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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Psicanálise com crianças

No início do relato do caso do pequeno Hans (vol. 10 da obra completa), Freud fala brevemente sobre a utilização da Psicanálise para o tratamento de crianças.

Ele explica que não atendeu diretamente o menino (esteve com ele em apenas uma sessão), mas orientou o pai da criança para que o fizesse. Freud se diz muito satisfeito com o desenrolar do processo terapêutico e explica que ele só foi possível porque combinou, na figura do pai e do terapeuta, "o carinho afetivo com o interesse científico".

O Luís César Ebraico em seu livro A Nova Conversa também relata alguns casos clínicos em que orientou os pais para que lidassem com questões psíquicas apresentadas pelos filhos. E, assim como Freud, se diz bastante satisfeito com os resultados obtidos. 

Eu ainda não tive a oportunidade de atender crianças (só acompanhei o andamento de alguns atendimentos durante as supervisões na faculdade), mas tenho três filhos e o que aprendi e venho aprendendo sobre Psicanálise me ajudam muito na criação deles (falei um pouco sobre isso neste texto).

Pelo que vi na minha experiência pessoal e acadêmica, geralmente é no ambiente familiar que a criança expressa mais facilmente o que vem acontecendo com ela. No consultório do psicólogo dificilmente ela apresentará logo de cara aquilo que os pais trazem como queixa. O psicólogo acaba precisando de mais tempo e recursos para visualizar no ambiente terapêutico as questões que se mostram facilmente na casa da criança, na convivência com a família.

Quando se atende uma criança o primeiro passo sempre é conversar com os pais (ou, na falta deles, com os cuidadores). Eu acredito que neste primeiro contato, além de compreender a queixa, é interessante informar os pais sobre conceitos básicos de Psicanálise, principalmente, sobre a importância de ouvir e acolher os sentimentos e pensamentos das crianças (e como fazer isso). Dependendo do caso, eu acho válido sugerir aos pais que antes de trazer a criança ao consultório seja feita uma tentativa em casa de lidar com o problema de uma forma diferente, baseada na escuta e no acolhimento. E na observação, de tudo aquilo que a criança expressa. E eu pediria que eles voltassem em uma segunda sessão para contar o que perceberam. Neste momento eu conversaria sobre a possibilidade de continuar conduzindo o processo em casa sob minha orientação, caso eles se sintam à vontade e dispostos a fazê-lo.

Eu acredito que esta conduta, além de agilizar o processo, habilita os pais a lidarem com problemas futuros. Que fique bem claro, não estou dizendo para que os pais sejam terapeutas dos filhos, - acho que é necessário separar o "interesse científico" do "carinho afetivo" - mas para que sejam informados sobre formas mais saudáveis de conversar com as crianças e sintam-se capacitados para resolver questões mais simples, que não necessariamente precisam de ajuda profissional.

E tem um outro ponto. Quando se trata de criança, a queixa que chega ao consultório é uma queixa dos pais e não da criança. A possibilidade de que o nó a ser desfeito esteja na relação entre eles e não na criança em si é enorme! E se o problema está na relação, a meu ver faz muito mais sentido instruir e orientar o adulto que faz parte dela a lidar com a criança do que tentar "consertar" a criança para facilitar o trabalho do adulto.

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