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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Freud e a cura gay

No início de "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" (vol. 7 da obra completa), Freud fala sobre as "aberrações sexuais" (é importante ter em mente que ele escreveu isso há mais de 100 anos! Os termos que ele utilizava na época são totalmente inapropriados atualmente). Dentre as "aberrações" que ele apresenta a inversão é uma bastante polêmica e é sobre ela que quero falar aqui. 

Ele chama de objeto sexual a pessoa por quem alguém sente atração sexual e define como "invertidos" os indivíduos que têm como objeto sexual alguém do mesmo sexo. Com relação a esta orientação da libido, Freud faz a seguinte classificação:

"(a) Podem ser invertidos absolutos, ou seja, seu objeto sexual só pode ser do mesmo sexo, enquanto o sexo oposto nunca é para eles objeto de anseio sexual, mas antes os deixa frios ou até lhes desperta aversão sexual. Quando se trata de homens, essa aversão os incapacita de praticarem o ato sexual normal, ou então não extraem dessa prática nenhum gozo.

(b) Podem ser invertidos anfígenos (hermafroditas sexuais), ou seja, seu objeto sexual tanto pode pertencer ao mesmo sexo quanto ao outro; falta à inversão, portanto, o caráter de exclusividade.

(c) Podem ser invertidos ocasionais, ou seja, em certas condições externas, dentre as quais destacam-se a inacessibilidade do objeto sexual normal e a imitação, elas podem tomar como objeto sexual uma pessoa do mesmo sexo e encontrar satisfação no ato sexual com ela."

Traduzindo para a linguagem atual, os invertidos absolutos são hoje chamados de homossexuais e os invertidos anfígenos de bissexuais. Já a definição dos invertidos ocasionais eu acho confusa. Apesar de definir inicialmente o objeto sexual como alguém por quem se sente atração, neste trecho eu tenho a impressão de que ele acaba misturando dois outros conceitos que para mim são bem diferentes: o desejo e a prática. Vou explicar.

No meu entendimento a orientação sexual se define pelo desejo que a pessoa sente e não pelo que ela faz com este desejo. Exemplo: um homem sente desejo sexual por outros homens, mas reprime este sentimento e relaciona-se com mulheres. O fato de se relacionar com mulheres não o torna heterossexual. Se ele sente desejo exclusivamente por pessoas do mesmo sexo ele continua sendo homossexual, independente da forma como ele pratica sua sexualidade. (E aqui cabe uma observação, este desejo pode ser consciente ou inconsciente, ou seja, a pessoa pode reprimi-lo a ponto de não ter consciência de sua existência ou pode ter consciência dele e decidir exercer sua sexualidade de outra forma).

Voltando aos invertidos ocasionais. Da mesma forma, um indivíduo que sente desejo por pessoas do sexo oposto mas em uma situação de "inacessibilidade do objeto sexual" (caso dos presidiários e presidiárias, por exemplo) relaciona-se com alguém do mesmo sexo, a meu ver, continua sendo heterossexual. Por quê? Porque me parece tratar-se muito mais de uma escolha sobre como praticar sua sexualidade do que a orientação genuína do desejo. O que ele chama de invertidos ocasionais eu entendo como sendo heterossexuais que por fatores limitantes externos - e geralmente em situações de carência afetiva e isolamento - decidiram relacionar-se com pessoas do mesmo sexo.

Mas por que eu estou falando disso tudo? Porque a forma como esta classificação é compreendida pode dar margem para se defender absurdos como a "cura gay"! Se eu disser que o que define a orientação sexual de uma pessoa é a forma como ela exerce sua sexualidade então para que alguém deixe de ser homossexual basta decidir relacionar-se apenas com pessoas do sexo oposto.

E mais, Freud fala no texto que "a inversão pode ser eliminada pela sugestão hipnótica". Mas o que se faz na hipnose mesmo? (Falei mais sobre ela neste texto). Através da sugestão o terapeuta substitui sentimentos e pensamentos do paciente por outros, é uma espécie de lavagem cerebral. Aquilo que o paciente é de fato é reprimido pelo terapeuta e em seu lugar é colocado um outro eu, com desejos mais convenientes. Ele não elimina a inversão, mas desvia a atenção do indivíduo de seus sentimentos verdadeiros.

Aqueles que se propõem, ainda hoje, a mudar a orientação sexual de alguém nada mais fazem do que reprimir um desejo sexual saudável para que ele possa levar uma vida melhor adaptada a uma sociedade doente.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Feliz ano novo!

Todo final de ano eu costumo fazer aquela listinha do que eu quero para o ano que se inicia e o que eu pretendo fazer de novo ou diferente. Este final de ano foi tão corrido, tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que só agora me dei conta de que não fiz a minha lista. 

Acredito que a realização que me deixaria mais feliz neste ano seria perceber o meu trabalho - meus textos no blog, meus atendimentos - está surtindo efeito. Quero saber que o que eu escrevo e falo traz acolhimento a quem me procura e ajuda estas pessoas a resolver ou lidar melhor com seus problemas.

Fiquei feliz por estar conseguindo manter as atualizações semanais no blog e pretendo continuar fazendo o mesmo agora depois das férias. É muito gostoso ler os comentários e emails que recebo. Eu adoro escrever e saber que há quem aprecie e se interesse pelos meus textos me motiva ainda mais.

Quero também dar uma organizada no blog, criar algumas sessões novas, mas isso vai exigir um esforço e tempo extra para eu aprender a utilizar melhor as ferramentas que ele oferece, então talvez demore um tempinho ainda.

Estou atendendo através da orientação psicológica online que citei aqui e estou gostando muito da experiência. Me sinto renovada ao final de cada sessão e feliz pela profissão que escolhi.

E quero aprender mais, aprender muito, com cada texto que leio, com cada conversa, com cada atendimento. E que esse aprendizado me ajude a rever e a melhorar a minha prática.

Acho que é isso. Feliz ano novo!