Este blog encontra-se inativo. Se quiser continuar lendo o que escrevo me acompanhe aqui:http://sheilaromejon.blogspot.com.br/

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Será que eu sou uma farsa?

Nem sempre eu consigo colocar em prática aquilo em que acredito. Quando eu ajo em desacordo com o que penso ser o melhor fico me perguntando: eu tenho o direito de escrever sobre isso, defender esta ideia sendo que eu mesma não estou conseguindo agir de acordo com o que falo?

Às vezes fico com um texto pronto sobre como criar os filhos com respeito e empatia, mas não consigo publicar porque no dia anterior perdi a paciência e gritei com as crianças.

Será que eu sou uma farsa?

Tenho pensado muito nisso e me fiz a seguinte pergunta: por que eu escrevo este blog? Para passar uma imagem de mãe modelo? Para ser vista como a prova viva do sucesso da teoria posta em prática? Não. Para falar a verdade tenho até medo de que me vejam assim. Porque eu não sou assim.

Eu escrevo para compartilhar com outras pessoas aquilo que tenho aprendido com as minhas leituras, atendimentos, experiências pessoais. Escrevo para dividir com quem me lê os questionamentos que me faço e as respostas que tenho encontrado. Escrevo porque acredito que algumas coisas que eu sei podem ser úteis para outras pessoas assim como têm sido úteis para mim (coisas que eu ficaria muito feliz se eu tivesse descoberto antes). O objetivo deste blog é ser uma fonte de apoio para quem busca informação relacionada aos temas que aqui abordo.

Entretanto, informação é apenas um tipo de apoio. No que diz respeito à maternidade, muitas vezes temos dificuldade em agir de acordo com o que acreditamos devido ao desgaste físico e emocional. Não é fácil ouvir e acolher tudo o que um dos filhos tem para dizer enquanto o outro te puxa pela barra da saia chorando desesperadamente. Não é fácil brincar com a criança do que ela quer, pelo tempo que ela quer, quando a louça transborda na pia e o jantar precisa ser preparado. E não é fácil pensar numa solução, numa maneira de conciliar tudo isso quando não temos um momento de silêncio para colocar as ideias no lugar.

Ter informação sobre a melhor forma de agir não necessariamente vai mudar a forma como a pessoa age. Para que a informação seja útil é necessário que esta mãe (ou pai, tia, avós) tenha apoio nas coisas práticas do dia-a-dia e tenha suporte emocional. Quando eu não preciso carregar todas as tarefas domésticas nas costas sozinha, quando eu tenho alguém que me ouve e acolhe meus medos, minhas inseguranças, é mais provável que eu consiga rever minhas ações de forma crítica, assimilar novas informações e pensar em mudar.

Escrever e poder reler o que escrevo em outro momento é mais uma forma de me lembrar do que norteia as minhas ações quando eu me perco no meio do turbilhão de culpas e arrependimentos que batem à minha porta.

Se você lê o que eu escrevo e diz para si: eu queria fazer isso tudo, eu queria ser uma mãe melhor, mas é tão difícil... Dá um abraço aqui! Eu também queria, eu também acho difícil. Continuo querendo e me esforçando para isso.

Ter a cabeça tranquila para criar bem os filhos é um privilégio. Nem todo mundo tem. E mesmo quem tem, não tem o tempo todo.

sábado, 28 de novembro de 2015

É possível atender um conhecido? - continuação

Quando escrevi este texto eu disse que voltaria a escrever sobre este assunto caso aparecesse alguma ideia nova a respeito dele. E apareceu.

Tem uma questão que não abordei porque não tinha me passado pela cabeça. É algo meio improvável mas acho válido mencionar.  

Acredito que eu não consiga atender um conhecido caso a questão que ele traga para tretar tratar (eu tinha digitado tretar quando queria escrever tratar, olha o ato falho, rs) na terapia esteja ligado à sua relação comigo. Acho muito difícil que a Sheila-psicóloga consiga olhar de forma imparcial para o paciente e para a Sheila-pessoa e ajudá-lo a resolver um problema entre os dois.Também acho difícil que o paciente, dentro do consultório, seja capaz de separar as coisas e me ver apenas como a Sheila-psicóloga que quer ajudá-lo e não como a Sheila-pessoa tentando puxar a sardinha para o lado dela.

Acho que esta situação não tinha me ocorrido porque acredito que alguém que me conhece não me procuraria em terapia para resolver um problema comigo, provavelmente esta pessoa me procuraria como amiga, fora do consultório. E teríamos uma conversa e não uma sessão de terapia.

Da mesma forma, quando meus filhos e meu marido conversam comigo sobre a minha relação com eles, eu não respondo como psicóloga, mas como mãe e esposa. Certamente a psicologia me ajuda a enxergar algumas coisas com mais clareza mas ela não me garante imparcialidade científica quando estou falando de mim mesma e da minha relação com eles. Mesmo que eu tentasse falar como psicóloga, acredito que a imparcialidade só seria possível se eu conseguisse não me deixar influenciar pelo amor que sinto por eles. E eu não quero ser essa pessoa.


sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Trate os outros como você gostaria de ser tratado. Será?

Já ouvi e já falei isso várias vezes. É uma daquelas frases que a gente acha bonita e sai repetindo.

Vamos pensar sobre ela?

Se eu trato o outro como eu gostaria de ser tratado eu estou assumindo que o outro gosta de ser tratado da mesma forma que eu gosto. Eu estou assumindo que o outro é parecido comigo e que gostamos das mesmas coisas. 

E isso não é verdade. A gente assume que é e não se dá conta do quanto esta suposição pode atrapalhar um relacionamento.

Algumas situações hipotéticas para ilustrar:

Eu passo um mês organizando uma super festa surpresa para um amigo, empolgadíssima. Quando o amigo é surpreendido ele não dá bola, não parece estar muito feliz. E eu fico chateada, achando ele um ingrato que não deu valor para uma festa que deu um trabalhão planejar. Eu iria adorar se tivessem feito isso para mim. EU iria adorar. EU. 
Ele é ele. Eu sou eu. Se eu exigir dele a mesma reação que eu teria, provavelmente vou me decepcionar. Da próxima vez, se eu quiser agradá-lo, talvez seja melhor tentar saber do que é que ele gosta tanto quanto eu gosto de festa surpresa.

Eu gosto de arrancar os cabelos brancos do meu namorado e ele não liga que eu o faça. Ele gosta de arrancar os meus cabelos brancos e eu odeio que ele o faça. Ele fica bravo comigo, não entende porque eu não deixo sendo que ele deixa. 
É importante que ele entenda que não somos a mesma pessoa. Ele não se incomoda, eu me incomodo. Se ele não quiser mais que eu faça isso, que me fale, da mesma forma que eu falo para ele que não gosto.

Eu pego uma blusa emprestada da minha irmã e ela fica uma fera. Eu não me importaria nem um pouco se ela pegasse uma roupa minha emprestada, não entendo porque ela ficou tão brava! 
Ela não quer emprestar as roupas dela para mim e talvez nem queira as minhas emprestadas. Ela não é igual a mim. 

Meu filho usa o computador da minha filha sem pedir. Quando ela vê, briga com ele. Eu falo para ele não fazer mais aquilo e, no intuito de fazê-lo entender o lado dela, pergunto para ele como ele se sentiria caso ela pegasse o computador dele sem pedir. Ele diz que não se importaria, que ela pode usar sempre que quiser. Eu não consigo "provar o meu ponto" e fico com cara de tacho.
A gente pode imaginar como se sentiria no lugar do outro para tentar entender como ele está se sentindo. E a gente pode perguntar para o outro como ele está se sentindo. A primeira nunca vai substituir a segunda.

Na dúvida, pergunte para o outro como ele gostaria de ser tratado e, se possível, trate-o de acordo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Crianças que falam "como adultos"

Hoje eu fiz um comentário bastante infeliz sobre este tema porque cometi o erro de começar a falar antes de estruturar melhor o que eu queria dizer. Fiquei mal porque sinto que magoei a pessoa com quem estava conversando. Deu vontade de escrever este texto para organizar as ideias e esclarecer para ela, e para mim, o que eu penso de fato.

Você já deve ter ouvido este tipo de comentário antes: "Nossa, a filha do Fulano fala como adulto. Umas palavras difíceis, um raciocínio elaborado, muito madura para a idade dela!"

É normal isso? É saudável para a criança? O que será que acontece na casa dela para ela ser assim? Será que ela só convive com adultos e não brinca com crianças da idade dela?

A princípio eu tinha pensado o seguinte, uma criança tem uma fala mais elaborada quando ela lida com situações difíceis. Quando o seu vocabulário "de criança" não dá conta de expressar o que ela quer, ela precisa ir buscar no "mundo dos adultos" palavras e expressões para verbalizar aquilo que ela precisa falar.

Mas me soou bem triste. Como se a criança que fala bem, usa palavras difíceis, fosse aquela que teve que dar um salto, abrir mão da infância, das brincadeiras, para correr atrás de recursos para lidar com algo que está além da sua capacidade e que não deveria ser preocupação dela. 

Não, pensando melhor, eu não acho que isso seja verdade.

Depois pensei, uma criança desenvolve uma fala mais elaborada quando ela tem contato com mais estímulos, mais desafios. Não necessariamente situações difíceis ou negativas, elas podem ser agradáveis também. Quando ela vivencia algo novo, diferente, ela sente a necessidade de buscar outras palavras e ideias para dar conta de expressar o que está experimentando. Sim, acho que este é um ponto, estímulos são importantes mas não acho que seja tudo.

Em seguida me ocorreu que a questão na verdade não está apenas relacionada ao ambiente dela e à necessidade de expressar-se sobre aquilo que vive, mas com a forma como a sua fala é recebida por quem convive com ela. Ou seja, se ela é ouvida e se dão valor e importância às suas ideias (sobre o que quer que seja, não importa!), é provável que ela continuará falando, contando histórias, compartilhando suas conclusões. E quanto mais o faz, mais recursos ela adquire para continuar fazendo. Mais vocabulário, construções mais complexas, raciocínio mais elaborado.

Resumindo, eu acredito que as crianças se comunicam melhor quanto têm a oportunidade de se expressar livremente, quando são encorajadas a fazê-lo, quando são ouvidas e percebem que aquilo que dizem tem valor e merece ser dito.

E complementando, eu não acho que o fato de conversar "como um adulto" vá impedir que ela continue brincando e se divertindo "como criança". Não acho que uma coisa exclua a outra. Em alguns momentos ela vai querer conversar (e ser levada a sério sobre o que diz) e em outros ela vai querer rolar no chão, fazer bolinhas de sabão e se divertir com histórias inventadas. E tudo bem.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Empatia

Terminei de assistir a primeira temporada de Sense8 e fiquei com vontade de escrever sobre empatia. Para quem não assistiu ainda, texto sem spoiler, ok?

A série conta a história de oito pessoas que se encontram conectadas entre si a ponto de sentirem exatamente o que o outro sente, apesar de todas as diferenças que os separam. 

É ficção científica, claro. Na vida real conseguimos no máximo imaginar como nos sentiríamos caso estivéssemos passando pela mesma situação que o outro, mas nunca vamos conseguir sentir o que ele sente de fato. Mesmo que eu já tenha passado por uma situação igualzinha nada me garante que o que eu senti é igual ao que ele sentiu.

Mas não é sobre isso que eu quero falar. Não sobre a capacidade de sentir empatia, mas sobre a disponibilidade interna para empatizar com o outro. Era algo que já vinha passando pela minha cabeça e um diálogo na série casou com o que eu estava pensando.

Dois personagens estão conversando, vou chamá-los de A e B. A está sofrendo com uma perda terrível enquanto B se encontra em uma situação de perigo, precisando da ajuda de A para sair dela. B explica que precisa da ajuda de A, fala do risco que estão correndo, mas A está sentindo uma dor tão grande que não consegue ouvi-lo. Até que B diz o seguinte:

“Eu sei o quanto isso dói. Sei que você quer deitar aqui e nunca mais levantar. Sei porque também sinto isso. Eu posso sentir isso.”

Eles se olham e choram. Em seguida B diz:

“Isso significa que de alguma forma em algum lugar você também sente o que estou sentindo.”

E então A consegue ouvi-lo e ajudá-lo.

Tudo acontece muito rápido. Na vida real dificilmente a situação se resolve assim com duas falas, mas resume bem como eu acredito que as coisas funcionem.

Na cena fica muito claro como é absurdo pedir para que alguém se sensibilize com o nosso problema quando este alguém sente uma dor devastadora. Chega a ser cruel pedir empatia com a nossa situação para uma pessoa que se encontra inundada pelos próprios sentimentos. A pessoa simplesmente não ouve. Não há disponibilidade interna para ouvir.

Nessas situações, se eu quiser de fato ter uma conversa saudável, antes de falar sobre os meus sentimentos talvez eu precise me deixar um pouco de lado, ouvir e acolher o que o outro tem a dizer. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O lado B da maternidade

Você sabe de onde vem o termo “lado B”?

Para quem é da época dos discos de vinil... Você se lembra que, quando comprávamos um disco, aquela música que mais queríamos ouvir geralmente era a primeira ou a segunda faixa do lado A? E se lembra que quando virávamos o disco para ouvir o lado B as músicas eram meio diferentes, desconhecidas, às vezes parecia até outra banda que estava tocando? O lado A era o lado mais comercial, com as músicas que todos queriam ouvir. Já no lado B o artista costumava mostrar um lado novo, inesperado – e nem todo mundo gostava.

Pois é, a maternidade é como esse disco.

O lado A é o que todo mundo espera que você fale sobre o bebê, sobre a experiência de ser mãe, a plenitude, o amor incondicional. O lado B é aquilo que a gente diz quando se sente à vontade, sem medo de ser julgada, a dor para amamentar e o medo da dor quando a próxima mamada se aproxima, a vontade de chorar (e a gente nem sabe por que está chorando), a dificuldade de pensar com clareza sobre as coisas práticas do dia a dia quando você não dorme direito há meses, os questionamentos sobre a nossa capacidade para cuidar do bebê, a vontade de sumir por um tempo e ficar sozinha, a saudade da vida antes do bebê... 

São dois lados de um mesmo disco. O amor que eu sinto pelo meu filho não impede que existam tantos outros sentimentos. Eu posso amá-lo e me sentir desesperada, eu posso estar feliz e ao mesmo tempo cansada, cheia de dúvidas, insegura e ansiosa. Uma coisa não exclui a outra.

Ser mãe é muito difícil. Quando não se fala sobre isso fica a impressão de que você é a única que sofre para desempenhar este papel. E é esse sofrer solitário que acaba com as nossas forças e aumenta nossas inseguranças. 

Quando a gente ouve outra mãe dizendo que sente algo parecido, dá um alívio tão grande! Aquela sensação de “Ufa! Eu sou normal!”. 

Antes de ser mãe você sabe que bebê dá trabalho, você sabe que vai dormir menos, mas você não sabe como o seu corpo e o seu humor respondem à privação de sono e a tantas outras mudanças na sua rotina. E mesmo que soubesse, esse conhecimento prévio não tira o seu direito de desabafar e de chorar quando sentir necessidade. Se eu sabia que ia ser assim agora o que me resta é sofrer em silêncio? Tenho que ficar quieta, fingindo que está tudo bem? 

Vamos fazer uma analogia com uma dor física? Imagine que você tenha feito uma cirurgia e que você sabia que provavelmente sentiria um pouco de dor no pós operatório. E você de fato está sentindo dor. Você chama o médico e diz que está com dor. O que ele diz? Você já sabia que ia doer, vira as costas e vai embora? É assim mesmo, vai passar? Dói mesmo, mas olha só a família linda que você tem? Não, né? E por que com a dor emocional é diferente? Por que quando alguém reclama de alguma coisa a gente diz é assim mesmo, logo passa? Por que a gente diz é difícil, mas olha que bebê lindo você tem? No caso da dor psíquica, do sofrimento emocional, o melhor analgésico que existe é escuta e acolhimento. É ouvir sem julgar, é mostrar que a pessoa não está sozinha. Evitar falar do sofrimento e desviar o foco não ajuda. Ela precisa de alguém com quem conversar sobre a dificuldade que está tendo e não sobre quão feliz deveria estar.

Eu entendo o sentimento de quem escuta, eu entendo o desejo de querer que a pessoa pense nas coisas boas da vida e sorria, eu entendo o ímpeto de fazer algo prático para resolver a situação e acabar logo com aquele falatório; mas é importante que antes de dizer ou fazer algo você se pergunte: o que você está resolvendo ao agir desta forma? Você está diminuindo o sofrimento do outro ou o seu próprio desconforto ao ouvir esse desabafo? A melhor forma de ajudar é perguntar que tipo de ajuda a pessoa precisa. Muitas vezes tudo o que ela quer é um ombro para chorar.

O que nos protege de transtornos emocionais mais graves é o apoio social, é sentir-se ouvida, compreendida, amparada. Quando eu falo sobre as minhas angústias, medos e frustrações e sou acolhida, eu consigo enxugar as lágrimas e retomar o meu papel de mãe com o coração mais leve.

Observação: Agradeço às mães do Grupo Pós Parto Samaúma & Aninhar com quem tive o prazer de conversar sobre esse tema na última segunda-feira. É com relatos como os de vocês que eu mais aprendo! Obrigada de coração.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

É possível atender um conhecido?

Quem me procura para fazer terapia geralmente chega até mim através da indicação de um amigo ou de algum texto meu no facebook (que a pessoa leu pois faz parte da minha lista de amigos). São pessoas com quem já tive algum contato anterior. E às vezes eu fico na dúvida se devo atender ou não. 

E se fizemos um curso juntos há três anos e nunca mais nos vimos? E se nos conhecemos na festa de aniversário de um amigo em comum e talvez venhamos a nos encontrar novamente? E se conversamos esporadicamente em um grupo do facebook mas não nos conhecemos pessoalmente? Qual seria o limite da proximidade para que este atendimento seja possível?

É a pergunta que eu sempre me faço e seria ótimo se houvesse uma equação matemática que me desse uma resposta exata, mas não existe.

O Código de Ética Profissional do Psicólogo também não estabelece nenhuma regra a este respeito. Ele diz apenas que é vedado ao psicólogo "estabelecer com a pessoa atendida, familiar ou terceiro, que tenha vínculo com o atendido, relação que possa interferir negativamente nos objetivos do serviço prestado". Ou seja, a restrição não diz respeito ao vínculo em si mas à forma como o psicólogo percebe este vínculo e como imagina que ele possa interferir no atendimento. É uma questão de bom senso.

Se a preocupação é com o que interfere negativamente no tratamento, acredito que a questão não esteja exatamente ligada à proximidade com o paciente, mas à forma como o terapeuta lida com aquilo que aparece na sessão e com as relações que estabelece entre o que é trazido pelo paciente e o que é de conhecimento prévio do terapeuta.

A pergunta a ser respondida na verdade é outra e não deve ser feita apenas no início da terapia, mas constantemente; e não apenas para quem já conheço, mas para todos que me procuram: eu sou capaz de atender esta pessoa?

Eu tenho percebido na minha prática que para fazer um bom atendimento eu devo ser capaz de:

1) Deixar de lado o que já conheço de antemão para focar minha atenção naquilo que o paciente me relata. Mesmo atendendo um completo desconhecido, no momento em que eu o vejo eu posso fazer uma série de suposições sobre quem ele é, posso distorcer minha visão baseando-me em elementos que ele tenha em comum com outras pessoas que conheci anteriormente. O ponto aqui não é há quanto tempo eu o conheço ou qual o nível de contato que tenho com ele, mas a minha disposição para me despir dos meus julgamentos enquanto converso com essa pessoa. Certamente isso é mais difícil de fazer com alguém que eu conheço muito, mas não acho que seja impossível.

2) Separar as minhas questões das questões do paciente. Quando eu ouço alguém me contar sua queixa é comum perceber nela pontos em comum com a minha história de vida, meus valores, meus conflitos. É inevitável para mim fazer estas associações. Se por um lado isso me ajuda a olhar para a pessoa de forma empática, por outro exige um cuidado muito grande para não misturar as minhas questões com as do paciente. É natural que tenhamos mais afinidade com amigos mais próximos e que nossas histórias se cruzem, mas pode acontecer também de eu encontrar com uma pessoa pela primeira vez na vida, ouvir seu relato, seus conflitos e me identificar intensamente com eles. O desafio aqui é não projetar no paciente aquilo que é meu, fazendo dele um espelho das minhas próprias angústias.

Ainda não me vi incapacitada de atender alguém pelo primeiro motivo (apesar de poder imaginar uma série de questões dentro de mim que eu teria bastante dificuldade para deixar de lado), mas já interrompi um atendimento pelo segundo. Eu teria como saber que não daria certo logo no início? Acredito que não. Foi algo que apareceu no decorrer das sessões e que me deixou bastante frustrada, mas faz parte do trabalho reconhecer minhas limitações.

A minha proposta é tentar e ver se dá certo.

Talvez daqui a algum tempo eu consiga ter uma visão mais clara sobre esta questão, talvez eu mude de opinião. Se acontecer, volto aqui para contar ;)

Obs.: Pensei mais um pouco a respeito e escrevi uma continuação aqui.

domingo, 27 de setembro de 2015

O sofrimento dos outros

Estes dias eu me lembrei de um comentário que ouvi de um dos professores na faculdade e que tem se confirmado nos meus atendimentos: a pessoa que busca a ajuda do psicólogo geralmente é a mais saudável da casa.

Seja qual for a relação: namoro, casamento, pais e filhos; eu vejo histórias que se repetem. Há alguém sofrendo. Esse alguém que sofre chega com suas queixas e suas dúvidas, muitas dúvidas. É alguém que se pergunta se aquilo que está dizendo faz sentido, que se questiona se é normal sentir e pensar o que sente e pensa. Que muitas vezes tem medo de enlouquecer. E eu vejo muita coerência naquilo que a pessoa me diz. 

Essa pessoa que sofre se esforça para entender o lado do outro e para expor o seu. Mas aparentemente aquilo que a faz sofrer não gera no outro a mesma comoção. Eu sempre pergunto "você já falou para Fulano isso que acabou de me falar?". E quase sempre ouço: "sim, várias vezes". E isso mexe muito comigo.

Eu sei, toda história tem dois lados. E em se tratando de situações de conflito, as lembranças e o relato que eu ouço podem não ser totalmente fiéis àquilo que aconteceu. Mas isso pouco importa para mim. 

Independente do que aconteceu, dos fatos em si, o que a pessoa está sentindo é real. E me preocupa saber que existe alguém que ouviu tudo aquilo que ouvi, alguém que gosta e se importa com a pessoa que está ali na minha frente, e que não consegue acolher e compreender.

Eu não acho que as pessoas façam isso por maldade, não acho que seja indiferença. Eu acho que seja uma limitação mesmo, uma dificuldade em colocar as próprias convicções num cantinho por um momento e tentar escutar o outro de coração aberto. 

O César Ebraico me contou uma vez que disse para um amigo que ele não gostava de gente. O amigo ficou surpreso: "Como assim não gosta de gente? Você é psicólogo!". E o César explicou: "As pessoas que eu atendo no meu consultório são mutantes, são aquelas que perceberam que tem alguma coisa que não vai bem e querem mudar. Agora, essa gente que anda por aí sem se importar com as besteiras que fazem... Ah, desses eu não gosto não".

Eu queria muito que estas pessoas estivessem dispostas a olhar para dentro de si, a se questionar e a tirar o pó das próprias certezas. Fariam um bem enorme. Para si e para os outros.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O que eu tenho? Eu preciso de terapia?

É comum as pessoas procurarem um rótulo para aquilo que sentem.

Há esta necessidade de ouvir de um profissional que você está mal, muito mal ou não tão mal assim, como se chama isso que você tem e o que vai te fazer melhorar. O que, quanto, quando, como, com que frequência, por quanto tempo. Queremos códigos classificatórios e números.

Mas e quando aquilo que eu tenho não pode ser medido em um teste de laboratório nem visto em um exame de ressonância magnética? Como é que faz quando o profissional se baseia exclusivamente naquilo que eu verbalizo, expresso, demonstro para dizer o que é que eu tenho? Afinal, quem é que faz este diagnóstico, o profissional ou o paciente?

É só tristeza ou seria uma depressão leve? Timidez ou fobia social? Medo de barata ou nesse nível já é fobia? É normal ficar tão ansioso? Sou metódico ou tenho TOC?

Ah, espera aí, os manuais de transtornos mentais apresentam uma listinha de sintomas a serem preenchidos para se fazer um diagnóstico. Se eu não preencher estes critérios eu não tenho nada! Ufa, que bom! De acordo com o manual eu não tenho nada... Mas e se esse nada está me fazendo mal?

Que tal a gente mudar as perguntas?

Isso que você sente te faz sofrer? Limita a sua vida de alguma forma?  Acho que respostas afirmativas para estas questões são suficientes para indicar que há algo que precisa de atenção.

Ah, então eu preciso de terapia?

Vou responder com outras perguntas: você gostaria de fazer terapia? Você acha que a terapia pode te ajudar? Sim? Então, faça.

Como me disse uma vez o Luis César Ebraico, "terapia não é pra quem precisa, terapia é pra quem quer".

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Pode chorar

Meu filho está com 1 ano e 3 meses. Cai e se machuca o tempo todo. Comecei a reparar na minha reação quando isso acontece e não gostei do que vi.

Quando ele se machuca e sente dor, ele chora. O que eu costumava fazer? Pegava no colo e logo procurava algo para distraí-lo. Procurava um brinquedo ou um livro que ele gosta e começava: "Olha o passarinho, olha o cachorrinho!". Fazia graça para ele rir. E logo ele começava a prestar atenção no que eu estava mostrando e parava de chorar. E eu ficava aliviada, ufa, passou!

Dá um aperto no coração quando um filho chora. O choro nos mostra que está doendo. É natural que a gente queira que pare de chorar. Só que parar de chorar não significa que parou de doer ou que ele esqueceu o que acabou de acontecer. Fazer a criança parar de chorar quando ela tem vontade de chorar é reprimir a expressão do que ela sente. No caso do meu filho que ainda não fala, é reprimir a única forma que ele tem de expressar aquilo que o machuca. 

Eu fazia isso de forma automática, sem pensar, e estou tendo que prestar muita atenção para parar de fazer. Pois é, informação não é tudo, é difícil quebrar um hábito.

Outro dia eu estava observando um menino um pouco maior, de uns 3 anos, falando orgulhoso: "Eu caí e nem chorei!". E o adulto respondeu: "Você é muito forte!". Eu sei que a intenção é das melhores, mas qual a mensagem que a gente passa com essa frase? Que quem chora é fraco, que cair e chorar é ruim, que mesmo se estiver doendo é melhor engolir o choro porque isso é ser forte!

Qual a consequência disso? Quando a gente ensina a não chorar, a criança aprende a não chorar. Isso é bom? Pode até ser bom para quem está perto e não sabe lidar com o choro, mas para a criança certamente não é. 

Mas tem conserto. Vou contar uma outra cena que presenciei. Um grupo de crianças de uns 6 anos estava brincando, uma delas cai. Eu estava a alguns metros de distância e me virei para olhar quando ouvi o barulho. Parecia ter batido a cabeça no chão meio forte. A criança se levanta e finge que nada aconteceu. A cuidadora que estava ao lado, se abaixa perto dela e pergunta se machucou, ela nega, visivelmente segurando o choro. A cuidadora insiste: "Olha, pelo barulho que fez, parece que você bateu forte no chão. Se estiver doendo e você quiser chorar, você pode". A criança abraça a moça e começa a chorar. Eu quase chorei junto.

Às vezes não basta ouvir o que a criança diz. A gente precisa ter sensibilidade para ouvir o que ela não diz e deixar que ela expresse o que não estava se permitindo sentir. E não vale só para criança. Quando estou triste e vou conversar com alguém sobre o que estou sentindo, nada me faz melhor do que um "pode chorar". É infinitamente melhor do que um "não fica assim, vai passar". Recomendo.

domingo, 21 de junho de 2015

Divertida Mente: uma aula de psicologia

Ontem assisti Divertida Mente (Inside Out em inglês), uma animação linda da Pixar que retrata os processos psíquicos e as interações entre as emoções de uma forma incrível! Saí do cinema com vontade de ver de novo.

A história se passa dentro da cabeça de uma menina de onze anos que começa a encarar a vida de uma forma bem mais complexa do que fazia até então. É o início do fim da infância, com todos os seus conflitos, alegrias e tristezas.

O filme é primoroso na representação de vários conceitos da psicologia: memórias de curto e de longo prazo, formação dos sonhos, lembranças reprimidas, inconsciente, constituição da personalidade, depressão, amigos imaginários... É um conteúdo muito rico trabalhado com delicadeza e bom humor.

E ele tem camadas. Uma criança menor certamente vai se divertir com as cenas mega coloridas e as situações engraçadas. As maiores vão perceber as sutilezas e o significado daquelas representações. E os adultos... Bom, eu e meu marido passamos a manhã de hoje relembrando o filme, analisando e dando risada.

Recomendo muitíssimo!

domingo, 14 de junho de 2015

O suicídio e os mitos que o rodeiam

Você sabia que o suicídio é a terceira causa de morte na população de 15 a 35 anos no Brasil, ficando atrás apenas de acidentes e homicídio?

Você sabia que as tentativas de suicídio são a segunda maior causa de internação da população de 10 a 19 anos do sexo feminino na rede do SUS?

E estima-se que para cada suicídio ocorram dez tentativas não consumadas.

Trata-se de um problema de saúde pública.

De acordo com um levantamento feito pelo Ministério da Saúde em 2006, a taxa de suicídio no Brasil variou entre 3,9 e 4,5 para cada 100 mil habitantes a cada ano, de 1994 a 2004, ou seja, a cada ano temos aproximadamente 8.000 mortes por suicídio no país. Em 2010, ano em que o Brasil viveu uma das quatro grandes epidemias de dengue, houve o registro de 656 óbitos por casos graves da doença.


Se as mortes por suicídio superam em mais de dez vezes as mortes por dengue por que temos campanha de prevenção para a dengue e não temos para suicídio? Por que não se fala sobre o assunto?

Falar sobre suicídio induz a pessoa ao suicídio? Não, conversar sobre as idéias suicidas de maneira acolhedora ajuda o paciente a sentir-se ouvido e compreendido. 

Quem quer se matar não avisa? Falso. Dois terços das pessoas que cometem suicídio avisam claramente pessoas próximas uma semana antes de fazê-lo.

O suicídio é o desfecho para um sofrimento psíquico extremo. Antes de chegar a este nível o sujeito acumula em seu dia-a-dia gotinhas de rejeição, vazio, solidão, falta de escuta, que com o passar do tempo fazem o copo transbordar.

A melhor maneira de lidar com o indivíduo é ouvindo-o com atenção, compreendendo seus sentimentos e respeitando suas opiniões e valores. Não diminuir o problema da pessoa, nem dizer simplesmente que tudo vai ficar bem. Não fazer julgamentos morais sobre o ato suicida.

Para prevenir o suicídio é essencial que se fale sobre suicídio.

Se quiser saber mais sobre o assunto, coloquei aqui no blog um artigo que escrevi em 2012: Uma Análise Qualitativa Fenomenológica de Cartas de Suicidas.

domingo, 31 de maio de 2015

O Segredo

Quando alguém elogia ou recomenda o livro O Segredo da australiana Rhonda Byrne eu fico meio sem graça. Eu sei que a intenção da pessoa é das melhores, já o livro...

Sim, eu li. E para mim ele deveria vir com um aviso na contracapa semelhante ao dos maços de cigarro: "O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: Aplicar em sua vida as recomendações contidas neste livro faz mal à sua saúde mental".

Por quê?

A autora defende que você atrai para a sua vida aquilo em que você mais pensa (“Seus pensamentos se transformam em coisas”e sugere que os pensamentos negativos sejam reprimidos (“Decida agora ter apenas bons pensamentos, e, declare para o Universo que todos os seus pensamentos positivos são poderosos e que quaisquer pensamentos negativos são fracos”).

Para ela os sentimentos são sinais que indicam o tipo de pensamento que a pessoa está tendo naquele momento. Caso esteja se sentindo mal, ela deve mudar o pensamento para algo que a faça sentir-se bem.

Ela recomenda que apenas conteúdos positivos sejam verbalizados e acolhidos ("Se você se queixar, a lei da atração trará para a sua vida mais situações sobre as quais se queixar. Se você ouve a queixa de outra pessoa e se concentra naquilo, se solidariza com a pessoa, concorda com ela, naquele momento você está atraindo para si mais situações sobre as quais se queixar").

Resumindo, ela recomenda que você não pense e nem fale sobre aquilo que te incomoda, seus medos e suas angústias. E mais, que você também não dê ouvidos àqueles que te procuram para desabafar e falar sobre seus problemas.

Se seguirmos estes conselhos teremos uma sociedade formada por indivíduos que fingem o tempo todo que está tudo bem enquanto em seu íntimo muita coisa vai mal. Teremos uma quantidade cada vez maior de pessoas se entupindo de antidepressivos para esconder seu sofrimento e sustentar um falso sorriso no rosto. E ouviremos diariamente a expressão "pense positivo", um mantra que tudo cura e tudo resolve como num passe de mágica.

Pois é, o livro foi um sucesso de vendas. Isso explica muita coisa, não?

Se quiser ler mais sobre o assunto, coloquei aqui no blog um artigo científico que escrevi em 2013: Análise comparativa entre livros de autoajuda e livros de psicologia.

domingo, 24 de maio de 2015

A infelicidade de quem tem "tudo"

Como é possível alguém que tem tudo para ser feliz apresentar sintomas de ansiedade ou de depressão?

O sujeito não tem problemas de saúde, tem dinheiro, um bom emprego, uma família, amigos queridos... Pronto, pacote completo, não tem do que reclamar. E se reclama é mal agradecido pois tem muita gente que não tem metade do que ele tem e vive feliz. 

Só que a nossa vida não se resume aos fatos concretos, ao que temos ou deixamos de ter, ao que fazemos ou deixamos de fazer.

Diariamente temos contato com acontecimentos agradáveis e desagradáveis que afetam a nossa vida. Estas situações fazem parte do ambiente em que estamos inseridos. No entanto o ambiente não é tudo. Existem outros fatores que compõem o nosso metambiente*. 

O ambiente é formado por todas as possibilidades e limitações que norteiam as nossas ações. Já o metambiente é composto pelos fatores que permitem ou impedem a  expressão de nossos desejos e emoções a respeito daquilo que vivenciamos.

Uma pessoa que tem uma vida confortável, família, amigos, pode não ter entre estas pessoas ninguém
que o escute e o acolha quando ele tem necessidade de falar sobre seus sentimentos. Ou seja, apesar do ambiente ser bom, o metambiente é ruim.

O contrário também pode acontecer, ter uma situação de vida complicada, passar por necessidades financeiras, problemas de saúde, mas encontrar no seu círculo de amigos ou na família alguém capaz de ouvir as suas dores e acolher suas angústias.

Pode acontecer de o primeiro sofrer com crises de ansiedade enquanto o segundo consegue lidar com seus problemas de maneira serena e equilibrada, mantendo-se psiquicamente saudável.

No que diz respeito à saúde mental, mais importante do que aquilo que se passa conosco é a possibilidade de podermos falar o que pensamos e como nos sentimos a respeito do que aconteceu. Os eventos por si só não causam os transtornos mentais, a falta de escuta e de acolhimento sim.

* Conheci este termo através do Ebraico, em seu livro A Nova Conversa.

domingo, 17 de maio de 2015

Não matem o mensageiro

Quando eu falo que sou psicóloga e que atendo pela internet a maioria das pessoas me olha com um ar de incredulidade, aquela cara de "mas pode isso?". Eu respondo que sim, que é regulamentado pelo Conselho Federal de Psicologia e que tenho autorização para fazê-lo. E a próxima pergunta é "mas funciona? Não é estranho? Não fica um atendimento frio, distante?". Não, eu não acho.

Você já ouviu alguém falar assim "nossa, eu adoro conversas presenciais, são tão íntimas e acolhedoras"? Eu nunca ouvi. Acho que é meio óbvio que, quando você tem a oportunidade de encontrar com alguém e conversar pessoalmente, o que torna esta conversa agradável são as falas da pessoa, a maneira como ela se expressa e como reage àquilo que você diz. Ou todas as conversas que você tem pessoalmente, não importa com quem, são sempre boas e profundas? 

Agora, quando você ouve alguém contar uma barbaridade com que teve contato através da internet a culpa é da internet. Adultério? Culpa da internet que facilita o contato entre as pessoas. Pedofilia? Culpa da internet que permite a exibição de imagens de crianças. Difamação? Culpa da internet que possibilita a transmissão rápida e maciça da informação. 

Isso me lembra muito aquelas histórias antigas em que os mensageiros chegavam trazendo as notícias ao rei. Se a notícia fosse boa ele era recompensado. Se fosse ruim era executado sem dó nem piedade. Quando as pessoas torcem o nariz para aquilo que é feito pela internet, quando diminuem o valor do que é feito online comparando àquilo que se faz presencialmente, a impressão que eu tenho é essa, de que estão matando o mensageiro.

Grandes amigos que tenho hoje são pessoas que conheci online. Algumas amizades se tornaram também presenciais, outras continuam virtuais e tão significativas quanto as primeiras.

Eu entendo que nem todos se sintam tão à vontade para se comunicar por email ou videoconferência quanto se sentem em uma conversa presencial. Da mesma forma que entendo que muitas pessoas têm mais facilidade no contato virtual. É uma questão de perfil, de gosto, de preferência.

O que eu tenho ouvido de algumas pessoas que me procuram é que nunca fizeram terapia e que gostaram de saber que existe o atendimento online pois acreditam que se sentirão mais à vontade para se abrir desta forma do que presencialmente. E eu fico feliz que esta possibilidade exista.

Eu não acho que um meio de atendimento seja melhor do que o outro. São diferentes. E as pessoas também ;)

domingo, 10 de maio de 2015

Feliz dia das mães

Na semana passada meu filho mais velho veio me mostrar um desenho que tinha feito na aula de matemática (era uma atividade envolvendo formas geométricas). Eu estava lendo um texto no computador.

- Mãe, olha o desenho que eu fiz.
Eu olhei para o desenho por três segundos e disse:
- Que legal! Adorei.
E enfiei a cara no computador de novo. 
Ele insistiu:
- Você percebeu que são duas setas?

Aí eu me dei conta de que tinha dado uma resposta bem preguiçosa para encerrar logo a conversa e retomar o que eu estava fazendo. Deixei o computador de lado e peguei o desenho na mão:
- Verdade, tem uma seta apontando pra cima e outra pra baixo. E esta aqui está na frente e a outra atrás, né?
- É. Primeiro eu desenhei esta, depois a outra.
- Eu gostei das cores que você usou, o contraste ficou bonito.
- Quer ver o papel que a professora deu e como eu fiz pra chegar nesse desenho?
- Quero!
Ele foi pegar o papel com a proposta da atividade e ficamos alguns minutos conversando. No final ele pegou o desenho e saiu. Feliz por ter compartilhado comigo a satisfação dele com o que havia feito.

Imagine como seria se você encontrasse com o seu pintor preferido e ele viesse te mostrar sua última obra de arte. O que você diria quando visse a pintura? "Parabéns, você pinta muito bem!" e viraria as costas? Acho que não, né? Provavelmente você comentaria sobre algum elemento que te chamou a atenção no quadro, falaria sobre o que ele te fez pensar, sentir, demonstraria interesse pela técnica utilizada. Então por que com os nossos filhos é diferente? 

Acho que a gente (e me incluo nesta) dá respostas bem preguiçosas para as crianças. Como se aquilo fosse suficiente, como se qualquer atenção adicional não fosse necessária. Olhamos para aquilo que eles criam de forma superficial e emitimos elogios vazios. E tem mais. Muitas vezes aquilo que dizemos tem um tom avaliativo. "Muito bom!", "Ficou lindo!", "Você desenha muito bem!". É como se estivéssemos colocando nosso selinho de aprovação. 

Será que a criança continuará tendo o mesmo prazer de desenhar, escrever, pintar e a mesma alegria em compartilhar suas criações com a gente? Será que ela não se sentirá pressionada a fazer algo que seja bom e bonito aos nossos olhos para continuar recebendo elogios? Será que o valor que ela dá para aquilo que faz (e a ela mesma como pessoa) não estará condicionado ao nosso reconhecimento?

Eu acho que deveríamos trocar a avaliação e a aprovação por uma postura mais apreciativa. Deveríamos falar que aquela paisagem nos lembra um lugar onde estivemos juntos nas nossas últimas férias e perguntar se foi de lá que a criança tirou sua inspiração. Deveríamos dizer que gostamos da cor do vestido da menina e pedir para ver o lápis de cor que a criança usou para pintá-lo. Deveríamos compartilhar com a criança que temos a impressão de que está fazendo frio naquela cena que ela retratou, ou calor, ou que parece que vai chover. Deveríamos perguntar se aquela árvore que ela desenhou dá alguma fruta ou flor. Um comentário autêntico e sincero, depois de olhar para o desenho com a atenção que uma obra de arte merece.

Sim, precisa ter mais tempo para fazer isso. Cinco minutos e não cinco segundos.

Eu fico feliz que meu filho tenha insistido. Espero que ele continue insistindo e chamando a minha atenção quando eu erro. No momento em que ele deixar de fazer isso eu preciso ficar bem preocupada. Será um sinal de que ele perdeu a esperança de ter uma mãe melhor.

Feliz dia das mães!


domingo, 3 de maio de 2015

Não vamos tapar o sol com a peneira

A maioria das pessoas têm uma dificuldade muito grande para lidar com a perda. A morte de alguém, o término de um relacionamento, o fim de um sonho. A tendência é sempre fazer algo para desviar a atenção daquilo que aconteceu.

A criança fica triste porque o cachorrinho de estimação morreu. O que os pais fazem? Arrumam outro cachorro para colocar no lugar do que se foi.

A pessoa termina um namoro de anos, fica mal, chorando inconsolável. O que os amigos fazem? Chamam para sair, se distrair e não pensar no que aconteceu.

O indivíduo não consegue passar no concurso para o qual estudou durante todo o seu tempo livre no último ano. O que as pessoas dizem para "consolar"? Ah, não fica assim, agora é pensar no próximo.

O que estas atitudes têm em comum? 

Em todas elas o objetivo de quem presencia o luto é tirar o foco do sentimento que se apresenta no momento, é criar uma situação agradável ou trazer um pensamento feliz no intuito de deixar a tristeza de lado.

O problema é que este lado não é o lado de fora. Muito pelo contrário. Essa tristeza deixada de lado, fica do lado de dentro, escondidinha num canto, censurada, impossibilitada de sair pela via mais saudável, que é a fala, procurando outra forma de se expressar. Não dar voz a essa tristeza é tapar o sol com a peneira.

É importante que a gente permita que a tristeza exista, que ela possa ser sentida e expressa. Não é gostoso, não é agradável, mas é preciso. 

Expressar essa tristeza, desabafar, não necessariamente fará com a pessoa fique feliz como consequência, mas a ajudará a lidar com a situação de forma mais serena. 

Como escreveu o Luis César Ebraico:

"Felicidade é algo por demais dependente de circunstâncias que escapam ao nosso controle. (...) A serenidade – não a felicidade – frente aos fatos da vida, sejam eles prazerosos ou desprazerosos, é uma das características universais da saúde psicológica (...)"

domingo, 26 de abril de 2015

Relacionamentos abusivos

Quem nunca ouviu uma pessoa se queixando de um relacionamento repetidas vezes, dizendo o quanto o companheiro é insensível e grosseiro?

E quem nunca presenciou pessoas próximas, após ouvir este desabafo, dizendo que Fulano gosta mesmo de sofrer, pois reclama mas continua com Beltrano, não toma nenhuma atitude para sair daquela relação?

Há um conceito loganalítico que pode explicar o que acontece em muitos destes casos, a Produção Artificial de Evento (PEA).

O Luís César Ebraico define a PEA como um "sintoma em que a pessoa, contra sua vontade consciente, é compelida a reproduzir, em sua realidade atual, experiências frustrantes a que se encontra fixada".

Vou dar um exemplo para ilustrar. Vamos imaginar uma menina que na infância era tratada pelos pais de forma bastante rude, sem qualquer demonstração de carinho. Não tinha espaço para emitir sua opinião, suas vontades não eram ouvidas. Era exigido dela apenas que se comportasse e obedecesse. Além disso não convivia com ninguém com quem se sentisse à vontade para se expressar livremente e dizer como se sentia sendo tratada daquela forma por sua família. Ela cresce carregando dentro de si uma necessidade imensa de falar sobre a ausência de afeto e de carinho de que foi vítima na infância, mas não encontra escuta. As pessoas que a ouvem desabafar não dão grande importância à sua fala, dizem que já passou e que ela deve "deixar isso pra lá". Este Desejo de Palavra torna-se tão intenso que na ânsia de satisfazê-lo ela começa a, inconscientemente, buscar situações em que seja tratada de forma rude e pouco carinhosa para que possa falar sobre como se sente mal sendo tratada assim.

Quero deixar claro que a pessoa não faz isso porque quer nem porque gosta. Não é uma escolha consciente. Provavelmente ela nota (sem se dar conta) nas pessoas com as quais tem contato alguns comportamentos semelhantes àqueles das pessoas que deixaram impressas nela as memórias traumáticas e acaba se aproximando destas pessoas e criando a oportunidade de ser novamente exposta às situações que provocam sentimentos parecidos aos que se encontra fixada e sobre os quais precisa falar.

Dá para imaginar como foi a infância das pessoas que frequentemente se envolvem em relacionamentos abusivos? Dá para imaginar como é prejudicial para o futuro de uma criança crescer em um ambiente em que não é ouvida nem respeitada?

Quando ouvir uma pessoa expressando a sua insatisfação com o companheiro, antes de dar palpite sobre o que ela deve fazer, ouça. Ser acolhida é o primeiro passo para romper as amarras que a mantém presa a alguém que a maltrata.

Quando estiver conversando com seus filhos preste atenção na forma como você os trata. Quando perceber que eles foram desrespeitados por quem quer que seja, ouça, acolha, exponha a sua opinião sobre o que foi dito, defenda-os quando for o caso. Ter seus sentimentos legitimados na infância é a base para tornar-se um adulto que sabe que merece ser tratado com respeito. Sempre.

domingo, 19 de abril de 2015

Por que choram os bebês?

Todo mundo diz que a mãe aprende a reconhecer os diferentes tipos de choro do bebê e sabe quando ele chora de fome, de dor ou de sono. Eu tenho muita dificuldade! Não acho simples fazer esta distinção e desvendar o que o bebê está tentando comunicar. Mesmo no terceiro filho às vezes eu confundo o choro dele com o gemido do cachorro do vizinho.

Em seu livro "A criança e seu mundo", Winnicott escreveu um capítulo só sobre isso: "Por que choram os bebês?". 

Para ele os bebês choram por um destes quatro motivos: satisfação, dor, raiva e tristeza.

Sobre o choro de satisfação, ele diz que às vezes a criança chora para exercitar os pulmões, chora pelo prazer de exercitar aquela função física que descobriu em seu corpo. Ter um bebê que nunca chora não é necessariamente um bom sinal. Winnicott diz preferir um "bebê chorão, que acabou por dar-se conta da sua capacidade total para fazer ruído" ao bebê que não chora. Ele explica que o choro é um recurso do bebê para tranquilizar-se em um momento de dificuldade, ou seja, o prazer que ele experimenta com o choro alivia a angústia que ele está sentindo.

O choro de dor é o mais fácil de identificar, é um som penetrante, um grito. E Winnicott entende a fome como um tipo de dor. Nós, adultos, não nos lembramos da dor da fome porque não nos permitimos sentir fome de um modo doloroso, fazemos tudo o que está ao nosso alcance para garantir que sempre teremos a provisão necessária de comida. Ele explica que o choro de dor também refere-se à apreensão de que irá sentir dor em breve. Quando identifica uma situação já familiar que provocará sensações desagradáveis, ele pode começar a chorar assim que a reconhece. Por isso, a base do choro de medo é a dor e o pranto soa de forma semelhante nos dois casos.

A terceira causa para o choro é a raiva. Por mais que a mãe se esforce para atender todas as necessidades do bebê é inevitável que ela o decepcione algumas vezes e nestas situações ele chora de raiva. Mas ao mesmo tempo em que sente raiva, ele chora também por ter esperança de que este choro a comoverá, ou seja, o choro de raiva é também um sinal positivo de que o bebê confia nos cuidados da mãe.

Ainda sobre o choro de raiva: "É uma coisa saudável para o bebê conhecer a extensão completa da sua capacidade de fúria. Compreenda-se: o bebê não se sente inofensivo quando está raivoso. As mães conhecem bem o ar com que ele fica. Grita, esperneia e, se já tiver idade para isso, levanta-se e sacode as grades do berço. Morde, arranha, cospe, vomita, arma uma barafunda infernal. (...) Por alguns minutos, sua intenção é realmente destruir ou, pelo menos, danificar tudo e todos, e nem sequer lhe importa destruir a si próprio no decorrer da crise. (...) Se o bebê chora num acesso de raiva e sente como se tivesse destruído o mundo inteiro mas, em sua volta as pessoas mantêm-se calmas e ilesas, essa experiência fortalece enormemente sua capacidade de apreender que o que ele acha ser verdadeiro não é necessariamente real, que a fantasia e o fato concreto, ambos importantes, são entretanto distintos um do outro". E há quem chame isso de manha...

A quarta causa de choro é a tristeza. Para Winnicott o choro triste é musical, é um pranto que passa por diversos tons. As lágrimas também são mais características do choro triste do que do de raiva. Trata-se de um choro mais complexo. "Quando o seu bebê mostra que pode chorar de tristeza, você poderá deduzir que ele percorreu uma longa jornada no desenvolvimento de seus sentimentos".

"(...) o choro triste é algo muito complicado, algo que significa já ter a criança conquistado seu lugar no mundo. (...) Já começou a assumir sua responsabilidade com relação ao meio. Em lugar de reagir apenas às circunstâncias, passou a sentir responsabilidade sobre as circunstâncias. O problema está em que começa a sentir-se totalmente responsável pelo que lhe sucede e pelos fatores externos da sua vida. Só gradualmente começa a fazer distinção entre aquilo por que é responsável e aquilo tudo por que se sente responsável."

"(...) um bebê triste poderá necessitar o amor físico e demonstrativo da mãe. O que ele não precisa, contudo, é ser distraído efusivamente (por exemplo, fazê-lo saltar no colo, provocar cócegas, etc) da sua tristeza. Digamos que ele se encontra num estado de luto e requer certo período de tempo para recuperar-se." Sabe aquela nossa mania de dizer "não fica assim, não chora"? Então, melhor não. Nem para um bebê.

E ele finaliza dizendo que na verdade existe um quinto tipo de choro, o de desamparo e desespero, que é para onde todos os quatro tipos convergem "se não restar qualquer esperança no espírito do bebê". Winnicott diz que provavelmente as mães nunca ouçam este tipo de choro e que ele é comum em instituições "onde não existem meios nem possibilidades de fornecer uma mãe para cada bebê".

E ele finaliza com esta frase: "O fato de que a mãe está disposta a cuidar pessoalmente do filho significa que ele tem sorte; a menos que sucedesse, por acaso, alguma coisa que viesse perturbar os cuidados rotineiros, ele estará em condições de seguir decididamente para a frente, demonstrando à mãe quando está zangado com ela e quando a ama, quando quer livrar-se dela, quando está ansioso ou com medo, ou quando apenas quer que a mãe compreenda que ele está triste."

Não é lindo?

domingo, 12 de abril de 2015

Todo mundo erra

Eu tento sempre tratar meus filhos com respeito e carinho, mas às vezes eu erro.

Ultimamente, com um bebê de dez meses que ainda acorda à noite, tenho ficado bem cansada física e emocionalmente. Dormir pouco me deixa irritada e tenho perdido a paciência com as crianças com mais facilidade.

Esta semana estávamos entrando no carro e meu filho jogou o material da escola em cima de umas sacolas de mercado com coisas frágeis. Eu explodi: "Poxa, você não está vendo as sacolas? Como você joga suas coisas assim em cima sem saber o que tem dentro?". E ele me respondeu: "Nossa! Eu não vi, precisava gritar?". Pedi desculpas e disse que não, não precisava gritar. Expliquei que estava nervosa com outras coisas e acabei descontando nele. E ele me disse: "Tá tudo bem, mãe".

Eu já pedi a eles várias vezes para não gritarem um com o outro. Disse que às vezes eu perco a paciência e acabo gritando mas que não quero fazer isso e caso aconteça eu gostaria que eles chamassem a minha atenção pois eu estou errada. E eles fazem. Eles me cobram para que minhas atitudes sejam condizentes com o que peço a eles. 

Uma coisa que eu tenho feito também é avisá-los quando percebo que estou começando a ficar irritada. Alguns períodos do dia são mais tumultuados aqui em casa, momentos em que estou sozinha com os três e tentando fazer várias coisas ao mesmo tempo. Nestas horas, quando eles começam a insistir muito para que eu pare o que estou fazendo para atender um pedido deles que pode esperar eu acabo perdendo a paciência, sendo grossa. Então comecei a dizer assim: "Olha, agora está difícil, não dá para eu parar o que estou fazendo. Eu estou ficando irritada e quando fico assim eu acabo te tratando de um jeito que eu não gosto. A gente pode deixar isso pra depois?". Geralmente eles entendem e até perguntam se podem fazer alguma coisa para me ajudar. Eu tenho minhas limitações e acho importantíssimo que eles saibam disso.

Eu percebo que a maioria das pessoas tem muita dificuldade para admitir seus erros e suas fragilidades, principalmente com as crianças. Acho que há uma cobrança muito grande para ser a mãe e o pai perfeitos, que nunca erram. Quando erram disfarçam o erro, fingem que não foi nada demais, como se reconhecer-se falível fosse abalar a "autoridade" dos pais junto aos filhos (não gosto da palavra autoridade pois me vem a ideia de hierarquia, algo que eu acho que não deveria existir dentro de uma família). Por outro lado, quando a criança "erra", quando seu comportamento foge do esperado pelos pais, isso logo é apontado por eles. Deve ser muito difícil sentir-se a errada e imperfeita convivendo com estes pais que não erram nunca.

Eu não sei qual a utilidade de manter no imaginário da criança esta figura idealizada de pai e mãe. Acredito que a criança tenha muito mais a aprender com pais reais, que erram, reconhecem o erro, se arrependem, pedem desculpa e aprendem com isso. Admitir que somos imperfeitos nos torna pessoas mais tolerantes. E as crianças aprendem também a ser tolerantes e compreensivas com os próprios erros e com os dos outros.

domingo, 5 de abril de 2015

A ansiedade do terapeuta

Eu me lembro de uma supervisão do estágio de Psicologia Clínica na faculdade em que eu estava super frustrada. A minha paciente que na semana anterior havia tido um insight (aquele estalo que você tem e tudo parece fazer sentido) e tinha saído da sessão resolvida a mudar várias coisas em sua vida, voltou naquela semana contando novamente tudo o que ela já havia falado deste o começo da terapia, tudo o que a incomodava e que queria mudar. Parecia que ela tinha esquecido o que tinha decidido fazer na sessão anterior. Eu fiquei ouvindo sem saber muito bem o que dizer.

Na supervisão me queixei à professora supervisora dizendo que eu não entendia o que tinha acontecido. Se ela já sabia como resolver o problema dela por que ela não resolvia? A supervisora me deu um puxão de orelha: "Ela vai resolver no tempo dela, não no seu tempo. Segura a sua ansiedade".

Eu percebi que tinha uma visão idealizada da terapia (e muitos pacientes também têm). A gente acha que depois de algumas sessões tudo passa a fazer sentido, uma mudança marcante e transformadora acontece, o terapeuta dá alta para o paciente e todos vivem felizes para sempre. Mas não é assim. Ou raramente é assim.

Estes são os casos que encontramos nos livros, aqueles que o psicólogo escolhe a dedo para mostrar como é bom e como sua abordagem funciona. Só que ele não conta que para cada caso marcante, há uma dezena em que ele se sente impotente sessão após sessão e tem a sensação constante de que nada acontece, nada muda.

Esta mesma paciente que atendi na faculdade em uma outra sessão me disse que ela não tinha esperança de que fosse conseguir resolver a sua situação e que ir à terapia todas as semanas para desabafar como sua vida era difícil era o que deixava mais leve a sua carga e tornava possível continuar vivendo. Neste dia eu vi que a expectativa dela com a terapia era muito diferente da minha. O que eu queria e esperava dela estava além do que ela estava disposta e preparada para fazer naquele momento.

Não é fácil este tipo de atendimento, pelo menos para mim não é. Eu tenho um desejo muito forte de que o paciente mude, resolva, recomece e é difícil controlar a minha expectativa, mas isso é um problema meu, não do paciente. Sou eu quem precisa ter clareza desta minha ansiedade e me controlar para não transmitir este sentimento para o paciente pressionando-o ou cobrando para que ele tome uma atitude que não está pronto para tomar.

domingo, 29 de março de 2015

Autonomia

Uma coisa que acontece comigo com uma certa frequência é eu desabafar, reclamar de alguma situação que tem me incomodado e a pessoa que me ouve vem com uma solução, um palpite, uma sugestão. Por que você não faz assim ou assado?

Às vezes eu me sinto mal quando ouço este tipo de resposta, é como se eu murchasse por dentro. Perco a vontade de continuar falando sobre aquilo e fico me sentindo estúpida. Se isso é tão simples assim de resolver com essa sugestão como eu não pensei nisso antes? Devo ser muito burra mesmo! É essa a sensação.

No momento em que acontece nem sempre me dou conta, mas depois paro para pensar e percebo que o meu objetivo com aquele desabafo não era resolver a situação, mas simplesmente falar do meu sentimento com relação ao que estava acontecendo. Não era Desejo de Coisa, era Desejo de Palavra. Às vezes noto até uma certa irritação em mim enquanto a pessoa fala, porque eu nem queria que ela dissesse nada, só que me ouvisse.

Não é sempre que sinto isso, às vezes a sugestão é bem vinda. Às vezes o meu objetivo com aquela fala foi de pedir ajuda sobre o que fazer, ou seja, estava focada em questões práticas mesmo. Geralmente acontece quando recorro a alguém que já passou por uma situação semelhante a que estou passando ou tem mais conhecimento no assunto do que eu e provavelmente poderá indicar um caminho que eu, sozinha, não estou enxergando.

Essa percepção tem me feito rever a forma como eu me expresso e a forma como eu ouço as pessoas. Se eu só quero ser ouvida e acolhida, é melhor falar logo no início que eu só quero desabafar. Se o que eu preciso é de ajuda, sugestão, acho útil dizer "Você tem alguma ideia sobre o que fazer neste caso? Você já passou por isso? Como você fez?". E quando eu ouço alguém, a princípio eu só acolho os sentimentos, tento compreender. Às vezes fico me segurando para não dar palpite (e às vezes escapa mesmo), mas pretendo fazê-lo apenas se a pessoa solicitar. [Digo isso sobre minhas conversas pessoais. Em um ambiente terapêutico acho muito delicado dar alguma sugestão sobre o que fazer, mesmo que o paciente o solicite. E me policio muito para evitar que qualquer tipo de direcionamento de minha parte escape nas entrelinhas daquilo que eu falo.]

Para mim isso é respeito. Respeito à capacidade do outro de encontrar o melhor caminho a percorrer. Respeito ao direito do outro de escolher um caminho ruim antes de visualizar que existe outro melhor (melhor para ele). Respeito à autonomia para fazer escolhas por si só e responsabilizar-se por elas.

domingo, 22 de março de 2015

Um cara chamado Winnicott

Donald Woods Winnicott (1896-1971), pediatra e psicanalista inglês, escreveu:

"... não pretendo certamente defender o ponto de vista de que à jovem mãe seja essencial a leitura de livros sobre os cuidados a dispensarem a seus filhos. Isso implicaria estar a mãe mais cônscia e segura de seu estado do que realmente é o caso. Ela necessita de proteção e esclarecimentos; precisa do melhor que a ciência médica pode oferecer no tocante aos cuidados físicos. Necessita de um médico e de uma enfermeira que sejam seus conhecidos e em quem deposite confiança. Precisa também da dedicação de um marido e experiências sexuais que a satisfaçam. Mas não necessita, forçosamente, que lhe expliquem antecipadamente o que se sente ao ser mãe."

"... todo indivíduo mentalmente são, todo aquele que se sente como pessoa no mundo e para quem o mundo significa alguma coisa, toda pessoa feliz, está em infinito débito com uma mulher."

"...o resultado de tal reconhecimento do papel materno, quando surge, não será gratidão nem mesmo louvor. O resultado será certo abrandamento, em nós próprios, de uma sensação de medo. Se a nossa sociedade demora em reconhecer plenamente essa dependência que constitui um fato histórico na fase inicial do desenvolvimento de todo indivíduo, ficará um obstáculo ao conforto e à saúde completa, um obstáculo que resulta de um medo. Se não houver um verdadeiro reconhecimento do papel da mãe, então permanecerá em nós um vago medo de dependência."

"O asseio administrativo, as leis da higiene, uma louvável preocupação em incentivar a saúde física, estas e muitas outras coisas interpõem-se entre a mãe e seu bebê e é improvável que as próprias mães se ergam num esforço conjugado para protestar contra essa interferência. Escrevo este livro porque alguém deve agir a favor das jovens mães que estão tendo seus primeiros ou segundos bebês e que se encontram, necessariamente, num estado de dependência. Espero levar-lhes apoio à confiança que depositam em suas tendências naturais, enquanto, ao mesmo tempo, rendo completo tributo à habilidade e zelo dos que prestam ajuda quando a mãe e o pai ou os vários substitutos paternos necessitem de quem os auxilie."

"Para começar, você ficará aliviada, leitora, quando souber que não tenciono explicar o que tem a fazer. Sou homem e, portanto, jamais poderei saber, na verdade, o que se sente ao ver ali embrulhado no berço uma parcela do meu próprio ser, um pedaço de mim vivendo uma vida independente, mas, ao mesmo tempo, dependente e tornando-se, pouco a pouco, numa pessoa. Só uma mulher pode sentir isso e, talvez, só uma mulher possa até imaginar essa experiência quando, por infortúnio de uma ou outra espécie, lhe falta a prova real e concreta."

"É vitalmente importante que se entenda o papel desempenhado pelos que se preocupam com o bebê, a fim de que possamos proteger a jovem mãe de tudo quanto pretenda interpor-se entre ela e seu filhinho. Se ela não compreende aquilo que realiza tão bem, está sem meios para defender a sua posição e a um passo de estragar facilmente a sua tarefa, tentando fazer o que lhe dizem que deve ser assim, ou o que a sua própria mãe fez, ou o que os livros afirmam.


Neste ponto os pais intervêm, não só pelo fato de que podem ser boas mães por períodos limitados de tempo, mas porque também podem ajudar a proteger a mãe e o bebê de tudo o que pretenda interferir no vínculo entre ambos que é a essência e a própria natureza do cuidado materno."

O nome do livro é "A criança e seu mundo" e ele fala tudo isso só nas primeiras páginas. Sabe quando você começa a ler e se pergunta "como eu não li isso antes?!". É essa a minha sensação.

O Winnicott é referência em psicanálise infantil. Apesar de ter estudado sobre ele na faculdade, me dei conta agora de que nunca li um livro inteiro dele! Por algum motivo não me chamou a atenção. O meu momento atual, mãe de um bebê de dez meses, me faz querer devorar o livro inteiro em um dia!

Assim que avançar nos capítulos escreverei mais sobre ele. E fica aqui a minha recomendação de leitura para grávidas e puérperas. É um livro delicioso!

domingo, 15 de março de 2015

Tendência atualizante

Sempre que eu leio textos sobre psicopatia infantil ou que acompanho discussões sobre a redução da maioridade penal me lembro de um conceito do Carl Rogers, psicólogo humanista, chamado de tendência atualizante.

Dizem que Carl Rogers o formulou a partir da observação das batatas que ficavam armazenadas em um porão úmido e escuro. Ele viu que destas batatas surgiam brotos verdes e concluiu que tendo acesso a um ambiente que fornecesse o mínimo necessário para brotar, a batata gerava uma nova planta. Esta tendência que leva ao crescimento estaria presente também nos seres humanos. 

Para Rogers, esta tendência atualizante é algo inerente ao indivíduo, ou seja, todo ser humano possui dentro de si uma orientação positiva, um fluxo que o direciona para o desenvolvimento de todas as suas potencialidades, levando-o ao crescimento. O quanto ele irá desenvolver-se depende do ambiente em que está inserido.

Certamente as batatas no porão não brotam e crescem da mesma forma que aquelas colocadas em um solo fértil com luz abundante. As batatas que se desenvolvem em um meio mais propício crescerão mais, melhor, mais rápido. O mesmo acontece com o ser humano. Aqueles que vivem em um ambiente acolhedor, em que estão presentes atitudes facilitadoras, encontrarão melhores condições para seu crescimento. Quanto menos acolhedor for o ambiente, maiores serão as dificuldades do indivíduo para se desenvolver.

É por isso que eu não consigo olhar para uma criança ou um adolescente que cresceu em condições precárias, sem o mínimo de cuidado e de carinho e vê-lo como um ser intrinsecamente mau. Provavelmente ele não teve nem uma fresta de luz que permitisse nascer um brotinho verde. É muito difícil exigir que alguém cuja vida nunca teve valor nenhum para ninguém dê algum valor à vida dos outros.

Há alguns dias eu estava conversando com meu filho de dez anos sobre uma criança que vivia provocando os colegas, arrumando briga e que sempre ficava isolada nas brincadeiras. Ele me disse o seguinte: "Ele é assim porque ninguém gosta dele". E eu concordo. Só que a maioria das pessoas inverte essa lógica e insiste que "Ninguém gosta dele porque ele é assim". Mas ninguém se esforça para gostar dele como ele é e dar uma chance para que ele possa tentar ser diferente.

A gente aprende a amar sendo amado. 

domingo, 8 de março de 2015

Comunicação saudável

A Loganálise, vertente da Psicanálise que utilizo em minha prática, apresenta algumas sugestões técnicas sobre como comunicar-se de maneira saudável.

Este tipo de comunicação é formado por frases com características particulares. Elas são: autológicas (o verbo está na primeira pessoa do singular - eu), microscópicas (referem-se a situações específicas) e expressam emoções e/ou desejos. Para ilustrar darei alguns exemplos de frases que muitas vezes utilizamos e sugestões de como expressar-se melhor.

FRASE: Você sempre me trata mal.
SUGESTÃO: Eu não gostei da forma como você me tratou durante a situação x.

As palavras sempre e nunca generalizam uma percepção momentânea e colocam a pessoa que escuta na defensiva. É provável que a pessoa responda que não é sempre que isso acontece e na verdade o que importa não é a frequência com que se sente daquela forma, mas o fato de se sentir assim num dado momento. Portanto é melhor dizer pontualmente em que situação isso aconteceu e como você se sentiu. 

FRASE: Você está sendo muito agressivo comigo.
SUGESTÃO: Quando você fala comigo desta forma eu fico com medo de você acabar me agredindo.

Dizer que o outro é agressivo pode dar início a uma discussão infinita em que ele insiste que não é agressivo e você afirma que é sim. E não se chega a lugar nenhum. É melhor deixar o rótulo de lado e analisar que atitude dele te faz pensar isso. E como você se sente nesta situação.

FRASE: Você não me ama.
SUGESTÃO: Eu não me sinto amada / Eu tenho a impressão de que você não me ama.

É muito complicado ficar especulando sobre os sentimentos do outro, ficar pedindo provas ou demonstrações do que ele sente. É mais saudável você dizer o que sente com relação a ele, as impressões que tem sobre os sentimentos dele. Quando você diz "Você não me ama" o outro pode dizer que ama sim, muito mais do que você pensa, que é você que não lhe dá valor, bla bla bla. Quando você diz que tem a impressão de que ele não te ama, o outro pode dizer que ama sim, mas você pode reafirmar a sua percepção sem negar o que ele sente, dizendo "Eu não falei que você não me ama, eu disse que é a minha impressão. E eu fiquei com esta impressão quando você disse/fez xyz". 

FRASE: Nunca mais faça isso comigo!
SUGESTÃO: Quando você faz xyz comigo eu fico muito magoada, chego a pensar em separação porque não suporto mais ser tratada desta forma.

É muito chato conviver com alguém que nos ameaça ou nos dá ordens sobre o que podemos e não podemos fazer. Em uma relação saudável cada um tem autonomia para falar, para agir e assume a responsabilidade por seus atos e suas palavras. É mais produtivo dizer o que aquela atitude da pessoa provoca em você, o que te faz pensar e sentir e deixar que o outro decida o que fazer com esta informação.

Dá para perceber a diferença que estas mudanças podem fazer no rumo da conversa? Que tal tentar colocar em prática?