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quinta-feira, 13 de março de 2014

Estudos sobre a histeria

No volume 2 da obra completa do Freud, chamado de Estudos Sobre a Histeria, ele conta o caso de uma paciente que, após várias sessões de hipnose bem sucedidas, mostrou-se resistente à técnica e não entrou no estado hipnótico esperado. A partir deste momento Freud começa a perceber de forma marcante as limitações da técnica que vinha empregando e passa a buscar outras alternativas. 

Ele começou a pedir apenas concentração. Solicitava que o paciente se deitasse, fechasse os olhos e se concentrasse. A seguir ele passava a fazer perguntas sobre o estado de saúde do paciente e a origem dos sintomas. Caso o paciente respondesse não saber o motivo do surgimento de seus sintomas (o que devia ser bastante comum), Freud colocava as mãos na cabeça do paciente, aplicava-lhe uma pressão sobre a testa, sugeria que ele voltasse a pensar em sua pergunta e informava que assim que ele aliviasse a pressão algo apareceria em sua mente e que esta seria a resposta que estavam buscando.

Logo nas primeiras sessões, ele se disse surpreso com os resultados obtidos, que nada deixavam a desejar em comparação com a hipnose. Mesmo quando o paciente dizia que continuava sem saber a resposta para sua pergunta, ele insistia no procedimento e realizava a pressão na testa mais três ou quatro vezes até conseguir a informação que queria. E agora a parte mais interessante da história: ao revelar a resposta, após esta longa insistência por parte do analista, às vezes o paciente dizia que desde o primeiro  momento sabia ser esta a resposta mas não queria dizer, ou tinha a esperança de que algo diferente surgisse à sua mente!

Esta constatação trouxe para Freud uma compreensão que pode ser entendida como a definição da Psicanálise enquanto teoria psicológica: "Posso afirmar que esse esquecimento é muitas vezes intencional e desejado", ou seja, para a Psicanálise, quando eu me esqueço de algo eu escolhi esquecê-lo! (falei mais sobre isso aqui neste post).

"A conclusão que extraí de todas essas observações foi que as experiências que desempenharam um papel patogênico importante, junto com todos os seus concomitantes secundários, são retidas com exatidão na memória do paciente, mesmo quando parecem ter sido esquecidas - quando ele é incapaz de relembrá-las." (Freud, Estudos Sobre a Histeria, 1893-1895).
Cena de "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança", filme maravilhoso que tem tudo a ver com o assunto!

segunda-feira, 3 de março de 2014

E a hipnose, funciona?

Acabei de me formar em Psicologia. Finalmente! Agora resolvi criar vergonha na cara e ler a obra completa do Freud. Eu li algumas coisas dele picadas, aqui e ali durante a faculdade, alguns casos clínicos, mas nunca peguei os 24 volumes para ler inteirinhos.

Estou lendo o primeiro volume, que reúne algumas publicações dele chamadas de pré-psicanalíticas e me chamou a atenção o relato de um caso clínico utilizando a hipnose (que era a única técnica utilizada pelo Freud logo no início).

Freud conta o caso de uma mulher entre vinte e trinta anos de idade que era incapaz de amamentar seu bebê recém nascido.

Ela vivia um casamento feliz e teve um parto sem grandes dificuldades. Entretanto, apesar de sua grande vontade de amamentar, sentia muitas dores quando o bebê sugava-lhe o seio, produzia pouco leite, alimentava-se mal (não tinha fome) e sofria de insônia. Depois de quinze dias tentando, desistiu e achou mais prudente que uma ama de leite amamentasse a criança.

Depois de três anos, a mulher teve um outro bebê e novamente viu-se incapaz de amamentá-lo. Os sintomas eram ainda piores. Além dos relatados na experiência anterior, ela vomitava tudo o que ingeria, apresentava-se inquieta e deprimida com a presença da criança. Desta vez optou por evitar a ama de leite e buscar outros recursos para que a amamentação fosse bem sucedida. Os médicos que a atendiam indicaram a sugestão hipnótica e apresentaram Freud à paciente.

Freud conversou com a paciente levando-a ao estado de transe hipnótico e neste momento contestou os possíveis medos referentes à amamentação, disse que ela era capaz de cuidar bem do bebê, que ele cresceria saudável, que ela recuperaria o apetite e que tudo ficaria bem. Ao acordar, ela não se lembrava da conversa, mas no dia seguinte mostrou-se disposta e com fome, alimentou-se bem e conseguiu amamentar o bebê satisfatoriamente. No entanto, na refeição seguinte voltaram os vômitos, a indisposição e a incapacidade de amamentar. E Freud foi chamado novamente.

Após esta segunda sessão de hipnose os sintomas desapareceram por completo e a mulher conseguiu amamentar o bebê sem qualquer impedimento até os oito meses.

Depois de um ano nasceu o terceiro filho e a história se repetiu como nos dois primeiros. Freud foi chamado mais uma vez e após duas sessões de hipnose a mulher viu-se livre dos sintomas e pode prosseguir com a amamentação.

Ao contrário do que muitos pensam, a hipnose não é uma técnica ultrapassada, existem profissionais capacitados que a utilizam ainda hoje. Aparentemente ela é bastante útil como uma solução temporária para algum problema urgente, algo que não possa esperar; mas não atua na causa do problema, não resolve definitivamente (pela própria fala do Freud neste caso clínico percebe-se que a hipnose tem como objetivo silenciar os temores do paciente para que ele possa lidar com a situação momentânea). A mulher que amamenta não pode esperar semanas, meses ou anos de psicoterapia para encontrar a causa raiz de sua dificuldade e solucioná-la, um executivo que tem fobia de avião e se vê prestes a perder um negócio importante não pode esperar para atuar na causa de seu medo, o estudante que tem crises de ansiedade ao ser submetido a um exame não pode esperar estando às vésperas do vestibular.

Nestas situações acredito que a hipnose seja uma técnica interessante. Entretanto é importante alertar o paciente quanto aos riscos de uma "recaída" e conscientizá-lo de que ganhos mais duradouros só seriam alcançados com uma psicoterapia.