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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Preservação dos sintomas

Ao longo da apresentação do caso Dora (assim que terminar de ler farei um post só sobre isso), Freud faz algumas considerações sobre o porquê de alguns sintomas reaparecerem mesmo após o conflito que o causou ter sido resolvido.

Ele explica que o processo de conversão de um conflito psíquico em um sintoma corporal é complexo, exigindo várias condições que favoreçam esta transposição. É uma "via de descarga" que dá trabalho para ser construída. Uma vez resolvido o conflito inconsciente que deu origem ao sintoma, este caminho utilizado para descarregar a energia psíquica fica à disposição do psiquismo do indivíduo para ser reutilizado quando necessário (é muito mais fácil utilizar uma via já transitável do que construir uma nova).

Quando surge um novo pensamento que - ao não ser devidamente verbalizado e acolhido - precisa de descarga, cria-se uma associação entre esta ideia e aquela que originalmente causou o sintoma e utiliza-se da mesma via para descarregá-lo. E o sintoma volta a aparecer.

Sendo assim, Freud entende que o sintoma histérico é a parte mais estável da doença, enquanto a parte psíquica apresenta-se como a mais variável, que pode ser substituída com mais facilidade.

Apesar de neste trecho ele tratar especificamente da histeria, a meu ver isso não se aplica apenas a ela. Digo isso porque passei por uma situação que se encaixa neste conceito.

Há alguns anos comecei a sentir uma tontura sem explicação aparente. Fui ao médico (eu achava que estava com hipoglicemia), fiz uma série de exames e nada que indicasse qualquer problema orgânico. Passei também por um otorrino para ver se não era labirintite e nada também, tudo dentro do normal. Este segundo médico me disse que poderia ser stress. Eu não estava estressada, mas o fato de qualquer causa orgânica ter sido descartada me fez pensar que a causa poderia ser emocional. Comecei a  relembrar as situações em que tinha sentido a tontura e desconfiei do que poderia ser a raiz do problema. Era algo que vinha me incomodando há algum tempo e eu não havia falado sobre isso com as pessoas envolvidas na situação. Resolvi falar e consegui encontrar uma solução para o problema. Logo em seguida a tontura desapareceu.

Alguns meses depois a tontura voltou! As circunstâncias em que ela apareceu já eram bem diferentes da original, mas na minha cabeça aquele sintoma era um sinal de que eu deveria prestar mais atenção no que estava se passando comigo emocionalmente, como se fosse um alarme interno avisando que algo precisava ser tratado. E novamente, refleti, desconfiei do que poderia ser a causa, cuidei do problema e a tontura desapareceu. 

Eu acredito que todos nós temos questões mais críticas a serem resolvidas relacionadas a partes mais sensíveis do nosso corpo - sim, porque o vínculo entre o conflito e o sintoma não é aleatório, há uma relação simbólica entre eles - e acho importante que cada um conheça sua "via de descarga". Faz parte do autoconhecimento e contribui para o processo terapêutico.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Explicação e compreensão

Uma coisa que eu acho muito legal na obra do Freud é que ele constantemente retoma conceitos anteriormente abordados e lança um novo olhar, revê, corrige, reformula.

No início do vol. 7 da Obra Completa, antes de apresentar o caso Dora, ele fala sobre as mudanças que implementou em sua técnica. De acordo com ele "a técnica psicanalítica sofreu uma revolução radical".

Ele explica que anteriormente preocupava-se em explicar cada um dos sintomas apresentados pelo paciente (o famoso "Freud explica"), mas com o tempo ele percebeu que esta abordagem não era adequada para "lidar com a estrutura mais fina da neurose". Então passou a deixar que o paciente escolhesse o tema sobre o qual gostaria de falar naquele momento. A partir desta mudança as questões ligadas a um determinado sintoma iam aparecendo aos poucos, em fragmentos, no decorrer das sessões, às vezes de forma bastante dispersa. Para ele "apesar dessa aparente desvantagem, a nova técnica é muito superior à antiga, e é incontestavelmente a única possível".

Para mim esta mudança consiste em sair da explicação para a compreensão. Quando nos preocupamos em explicar algo para alguém nos colocamos em uma posição de superioridade, o sabe-tudo que conhece o paciente mais do que ele mesmo. Quando buscamos compreender o outro ouvimos mais do que falamos, deixamos que ele nos guie através dos temas que ele deseja abordar, no momento em que quiser, da forma como preferir. Na explicação somos nós que apresentamos a solução. Na compreensão acolhemos aquilo que o paciente nos traz e o ajudamos a descobrir as respostas ele mesmo.

E concordo com o Freud, mesmo que esta segunda abordagem possa ser mais demorada, mesmo que o analista tenha que se conter e deixar de dar respostas que já formulou através de associações entre ideias que fez em sua cabeça enquanto o paciente falava, não tenho dúvidas de que ela é a única possível quando o intuito é oferecer ao paciente a possibilidade de se autoanalisar e alcançar a cura através do autoconhecimento.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Lembranças encobridoras

No vol. 3 de sua Obra Completa, Freud apresenta um conceito que ele chama de "lembranças encobridoras".

Ele explica que em geral aquilo que recordamos de nosso passado são eventos importantes, que de alguma forma causaram em nós um grande impacto. Entretanto muitas vezes nos surpreendemos por esquecer fatos que consideramos importantes e nos lembrar de outros que não parecem ter grande importância.

Freud cita como exemplo a história de um rapaz cuja lembrança mais antiga, de quando tinha entre três e quatro anos de idade, era de uma mesa com uma bacia de gelo em cima. De acordo com os pais dele, nesta mesma época ocorreu a morte da avó do garoto, fato que apesar de ter causado um grande impacto na criança não deixou qualquer lembrança em sua memória quando adulto.

A mesa com a bacia de gelo provavelmente trata-se de uma "lembrança encobridora", ou seja, a recordação de algo trivial que tem ligação com alguma lembrança importante cujos principais elementos foram omitidos. Esta lembrança surge como resultado da luta entre duas forças opostas: uma que quer guardar a experiência devido à sua importância e outra (uma resistência) que quer impedir a manutenção desta memória devido a algum sentimento desagradável gerado por ela.

Este conceito me chamou a atenção devido a uma lembrança que tenho da minha infância, a mais antiga talvez. Na imagem que ficou guardada em minha memória eu estou em casa na companhia de uma prima mais velha e estamos brincando de pisar em um grande plástico bolha. É uma lembrança feliz, em que me acabo de rir com o barulho das bolhinhas estourando. Conversando com minha mãe descobri que fiquei em casa na companhia desta prima quando ela foi com meu pai à maternidade para ter minha irmã, três anos e meio mais nova do que eu. Sobre o plástico bolha, ela me contou que na semana em que minha irmã nasceu eles tinham comprado uma geladeira nova (ou algum outro eletrodoméstico, não me lembro direito agora, tenho que perguntar de novo, rs), que veio envolta em plástico bolha.

É bem provável que o nascimento da minha irmã tenha trazido sentimentos contraditórios, um misto de alegria e ciúme, insegurança, medo talvez, das mudanças que aconteceriam com a sua chegada. Na luta entre as duas forças para guardar a lembrança de seu nascimento, um acontecimento marcante, e esquecer os sentimentos desagradáveis, me esqueci do nascimento e me lembrei do plástico bolha :)

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Ainda sobre sonhos

Estava aqui relendo o blog e os comentários e senti a necessidade de fazer um adendo à série de posts sobre os sonhos, que começa aqui e termina aqui.

Quero complementar o que escrevi no post Sonhos - Parte 6, sobre os sonhos desagradáveis e a afirmação do Freud de que todo sonho é a realização de um desejo.

Para facilitar a explicação, vou apresentar dois conceitos do Luís César Ebraico: o Desejo de Coisa e o Desejo de Palavra.

Vamos imaginar uma pessoa que tenha vivido uma infância difícil e tenha passado fome. Quando temos fome, queremos comida, o que sentimos é um Desejo de Coisa (sendo esta coisa a comida). Vamos supor que na vida adulta esta mesma pessoa tenha melhorado de vida e desde então não tenha mais passado necessidade, ou seja, pode satisfazer sua fome (seu Desejo de Coisa) sempre que ela surgiu. Mesmo assim, pode ser que a infância difícil tenha deixado marcas emocionais ligadas ao sentimento de passar fome. Para dar vazão a esta carga emocional, a pessoa sente necessidade de falar sobre como foi passar fome, ou seja, é um Desejo de Palavra. Quando a pessoa fala sobre o quanto sofreu quando passou fome não é comida que ela quer, é escuta e acolhimento do sentimento relativo àquela experiência.

Um outro exemplo mais sutil. Uma pessoa reclama que está se sentindo sobrecarregada, que não consegue cumprir todas as suas tarefas em casa, no trabalho. Pode ser que ela precise de ajuda para dar conta de todas as suas tarefas (Desejo de Coisa), neste caso a solução seria dividir as obrigações do trabalho com um outro funcionário ou contratar uma ajudante para auxiliá-la nos afazeres domésticos. Ou então pode ser que na verdade o que ela tem é necessidade de falar sobre as situações de sua vida em que sente que suas obrigações são maiores do que sua capacidade (Desejo de Palavra). Neste caso, arrumar alguém para dividir as tarefas não resolve o problema, o que resolve é poder falar sobre isso e se sentir acolhida.

(Não sei se ficou claro, pretendo voltar neste assunto.  Caso queiram mais detalhes sobre estes conceitos, recomendo o livro do Ebraico,)

Voltando aos sonhos. Para mim, a afirmação do Freud de que todo sonho é a realização de um desejo só faz sentido se entendermos o desejo da forma apresentada pelo Ebraico, ou seja, abrangendo o Desejo de Coisa e o Desejo de Palavra. E entendo que existem três tipos diferentes de sonhos:

1) Os agradáveis. São sonhos em que realizamos algo prazeroso, como sonhar que se está viajando, andando em um jardim florido ou conversando com alguém de quem gostamos. Pode ser tanto Desejo de Coisa quanto de Palavra. Eu já sonhei que estava contando para alguém uma coisa legal que tinha acontecido naquele dia, claramente um Desejo de Palavra!

2) Os desagradáveis ligados a um Desejo de Coisa. São sonhos em que realizamos algo que queremos (nosso ego quer), mas encontramos uma censura interna (o superego) que faz com que a realização deste desejo venha acompanhada de sentimentos desagradáveis (culpa, vergonha, nojo, etc.). Por exemplo, uma pessoa casada que tem desejo por outra e se sente culpada por isso. À noite podem surgir pesadelos em que ela se vê na companhia desta pessoa por quem se sente atraída (pode ser tanto um sonho em que isso apareça de forma nítida ou disfarçada), enquanto coisas ruins acontecem ao seu redor. Ao mesmo tempo em que realiza seu Desejo de Coisa (estar com esta pessoa), o sonho traz sentimentos ruins pelo fato de ela não se permitir realizar este desejo.

3) Os desagradáveis ligados a um Desejo de Palavra. São sonhos cujo enredo narra uma situação desagradável sobre a qual gostaríamos de falar. Imagine uma pessoa que tenha sido assaltada. À noite ela pode sonhar com o assalto, pode se ver sendo baleada, torturada, enfim, mil situações desagradáveis ligadas à experiência original. É claro que essa pessoa não tem o desejo de ser assaltada (não é um Desejo de Coisa), mas o assalto pode ter deixado uma memória traumática cuja emoção precisa ser "esvaziada" através da fala. O sonho apareceria como uma narrativa através da qual ela satisfaz seu Desejo de Palavra, sua vontade de contar aquilo que aconteceu, os medos que sentiu, o que imaginou que poderia acontecer.

Bom, e por que eu classifiquei desta forma? Porque acho que dependendo do tipo, o sonho nos indica questões diferentes a serem trabalhadas.

O primeiro é o mais fácil. Uma pessoa que só tem sonhos agradáveis provavelmente tem lidado bem com seus conflitos internos durante o dia para que eles lhe dêem sossego à noite e possibilitem um sono sereno. Acredito que o segundo aponta para um conflito entre valores internos (da própria pessoa) e externos (da sociedade) - o superego em geral representa valores sociais introjetados pelo indivíduo. Neste caso acho válida uma reflexão sobre a importância destas duas instâncias em sua vida, sobre as renúncias que tem feito e os desejos que tem atendido. Já o terceiro indica a necessidade de encontrar alguém que possa ouvir de forma empática e acolheradora. Sim, porque não basta falar para satisfazer o Desejo de Palavra, é preciso o retorno, a escuta apropriada. Quando o ouvinte responde com frases como "deixa pra lá", "já passou", a pessoa não tem seu sentimento legitimado.

Bom, por enquanto é isso. Caso futuramente me ocorram novas ideias sobre os sonhos eu retomo o tema ;)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Pacientes "analisáveis"

Estava dando uma organizada no armário e reencontrei um livro que comprei há algum tempo, mas que entrou na fila das leituras acumuladas e acabou ficando esquecido num canto. O nome é "A Técnica e a Prática da Psicanálise" do Ralph Greenson.

Comecei a folhear e encontrei respostas para algumas questões que tinham passado pela minha cabeça nos últimos dias. O livro é ótimo, escrito numa linguagem simples, bem didático, do jeito que eu gosto!

Uma pergunta que eu vinha me fazendo era: será que todas as pessoas são candidatas a uma terapia psicanalítica? De acordo com o autor a resposta é não.

Para Greenson, o tratamento psicanalítico é doloroso, profundo, sofrido e geralmente demorado. Para que o paciente tenha motivação para enfrentar este processo é necessário que seus sintomas tragam uma quantidade de sofrimento considerável, ou seja, seu estado psíquico atual deve representar uma carga pesada o suficiente para justificar tamanho investimento e disposição! Em sua opinião, problemas triviais e situações que exijam resultados rápidos não trazem a motivação necessária para este tipo de tratamento.

Outro ponto que o autor levanta diz respeito à situação de vida do paciente. Greenson entende que "não se pode fazer um trabalho analítico num campo de batalha. É preciso que haja oportunidade para a contemplação e introspecção fora da sessão analítica".

Apesar de eu adorar a Psicanálise e tê-la adotado como abordagem para a minha prática profissional, acredito que é preciso ter humildade para reconhecer a minha incapacidade para ajudar o paciente quando ele não se adapta à minha forma de trabalho e encaminhá-lo a um terapeuta cuja teoria e técnica possam atender àquilo que ele precisa naquele momento. Não acho que existam pacientes "não analisáveis" mas acredito que em alguns momentos a pessoa pode não estar disposta a cutucar as feridas e olhar para dentro de forma mais profunda.