obsessivos esta emoção permanece na esfera psíquica. O ego desfaz a conexão entre a emoção e a lembrança da situação traumática e cria uma nova conexão entre esta mesma emoção e um outro pensamento (mais suportável do que a memória do trauma).

Freud apresenta alguns exemplos de fobias e obsessões para ilustrar sua teoria.

Ele conta o caso de uma jovem que sofria de obsessão. Sempre que ela via a notícia de algum crime nos jornais, ela se auto-recriminava, questionando-se constantemente se não teria sido ela a autora da infração. Apesar de ter consciência do absurdo desta ideia, ela não conseguia deixar de ter estes pensamentos e sofria com a culpa.

Em um outro caso, uma moça tinha fobia de, ao sentir vontade de fazer xixi, não conseguir segurar e fazer nas calças. Ela só se sentia bem em locais onde houvesse um banheiro próximo e acessível, o que restringia bastante sua vida social.

Em ambos os casos ele conta que os sintomas surgiram após uma situação em que as pacientes se sentiram excitadas sexualmente e se recriminaram por isso. Ou seja, provavelmente no primeiro caso a excitação sexual deu origem a um sentimento de culpa, mas a situação que causou esta excitação era tão constrangedora para a paciente que o ego escolheu esquecê-la e colocou em seu lugar ideias obsessivas de outras situações em que a paciente pudesse se sentir culpada. No segundo caso o sentimento ligado à situação excitante deve ter sido de vergonha, então o ego associou o sentimento ao medo de fazer xixi nas calças, uma situação vergonhosa, mas certamente menos angustiante do que o evento primário.

O parágrafo anterior traz aquela ideia recorrente de que para Freud a causa de tudo é a vida sexual do indivíduo! No caso da fobia, eu consigo dar facilmente alguns exemplos que contrariam esta ideia. Alguém pode ter fobia de cachorro por ter sido mordido por um, ou ter fobia de dirigir por ter sofrido um acidente de automóvel. Nestes dois casos pode parecer que o medo está ligado ao evento original, ou seja, aparentemente não houve nenhuma desconexão do sentimento com a situação traumática e sua reconexão com um evento novo, mas na verdade houve. O medo é transferido do evento traumático do passado para outras situações semelhantes que acontecem no presente, ou seja, a pessoa passa a ter medo do cachorro que encontra hoje e do acidente que pode acontecer hoje. E outro ponto interessante, nestes dois casos a pessoa pode perfeitamente conhecer a causa do problema mas continuar com a fobia, ou seja, a explicação não cura, o que cura é reduzir a carga emocional ligada à lembrança (o que é feito através da expressão verbal, é a fala que cura!).

Quanto as obsessões, Freud diz: "Em todos os casos que analisei, era a vida sexual do sujeito que havia despertado um afeto aflitivo, precisamente da mesma natureza do ligado à sua obsessão. Teoricamente, não é impossível que esse afeto possa às vezes emergir em outras áreas; resta-me apenas relatar que, até o momento, não deparei com nenhuma outra origem.". Eu, por enquanto, não tenho dados para questioná-lo.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Isolando ideias

Na discussão do caso de Miss Lucy R., que Freud apresenta no volume 2 de sua obra completa, ele faz algumas análises bem interessantes.

Trata-se de mais um caso de histeria, em que a paciente perdeu o sentido do olfato. Durante as sessões de análise eles descobrem a ideia traumática que deu início ao processo de adoecimento da paciente (uma conversa em que Lucy é repreendida por seu patrão).

Freud explica que a lembrança desta conversa é incompatível com o ego da paciente. Para defender-se, a lembrança é "expulsa" da consciência e em seu lugar surge o sintoma.

Agora a parte que eu achei mais interessante: esta ideia expulsa não é aniquilada, ela apenas é isolada psiquicamente, ou seja, fica guardada em uma outra instância, no inconsciente da paciente. E, apesar de não ser acessível à consciência, esta ideia reprimida pode ser "ativada" em situações que Freud chama de "momentos auxiliares" (já ouvi também a expressão "trauma secundário"), ou seja, situações que causam sentimentos semelhantes àqueles ligados ao trauma inicial. É de se imaginar que estes momentos façam com que o estado de saúde do indivíduo, que já é frágil, se agrave ainda mais.

Isso me faz lembrar de conversas em que alguém vem desabafar, compartilhar uma experiência incômoda, um sentimento ruim, um medo e o outro diz "ah, deixa isso pra lá" ou "esquece isso". Este tipo de "escuta" (acho que surdez seria mais apropriado) incentiva o isolamento da ideia. Esta ideia ficará escondidinha, mas os sentimentos a ela relacionados poderão ser acessados diversas vezes em inúmeras situações, causando muito mais danos e sofrimento do que se fosse encarada de frente, escutada e acolhida.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Estudos sobre a histeria

No volume 2 da obra completa do Freud, chamado de Estudos Sobre a Histeria, ele conta o caso de uma paciente que, após várias sessões de hipnose bem sucedidas, mostrou-se resistente à técnica e não entrou no estado hipnótico esperado. A partir deste momento Freud começa a perceber de forma marcante as limitações da técnica que vinha empregando e passa a buscar outras alternativas. 

Ele começou a pedir apenas concentração. Solicitava que o paciente se deitasse, fechasse os olhos e se concentrasse. A seguir ele passava a fazer perguntas sobre o estado de saúde do paciente e a origem dos sintomas. Caso o paciente respondesse não saber o motivo do surgimento de seus sintomas (o que devia ser bastante comum), Freud colocava as mãos na cabeça do paciente, aplicava-lhe uma pressão sobre a testa, sugeria que ele voltasse a pensar em sua pergunta e informava que assim que ele aliviasse a pressão algo apareceria em sua mente e que esta seria a resposta que estavam buscando.

Logo nas primeiras sessões, ele se disse surpreso com os resultados obtidos, que nada deixavam a desejar em comparação com a hipnose. Mesmo quando o paciente dizia que continuava sem saber a resposta para sua pergunta, ele insistia no procedimento e realizava a pressão na testa mais três ou quatro vezes até conseguir a informação que queria. E agora a parte mais interessante da história: ao revelar a resposta, após esta longa insistência por parte do analista, às vezes o paciente dizia que desde o primeiro  momento sabia ser esta a resposta mas não queria dizer, ou tinha a esperança de que algo diferente surgisse à sua mente!

Esta constatação trouxe para Freud uma compreensão que pode ser entendida como a definição da Psicanálise enquanto teoria psicológica: "Posso afirmar que esse esquecimento é muitas vezes intencional e desejado", ou seja, para a Psicanálise, quando eu me esqueço de algo eu escolhi esquecê-lo! (falei mais sobre isso aqui neste post).

"A conclusão que extraí de todas essas observações foi que as experiências que desempenharam um papel patogênico importante, junto com todos os seus concomitantes secundários, são retidas com exatidão na memória do paciente, mesmo quando parecem ter sido esquecidas - quando ele é incapaz de relembrá-las." (Freud, Estudos Sobre a Histeria, 1893-1895).
Cena de "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança", filme maravilhoso que tem tudo a ver com o assunto!

segunda-feira, 3 de março de 2014

E a hipnose, funciona?

Acabei de me formar em Psicologia. Finalmente! Agora resolvi criar vergonha na cara e ler a obra completa do Freud. Eu li algumas coisas dele picadas, aqui e ali durante a faculdade, alguns casos clínicos, mas nunca peguei os 24 volumes para ler inteirinhos.

Estou lendo o primeiro volume, que reúne algumas publicações dele chamadas de pré-psicanalíticas e me chamou a atenção o relato de um caso clínico utilizando a hipnose (que era a única técnica utilizada pelo Freud logo no início).

Freud conta o caso de uma mulher entre vinte e trinta anos de idade que era incapaz de amamentar seu bebê recém nascido.

Ela vivia um casamento feliz e teve um parto sem grandes dificuldades. Entretanto, apesar de sua grande vontade de amamentar, sentia muitas dores quando o bebê sugava-lhe o seio, produzia pouco leite, alimentava-se mal (não tinha fome) e sofria de insônia. Depois de quinze dias tentando, desistiu e achou mais prudente que uma ama de leite amamentasse a criança.

Depois de três anos, a mulher teve um outro bebê e novamente viu-se incapaz de amamentá-lo. Os sintomas eram ainda piores. Além dos relatados na experiência anterior, ela vomitava tudo o que ingeria, apresentava-se inquieta e deprimida com a presença da criança. Desta vez optou por evitar a ama de leite e buscar outros recursos para que a amamentação fosse bem sucedida. Os médicos que a atendiam indicaram a sugestão hipnótica e apresentaram Freud à paciente.

Freud conversou com a paciente levando-a ao estado de transe hipnótico e neste momento contestou os possíveis medos referentes à amamentação, disse que ela era capaz de cuidar bem do bebê, que ele cresceria saudável, que ela recuperaria o apetite e que tudo ficaria bem. Ao acordar, ela não se lembrava da conversa, mas no dia seguinte mostrou-se disposta e com fome, alimentou-se bem e conseguiu amamentar o bebê satisfatoriamente. No entanto, na refeição seguinte voltaram os vômitos, a indisposição e a incapacidade de amamentar. E Freud foi chamado novamente.

Após esta segunda sessão de hipnose os sintomas desapareceram por completo e a mulher conseguiu amamentar o bebê sem qualquer impedimento até os oito meses.

Depois de um ano nasceu o terceiro filho e a história se repetiu como nos dois primeiros. Freud foi chamado mais uma vez e após duas sessões de hipnose a mulher viu-se livre dos sintomas e pode prosseguir com a amamentação.

Ao contrário do que muitos pensam, a hipnose não é uma técnica ultrapassada, existem profissionais capacitados que a utilizam ainda hoje. Aparentemente ela é bastante útil como uma solução temporária para algum problema urgente, algo que não possa esperar; mas não atua na causa do problema, não resolve definitivamente (pela própria fala do Freud neste caso clínico percebe-se que a hipnose tem como objetivo silenciar os temores do paciente para que ele possa lidar com a situação momentânea). A mulher que amamenta não pode esperar semanas, meses ou anos de psicoterapia para encontrar a causa raiz de sua dificuldade e solucioná-la, um executivo que tem fobia de avião e se vê prestes a perder um negócio importante não pode esperar para atuar na causa de seu medo, o estudante que tem crises de ansiedade ao ser submetido a um exame não pode esperar estando às vésperas do vestibular.

Nestas situações acredito que a hipnose seja uma técnica interessante. Entretanto é importante alertar o paciente quanto aos riscos de uma "recaída" e conscientizá-lo de que ganhos mais duradouros só seriam alcançados com uma psicoterapia.