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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Ainda sobre sonhos

Estava aqui relendo o blog e os comentários e senti a necessidade de fazer um adendo à série de posts sobre os sonhos, que começa aqui e termina aqui.

Quero complementar o que escrevi no post Sonhos - Parte 6, sobre os sonhos desagradáveis e a afirmação do Freud de que todo sonho é a realização de um desejo.

Para facilitar a explicação, vou apresentar dois conceitos do Luís César Ebraico: o Desejo de Coisa e o Desejo de Palavra.

Vamos imaginar uma pessoa que tenha vivido uma infância difícil e tenha passado fome. Quando temos fome, queremos comida, o que sentimos é um Desejo de Coisa (sendo esta coisa a comida). Vamos supor que na vida adulta esta mesma pessoa tenha melhorado de vida e desde então não tenha mais passado necessidade, ou seja, pode satisfazer sua fome (seu Desejo de Coisa) sempre que ela surgiu. Mesmo assim, pode ser que a infância difícil tenha deixado marcas emocionais ligadas ao sentimento de passar fome. Para dar vazão a esta carga emocional, a pessoa sente necessidade de falar sobre como foi passar fome, ou seja, é um Desejo de Palavra. Quando a pessoa fala sobre o quanto sofreu quando passou fome não é comida que ela quer, é escuta e acolhimento do sentimento relativo àquela experiência.

Um outro exemplo mais sutil. Uma pessoa reclama que está se sentindo sobrecarregada, que não consegue cumprir todas as suas tarefas em casa, no trabalho. Pode ser que ela precise de ajuda para dar conta de todas as suas tarefas (Desejo de Coisa), neste caso a solução seria dividir as obrigações do trabalho com um outro funcionário ou contratar uma ajudante para auxiliá-la nos afazeres domésticos. Ou então pode ser que na verdade o que ela tem é necessidade de falar sobre as situações de sua vida em que sente que suas obrigações são maiores do que sua capacidade (Desejo de Palavra). Neste caso, arrumar alguém para dividir as tarefas não resolve o problema, o que resolve é poder falar sobre isso e se sentir acolhida.

(Não sei se ficou claro, pretendo voltar neste assunto.  Caso queiram mais detalhes sobre estes conceitos, recomendo o livro do Ebraico,)

Voltando aos sonhos. Para mim, a afirmação do Freud de que todo sonho é a realização de um desejo só faz sentido se entendermos o desejo da forma apresentada pelo Ebraico, ou seja, abrangendo o Desejo de Coisa e o Desejo de Palavra. E entendo que existem três tipos diferentes de sonhos:

1) Os agradáveis. São sonhos em que realizamos algo prazeroso, como sonhar que se está viajando, andando em um jardim florido ou conversando com alguém de quem gostamos. Pode ser tanto Desejo de Coisa quanto de Palavra. Eu já sonhei que estava contando para alguém uma coisa legal que tinha acontecido naquele dia, claramente um Desejo de Palavra!

2) Os desagradáveis ligados a um Desejo de Coisa. São sonhos em que realizamos algo que queremos (nosso ego quer), mas encontramos uma censura interna (o superego) que faz com que a realização deste desejo venha acompanhada de sentimentos desagradáveis (culpa, vergonha, nojo, etc.). Por exemplo, uma pessoa casada que tem desejo por outra e se sente culpada por isso. À noite podem surgir pesadelos em que ela se vê na companhia desta pessoa por quem se sente atraída (pode ser tanto um sonho em que isso apareça de forma nítida ou disfarçada), enquanto coisas ruins acontecem ao seu redor. Ao mesmo tempo em que realiza seu Desejo de Coisa (estar com esta pessoa), o sonho traz sentimentos ruins pelo fato de ela não se permitir realizar este desejo.

3) Os desagradáveis ligados a um Desejo de Palavra. São sonhos cujo enredo narra uma situação desagradável sobre a qual gostaríamos de falar. Imagine uma pessoa que tenha sido assaltada. À noite ela pode sonhar com o assalto, pode se ver sendo baleada, torturada, enfim, mil situações desagradáveis ligadas à experiência original. É claro que essa pessoa não tem o desejo de ser assaltada (não é um Desejo de Coisa), mas o assalto pode ter deixado uma memória traumática cuja emoção precisa ser "esvaziada" através da fala. O sonho apareceria como uma narrativa através da qual ela satisfaz seu Desejo de Palavra, sua vontade de contar aquilo que aconteceu, os medos que sentiu, o que imaginou que poderia acontecer.

Bom, e por que eu classifiquei desta forma? Porque acho que dependendo do tipo, o sonho nos indica questões diferentes a serem trabalhadas.

O primeiro é o mais fácil. Uma pessoa que só tem sonhos agradáveis provavelmente tem lidado bem com seus conflitos internos durante o dia para que eles lhe dêem sossego à noite e possibilitem um sono sereno. Acredito que o segundo aponta para um conflito entre valores internos (da própria pessoa) e externos (da sociedade) - o superego em geral representa valores sociais introjetados pelo indivíduo. Neste caso acho válida uma reflexão sobre a importância destas duas instâncias em sua vida, sobre as renúncias que tem feito e os desejos que tem atendido. Já o terceiro indica a necessidade de encontrar alguém que possa ouvir de forma empática e acolheradora. Sim, porque não basta falar para satisfazer o Desejo de Palavra, é preciso o retorno, a escuta apropriada. Quando o ouvinte responde com frases como "deixa pra lá", "já passou", a pessoa não tem seu sentimento legitimado.

Bom, por enquanto é isso. Caso futuramente me ocorram novas ideias sobre os sonhos eu retomo o tema ;)

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