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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O Caso Dora

Faz semanas que estou tentando escrever sobre o Caso Dora e o texto não sai! Desisti de relatar o caso. No lugar disso vou falar sobre a minha dificuldade em falar sobre ele.

Freud faz comentários tão, mas tão machistas que é difícil levar em consideração as análises que ele faz na sequência. Tem várias análises interessantes, mas elas se baseiam em uma suposição dele que para mim é difícil de engolir. Sim, eu sei, dá para escrever uma dissertação de mestrado sobre o machismo na obra do Freud, mas eu acho que neste caso ele passou do ponto.

Só para contextualizar, trata-se de uma paciente de 18 anos que apresentava como principal queixa uma tosse nervosa que a levava à perda completa da voz. Dora tinha uma relação distante com a mãe e era muito apegada ao pai. A família convivia bastante com um casal de amigos, o Sr. e a Sra. K.

Durante o tratamento, Dora relatara a Freud duas situações em que havia sido assediada pelo Sr. K, uma aos 14 anos (um beijo não consentido) e outra aos 16 anos (ele lhe fez uma "proposta amorosa", Dora disse se lembrar que o Sr. K disse "Sabe, não tenho nada com minha mulher" e em seguida ela lhe deu uma bofetada). Vou transcrever o trecho em que Freud relata o ocorrido aos 14 anos de Dora:

"Estava então com quatorze anos. O Sr. K. combinara com ela e com sua mulher para que, à tarde, elas fossem encontrá-lo em sua loja comercial, na praça principal de B , para dali assistirem a um festival religioso. Mas ele induziu sua mulher a ficar em casa, despachou os empregados e estava sozinho quando a moça entrou na loja. Ao se aproximar a hora da procissão, pediu à moça que o aguardasse na porta que dava para a escada que levava ao andar superior, enquanto ele abaixava as portas corrediças externas. Em seguida voltou e, ao invés de sair pela porta aberta, estreitou subitamente a moça contra si e depôs-lhe um beijo nos lábios. Era justamente a situação que, numa mocinha virgem de quatorze anos, despertaria uma nítida sensação de excitação sexual. Mas Dora sentiu naquele momento uma violenta repugnância, livrou-se do homem e passou correndo por ele em direção à escada, daí alcançando a porta da rua."

E ele complementa: "(...) o comportamento dessa menina de quatorze anos já era total e completamente histérico. Eu tomaria por histérica, sem hesitação, qualquer pessoa em quem uma oportunidade de excitação sexual despertasse sentimentos preponderante ou exclusivamente desprazerosos, fosse ela ou não capaz de produzir sintomas somáticos."

Sobre o que ocorreu aos 14 ela manteve-se calada. O acontecido aos 16 anos ela relatou ao pai. Ele conversou com o Sr. K que disse tratar-se de invenção da moça. O pai acreditou no Sr. K e foi falar com Freud, pedindo que colocasse sua filha "no bom caminho".

Resumindo: a moça é atraída para um local isolado pelo amigo do pai, ele dá um jeito de ficar sozinho com ela, a beija a força, ela foge correndo e não conta para ninguém o que aconteceu. Interpretação do Freud: ela é histérica porque certamente ficou excitada com o beijo, mas negou o sentimento. Minha interpretação: o beijo forçado causou uma grande repugnância, ela reprimiu o que sentiu (não contou para ninguém), a memória tornou-se traumática e ela manifestou esta emoção reprimida através dos sintomas.

Durante as sessões de análise Freud fala para Dora que acredita que ela esteja apaixonada pelo Sr. K e ela nega. Mas posteriormente, segundo ele "quando a abundância do material surgido tornou-lhe difícil persistir na negativa, ela admitiu que poderia ter estado enamorada do Sr. K.". Eu imagino que o fato de ouvir o analista - uma figura de autoridade -  repetir várias vezes sobre a possibilidade de ela estar apaixonada pelo Sr. K possa fazer com que ela passe a se questionar sobre os seus sentimentos, a se perguntar inclusive se deu a entender que tinha algum interesse por ele, algo que justificasse o beijo forçado.

Sobre a tal "proposta amorosa" que o Sr. K lhe fez aos 16 anos, ele diz: "Eu considerava que, de modo geral, ainda era preciso explicar o que a levara a sentir-se tão gravemente melindrada pela proposta do Sr. K., tanto mais que eu começava a me aperceber de que, para o Sr. K., a proposta a Dora não significara nenhuma tentativa leviana de sedução."

Ele passa toda a análise do caso sugerindo o interesse de Dora pelo Sr. K e diminuindo a gravidade do que o Sr. K fez, como se beijar alguém à força fosse algo esperado e natural. E tem outra, mesmo que ela tivesse algum interesse por ele, este interesse não faz com que um beijo forçado seja algo necessariamente desejável!

No final do relato do caso, Freud descreve uma interpretação que fez sobre a bofetada de Dora no Sr. K, explica que não foi por repugnância, mas por ciúme. Ele também diz que ela sonha com o Sr. K divorciando-se da mulher para casar-se com ela. Ela o escuta sem contradizer suas explicações. No final da sessão ela se despede e nunca mais aparece. E Freud conclui dizendo que o que a fez abandonar o tratamento foi a resistência!!!

Esta postura dele é muito revoltante para mim. Ele faz várias suposições baseadas em seus preconceitos, interpreta os fatos com base nisso, compartilha suas interpretações com a paciente, a induz a duvidar de seus próprios sentimentos e sugere outros. Tudo o que a gente aprende durante cinco anos de faculdade a NÃO fazer. Continuo gostando muito de grande parte do que ele escreveu, mas neste caso ele pisou na bola feio!

Enfim, acabei contando boa parte do caso, rs. Acho que esse meu desabafo ilustrou um pouco como eu acredito que deva ser conduzido o processo terapêutico. Quando um assunto nos causa algum incômodo o ideal é deixar o assunto de lado e começar falando sobre o incômodo que ele nos causa. À medida em que vamos falando, o incômodo vai se dissolvendo, dissolvendo... e quando nos damos conta estamos falando sobre o assunto que queríamos sem nos incomodar tanto!

P.S.: Estou saindo de férias, volto a atualizar o blog em janeiro. Boas festas para vocês ;)