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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Quando o paciente quer interromper o processo terapêutico - parte 2

Continuando o assunto da semana passada, queria focar em duas questões: por que é tão difícil para os pacientes comunicar ao psicólogo a decisão de colocar fim ao processo terapêutico? E por que é tão difícil para os psicólogos aceitar esta decisão do paciente?

Acredito que nos dois casos seja a transferência atuando, ou seja, as pessoas estão deslocando para o presente emoções ligadas a acontecimentos do passado. Vou explicar.

Eu imagino que a grande maioria das pessoas já tenha passado por algum rompimento de relacionamento e que não tenha sido uma experiência muito agradável. Em geral, nestes momentos, falamos e ouvimos coisas que magoam. Se não tivermos oportunidade para falar sobre os sentimentos que vieram à tona durante este rompimento é bem provável que esta memória adquira o status de traumática e que nos fixemos à emoção relacionada a ela. Esta fixação pode nos levar a transferir para o presente aquilo que sentimos nesta situação do passado.

É de se esperar que alguém que tenha rompido um relacionamento e tenha ouvido ofensas como resposta tenha medo de interromper a terapia e ser ofendido pelo terapeuta. Da mesma forma que alguém que tentou romper um relacionamento e viu o parceiro implorando para que continuassem juntos pode temer que o terapeuta insista para que continue na terapia. E por aí vai, com medos e receios para todos os gostos!

Em algumas situações o trauma é tão grande que, ao transferir o sentimento para o presente, a pessoa percebe que não dá conta de reviver aquilo e inventa uma desculpa para interromper o processo terapêutico ou simplesmente não aparece na sessão seguinte para evitar comunicar o rompimento. Em outras, mesmo que seja difícil, o paciente sente que consegue falar abertamente com o psicólogo sobre a sua decisão. E apenas o próprio paciente é capaz de mensurar se ele dá conta de encarar a situação ou não. Caso consiga, uma conversa aberta com o terapeuta pode ser extremamente terapêutica (principalmente se o terapeuta der uma resposta diferente daquela que gerou o trauma inicial!).

Sentir-se rejeitado também não é nada agradável. E os psicólogos, assim como os pacientes, têm sua bagagem emocional repleta de experiências boas e ruins. Um profissional que tenha passado por alguma experiência traumática envolvendo rejeição pode não reagir bem ao ouvir do paciente que deseja interromper o processo terapêutico.

Mas existe uma diferença bem grande entre os dois! Enquanto o paciente busca na terapia um porto seguro para falar sobre seus pensamentos e sentimentos, do terapeuta espera-se uma escuta acolhedora e sobretudo a capacidade de reconhecer seus próprios traumas e inseguranças e não misturá-los às questões do paciente durante o atendimento. Ou seja, o terapeuta tem todo o direito de se sentir rejeitado, ficar chateado ou ofendido; mas transformar estes sentimentos em ação, respondendo ao paciente de forma não acolhedora é uma atitude inadequada e anti profissional.

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