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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Histeria, fobia e obsessão

No início de suas primeiras publicações psicanalíticas (vol. 3 da obra completa), Freud fala sobre as diferenças entre histeria, fobia e obsessão.

As três são desencadeadas por situações traumáticas cuja lembrança é erradicada da consciência enquanto os sentimentos ligados a esta lembrança continuam com uma carga emocional muito forte. A diferença reside no caminho que o psiquismo do indivíduo percorre para descarregar esta emoção.

Na histeria este excesso de energia ligado à situação traumática é convertido em um sintoma físico, geralmente distúrbios das funções motoras, como paralisia de membros, ou dos órgãos dos sentidos, como disfunções ou alucinações auditivas e visuais (sim, a pessoa pode ficar cega ou deixar de andar devido a um trauma psíquico!). Sendo o Freud médico neurologista, pode-se compreender porque sua teoria começou a ser formulada a partir do estudo da histeria. Estes pacientes o procuravam porque aparentemente havia algum problema neurológico para que o sistema sensório-motor "falhasse". 

Mas nem todas as pessoas convertem esta carga emocional do trauma psíquico em um sintoma físico. Nos pacientes fóbicos e obsessivos esta emoção permanece na esfera psíquica. O ego desfaz a conexão entre a emoção e a lembrança da situação traumática e cria uma nova conexão entre esta mesma emoção e um outro pensamento (mais suportável do que a memória do trauma).

Freud apresenta alguns exemplos de fobias e obsessões para ilustrar sua teoria.

Ele conta o caso de uma jovem que sofria de obsessão. Sempre que ela via a notícia de algum crime nos jornais, ela se auto-recriminava, questionando-se constantemente se não teria sido ela a autora da infração. Apesar de ter consciência do absurdo desta ideia, ela não conseguia deixar de ter estes pensamentos e sofria com a culpa.

Em um outro caso, uma moça tinha fobia de, ao sentir vontade de fazer xixi, não conseguir segurar e fazer nas calças. Ela só se sentia bem em locais onde houvesse um banheiro próximo e acessível, o que restringia bastante sua vida social.

Em ambos os casos ele conta que os sintomas surgiram após uma situação em que as pacientes se sentiram excitadas sexualmente e se recriminaram por isso. Ou seja, provavelmente no primeiro caso a excitação sexual deu origem a um sentimento de culpa, mas a situação que causou esta excitação era tão constrangedora para a paciente que o ego escolheu esquecê-la e colocou em seu lugar ideias obsessivas de outras situações em que a paciente pudesse se sentir culpada. No segundo caso o sentimento ligado à situação excitante deve ter sido de vergonha, então o ego associou o sentimento ao medo de fazer xixi nas calças, uma situação vergonhosa, mas certamente menos angustiante do que o evento primário.

O parágrafo anterior traz aquela ideia recorrente de que para Freud a causa de tudo é a vida sexual do indivíduo! No caso da fobia, eu consigo dar facilmente alguns exemplos que contrariam esta ideia. Alguém pode ter fobia de cachorro por ter sido mordido por um, ou ter fobia de dirigir por ter sofrido um acidente de automóvel. Nestes dois casos pode parecer que o medo está ligado ao evento original, ou seja, aparentemente não houve nenhuma desconexão do sentimento com a situação traumática e sua reconexão com um evento novo, mas na verdade houve. O medo é transferido do evento traumático do passado para outras situações semelhantes que acontecem no presente, ou seja, a pessoa passa a ter medo do cachorro que encontra hoje e do acidente que pode acontecer hoje. E outro ponto interessante, nestes dois casos a pessoa pode perfeitamente conhecer a causa do problema mas continuar com a fobia, ou seja, a explicação não cura, o que cura é reduzir a carga emocional ligada à lembrança (o que é feito através da expressão verbal, é a fala que cura!).

Quanto as obsessões, Freud diz: "Em todos os casos que analisei, era a vida sexual do sujeito que havia despertado um afeto aflitivo, precisamente da mesma natureza do ligado à sua obsessão. Teoricamente, não é impossível que esse afeto possa às vezes emergir em outras áreas; resta-me apenas relatar que, até o momento, não deparei com nenhuma outra origem.". Eu, por enquanto, não tenho dados para questioná-lo.