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domingo, 29 de março de 2015

Autonomia

Uma coisa que acontece comigo com uma certa frequência é eu desabafar, reclamar de alguma situação que tem me incomodado e a pessoa que me ouve vem com uma solução, um palpite, uma sugestão. Por que você não faz assim ou assado?

Às vezes eu me sinto mal quando ouço este tipo de resposta, é como se eu murchasse por dentro. Perco a vontade de continuar falando sobre aquilo e fico me sentindo estúpida. Se isso é tão simples assim de resolver com essa sugestão como eu não pensei nisso antes? Devo ser muito burra mesmo! É essa a sensação.

No momento em que acontece nem sempre me dou conta, mas depois paro para pensar e percebo que o meu objetivo com aquele desabafo não era resolver a situação, mas simplesmente falar do meu sentimento com relação ao que estava acontecendo. Não era Desejo de Coisa, era Desejo de Palavra. Às vezes noto até uma certa irritação em mim enquanto a pessoa fala, porque eu nem queria que ela dissesse nada, só que me ouvisse.

Não é sempre que sinto isso, às vezes a sugestão é bem vinda. Às vezes o meu objetivo com aquela fala foi de pedir ajuda sobre o que fazer, ou seja, estava focada em questões práticas mesmo. Geralmente acontece quando recorro a alguém que já passou por uma situação semelhante a que estou passando ou tem mais conhecimento no assunto do que eu e provavelmente poderá indicar um caminho que eu, sozinha, não estou enxergando.

Essa percepção tem me feito rever a forma como eu me expresso e a forma como eu ouço as pessoas. Se eu só quero ser ouvida e acolhida, é melhor falar logo no início que eu só quero desabafar. Se o que eu preciso é de ajuda, sugestão, acho útil dizer "Você tem alguma ideia sobre o que fazer neste caso? Você já passou por isso? Como você fez?". E quando eu ouço alguém, a princípio eu só acolho os sentimentos, tento compreender. Às vezes fico me segurando para não dar palpite (e às vezes escapa mesmo), mas pretendo fazê-lo apenas se a pessoa solicitar. [Digo isso sobre minhas conversas pessoais. Em um ambiente terapêutico acho muito delicado dar alguma sugestão sobre o que fazer, mesmo que o paciente o solicite. E me policio muito para evitar que qualquer tipo de direcionamento de minha parte escape nas entrelinhas daquilo que eu falo.]

Para mim isso é respeito. Respeito à capacidade do outro de encontrar o melhor caminho a percorrer. Respeito ao direito do outro de escolher um caminho ruim antes de visualizar que existe outro melhor (melhor para ele). Respeito à autonomia para fazer escolhas por si só e responsabilizar-se por elas.

domingo, 22 de março de 2015

Um cara chamado Winnicott

Donald Woods Winnicott (1896-1971), pediatra e psicanalista inglês, escreveu:

"... não pretendo certamente defender o ponto de vista de que à jovem mãe seja essencial a leitura de livros sobre os cuidados a dispensarem a seus filhos. Isso implicaria estar a mãe mais cônscia e segura de seu estado do que realmente é o caso. Ela necessita de proteção e esclarecimentos; precisa do melhor que a ciência médica pode oferecer no tocante aos cuidados físicos. Necessita de um médico e de uma enfermeira que sejam seus conhecidos e em quem deposite confiança. Precisa também da dedicação de um marido e experiências sexuais que a satisfaçam. Mas não necessita, forçosamente, que lhe expliquem antecipadamente o que se sente ao ser mãe."

"... todo indivíduo mentalmente são, todo aquele que se sente como pessoa no mundo e para quem o mundo significa alguma coisa, toda pessoa feliz, está em infinito débito com uma mulher."

"...o resultado de tal reconhecimento do papel materno, quando surge, não será gratidão nem mesmo louvor. O resultado será certo abrandamento, em nós próprios, de uma sensação de medo. Se a nossa sociedade demora em reconhecer plenamente essa dependência que constitui um fato histórico na fase inicial do desenvolvimento de todo indivíduo, ficará um obstáculo ao conforto e à saúde completa, um obstáculo que resulta de um medo. Se não houver um verdadeiro reconhecimento do papel da mãe, então permanecerá em nós um vago medo de dependência."

"O asseio administrativo, as leis da higiene, uma louvável preocupação em incentivar a saúde física, estas e muitas outras coisas interpõem-se entre a mãe e seu bebê e é improvável que as próprias mães se ergam num esforço conjugado para protestar contra essa interferência. Escrevo este livro porque alguém deve agir a favor das jovens mães que estão tendo seus primeiros ou segundos bebês e que se encontram, necessariamente, num estado de dependência. Espero levar-lhes apoio à confiança que depositam em suas tendências naturais, enquanto, ao mesmo tempo, rendo completo tributo à habilidade e zelo dos que prestam ajuda quando a mãe e o pai ou os vários substitutos paternos necessitem de quem os auxilie."

"Para começar, você ficará aliviada, leitora, quando souber que não tenciono explicar o que tem a fazer. Sou homem e, portanto, jamais poderei saber, na verdade, o que se sente ao ver ali embrulhado no berço uma parcela do meu próprio ser, um pedaço de mim vivendo uma vida independente, mas, ao mesmo tempo, dependente e tornando-se, pouco a pouco, numa pessoa. Só uma mulher pode sentir isso e, talvez, só uma mulher possa até imaginar essa experiência quando, por infortúnio de uma ou outra espécie, lhe falta a prova real e concreta."

"É vitalmente importante que se entenda o papel desempenhado pelos que se preocupam com o bebê, a fim de que possamos proteger a jovem mãe de tudo quanto pretenda interpor-se entre ela e seu filhinho. Se ela não compreende aquilo que realiza tão bem, está sem meios para defender a sua posição e a um passo de estragar facilmente a sua tarefa, tentando fazer o que lhe dizem que deve ser assim, ou o que a sua própria mãe fez, ou o que os livros afirmam.


Neste ponto os pais intervêm, não só pelo fato de que podem ser boas mães por períodos limitados de tempo, mas porque também podem ajudar a proteger a mãe e o bebê de tudo o que pretenda interferir no vínculo entre ambos que é a essência e a própria natureza do cuidado materno."

O nome do livro é "A criança e seu mundo" e ele fala tudo isso só nas primeiras páginas. Sabe quando você começa a ler e se pergunta "como eu não li isso antes?!". É essa a minha sensação.

O Winnicott é referência em psicanálise infantil. Apesar de ter estudado sobre ele na faculdade, me dei conta agora de que nunca li um livro inteiro dele! Por algum motivo não me chamou a atenção. O meu momento atual, mãe de um bebê de dez meses, me faz querer devorar o livro inteiro em um dia!

Assim que avançar nos capítulos escreverei mais sobre ele. E fica aqui a minha recomendação de leitura para grávidas e puérperas. É um livro delicioso!

domingo, 15 de março de 2015

Tendência atualizante

Sempre que eu leio textos sobre psicopatia infantil ou que acompanho discussões sobre a redução da maioridade penal me lembro de um conceito do Carl Rogers, psicólogo humanista, chamado de tendência atualizante.

Dizem que Carl Rogers o formulou a partir da observação das batatas que ficavam armazenadas em um porão úmido e escuro. Ele viu que destas batatas surgiam brotos verdes e concluiu que tendo acesso a um ambiente que fornecesse o mínimo necessário para brotar, a batata gerava uma nova planta. Esta tendência que leva ao crescimento estaria presente também nos seres humanos. 

Para Rogers, esta tendência atualizante é algo inerente ao indivíduo, ou seja, todo ser humano possui dentro de si uma orientação positiva, um fluxo que o direciona para o desenvolvimento de todas as suas potencialidades, levando-o ao crescimento. O quanto ele irá desenvolver-se depende do ambiente em que está inserido.

Certamente as batatas no porão não brotam e crescem da mesma forma que aquelas colocadas em um solo fértil com luz abundante. As batatas que se desenvolvem em um meio mais propício crescerão mais, melhor, mais rápido. O mesmo acontece com o ser humano. Aqueles que vivem em um ambiente acolhedor, em que estão presentes atitudes facilitadoras, encontrarão melhores condições para seu crescimento. Quanto menos acolhedor for o ambiente, maiores serão as dificuldades do indivíduo para se desenvolver.

É por isso que eu não consigo olhar para uma criança ou um adolescente que cresceu em condições precárias, sem o mínimo de cuidado e de carinho e vê-lo como um ser intrinsecamente mau. Provavelmente ele não teve nem uma fresta de luz que permitisse nascer um brotinho verde. É muito difícil exigir que alguém cuja vida nunca teve valor nenhum para ninguém dê algum valor à vida dos outros.

Há alguns dias eu estava conversando com meu filho de dez anos sobre uma criança que vivia provocando os colegas, arrumando briga e que sempre ficava isolada nas brincadeiras. Ele me disse o seguinte: "Ele é assim porque ninguém gosta dele". E eu concordo. Só que a maioria das pessoas inverte essa lógica e insiste que "Ninguém gosta dele porque ele é assim". Mas ninguém se esforça para gostar dele como ele é e dar uma chance para que ele possa tentar ser diferente.

A gente aprende a amar sendo amado. 

domingo, 8 de março de 2015

Comunicação saudável

A Loganálise, vertente da Psicanálise que utilizo em minha prática, apresenta algumas sugestões técnicas sobre como comunicar-se de maneira saudável.

Este tipo de comunicação é formado por frases com características particulares. Elas são: autológicas (o verbo está na primeira pessoa do singular - eu), microscópicas (referem-se a situações específicas) e expressam emoções e/ou desejos. Para ilustrar darei alguns exemplos de frases que muitas vezes utilizamos e sugestões de como expressar-se melhor.

FRASE: Você sempre me trata mal.
SUGESTÃO: Eu não gostei da forma como você me tratou durante a situação x.

As palavras sempre e nunca generalizam uma percepção momentânea e colocam a pessoa que escuta na defensiva. É provável que a pessoa responda que não é sempre que isso acontece e na verdade o que importa não é a frequência com que se sente daquela forma, mas o fato de se sentir assim num dado momento. Portanto é melhor dizer pontualmente em que situação isso aconteceu e como você se sentiu. 

FRASE: Você está sendo muito agressivo comigo.
SUGESTÃO: Quando você fala comigo desta forma eu fico com medo de você acabar me agredindo.

Dizer que o outro é agressivo pode dar início a uma discussão infinita em que ele insiste que não é agressivo e você afirma que é sim. E não se chega a lugar nenhum. É melhor deixar o rótulo de lado e analisar que atitude dele te faz pensar isso. E como você se sente nesta situação.

FRASE: Você não me ama.
SUGESTÃO: Eu não me sinto amada / Eu tenho a impressão de que você não me ama.

É muito complicado ficar especulando sobre os sentimentos do outro, ficar pedindo provas ou demonstrações do que ele sente. É mais saudável você dizer o que sente com relação a ele, as impressões que tem sobre os sentimentos dele. Quando você diz "Você não me ama" o outro pode dizer que ama sim, muito mais do que você pensa, que é você que não lhe dá valor, bla bla bla. Quando você diz que tem a impressão de que ele não te ama, o outro pode dizer que ama sim, mas você pode reafirmar a sua percepção sem negar o que ele sente, dizendo "Eu não falei que você não me ama, eu disse que é a minha impressão. E eu fiquei com esta impressão quando você disse/fez xyz". 

FRASE: Nunca mais faça isso comigo!
SUGESTÃO: Quando você faz xyz comigo eu fico muito magoada, chego a pensar em separação porque não suporto mais ser tratada desta forma.

É muito chato conviver com alguém que nos ameaça ou nos dá ordens sobre o que podemos e não podemos fazer. Em uma relação saudável cada um tem autonomia para falar, para agir e assume a responsabilidade por seus atos e suas palavras. É mais produtivo dizer o que aquela atitude da pessoa provoca em você, o que te faz pensar e sentir e deixar que o outro decida o que fazer com esta informação.

Dá para perceber a diferença que estas mudanças podem fazer no rumo da conversa? Que tal tentar colocar em prática?