Este blog encontra-se inativo. Se quiser continuar lendo o que escrevo me acompanhe aqui:http://sheilaromejon.blogspot.com.br/

domingo, 26 de abril de 2015

Relacionamentos abusivos

Quem nunca ouviu uma pessoa se queixando de um relacionamento repetidas vezes, dizendo o quanto o companheiro é insensível e grosseiro?

E quem nunca presenciou pessoas próximas, após ouvir este desabafo, dizendo que Fulano gosta mesmo de sofrer, pois reclama mas continua com Beltrano, não toma nenhuma atitude para sair daquela relação?

Há um conceito loganalítico que pode explicar o que acontece em muitos destes casos, a Produção Artificial de Evento (PEA).

O Luís César Ebraico define a PEA como um "sintoma em que a pessoa, contra sua vontade consciente, é compelida a reproduzir, em sua realidade atual, experiências frustrantes a que se encontra fixada".

Vou dar um exemplo para ilustrar. Vamos imaginar uma menina que na infância era tratada pelos pais de forma bastante rude, sem qualquer demonstração de carinho. Não tinha espaço para emitir sua opinião, suas vontades não eram ouvidas. Era exigido dela apenas que se comportasse e obedecesse. Além disso não convivia com ninguém com quem se sentisse à vontade para se expressar livremente e dizer como se sentia sendo tratada daquela forma por sua família. Ela cresce carregando dentro de si uma necessidade imensa de falar sobre a ausência de afeto e de carinho de que foi vítima na infância, mas não encontra escuta. As pessoas que a ouvem desabafar não dão grande importância à sua fala, dizem que já passou e que ela deve "deixar isso pra lá". Este Desejo de Palavra torna-se tão intenso que na ânsia de satisfazê-lo ela começa a, inconscientemente, buscar situações em que seja tratada de forma rude e pouco carinhosa para que possa falar sobre como se sente mal sendo tratada assim.

Quero deixar claro que a pessoa não faz isso porque quer nem porque gosta. Não é uma escolha consciente. Provavelmente ela nota (sem se dar conta) nas pessoas com as quais tem contato alguns comportamentos semelhantes àqueles das pessoas que deixaram impressas nela as memórias traumáticas e acaba se aproximando destas pessoas e criando a oportunidade de ser novamente exposta às situações que provocam sentimentos parecidos aos que se encontra fixada e sobre os quais precisa falar.

Dá para imaginar como foi a infância das pessoas que frequentemente se envolvem em relacionamentos abusivos? Dá para imaginar como é prejudicial para o futuro de uma criança crescer em um ambiente em que não é ouvida nem respeitada?

Quando ouvir uma pessoa expressando a sua insatisfação com o companheiro, antes de dar palpite sobre o que ela deve fazer, ouça. Ser acolhida é o primeiro passo para romper as amarras que a mantém presa a alguém que a maltrata.

Quando estiver conversando com seus filhos preste atenção na forma como você os trata. Quando perceber que eles foram desrespeitados por quem quer que seja, ouça, acolha, exponha a sua opinião sobre o que foi dito, defenda-os quando for o caso. Ter seus sentimentos legitimados na infância é a base para tornar-se um adulto que sabe que merece ser tratado com respeito. Sempre.

domingo, 19 de abril de 2015

Por que choram os bebês?

Todo mundo diz que a mãe aprende a reconhecer os diferentes tipos de choro do bebê e sabe quando ele chora de fome, de dor ou de sono. Eu tenho muita dificuldade! Não acho simples fazer esta distinção e desvendar o que o bebê está tentando comunicar. Mesmo no terceiro filho às vezes eu confundo o choro dele com o gemido do cachorro do vizinho.

Em seu livro "A criança e seu mundo", Winnicott escreveu um capítulo só sobre isso: "Por que choram os bebês?". 

Para ele os bebês choram por um destes quatro motivos: satisfação, dor, raiva e tristeza.

Sobre o choro de satisfação, ele diz que às vezes a criança chora para exercitar os pulmões, chora pelo prazer de exercitar aquela função física que descobriu em seu corpo. Ter um bebê que nunca chora não é necessariamente um bom sinal. Winnicott diz preferir um "bebê chorão, que acabou por dar-se conta da sua capacidade total para fazer ruído" ao bebê que não chora. Ele explica que o choro é um recurso do bebê para tranquilizar-se em um momento de dificuldade, ou seja, o prazer que ele experimenta com o choro alivia a angústia que ele está sentindo.

O choro de dor é o mais fácil de identificar, é um som penetrante, um grito. E Winnicott entende a fome como um tipo de dor. Nós, adultos, não nos lembramos da dor da fome porque não nos permitimos sentir fome de um modo doloroso, fazemos tudo o que está ao nosso alcance para garantir que sempre teremos a provisão necessária de comida. Ele explica que o choro de dor também refere-se à apreensão de que irá sentir dor em breve. Quando identifica uma situação já familiar que provocará sensações desagradáveis, ele pode começar a chorar assim que a reconhece. Por isso, a base do choro de medo é a dor e o pranto soa de forma semelhante nos dois casos.

A terceira causa para o choro é a raiva. Por mais que a mãe se esforce para atender todas as necessidades do bebê é inevitável que ela o decepcione algumas vezes e nestas situações ele chora de raiva. Mas ao mesmo tempo em que sente raiva, ele chora também por ter esperança de que este choro a comoverá, ou seja, o choro de raiva é também um sinal positivo de que o bebê confia nos cuidados da mãe.

Ainda sobre o choro de raiva: "É uma coisa saudável para o bebê conhecer a extensão completa da sua capacidade de fúria. Compreenda-se: o bebê não se sente inofensivo quando está raivoso. As mães conhecem bem o ar com que ele fica. Grita, esperneia e, se já tiver idade para isso, levanta-se e sacode as grades do berço. Morde, arranha, cospe, vomita, arma uma barafunda infernal. (...) Por alguns minutos, sua intenção é realmente destruir ou, pelo menos, danificar tudo e todos, e nem sequer lhe importa destruir a si próprio no decorrer da crise. (...) Se o bebê chora num acesso de raiva e sente como se tivesse destruído o mundo inteiro mas, em sua volta as pessoas mantêm-se calmas e ilesas, essa experiência fortalece enormemente sua capacidade de apreender que o que ele acha ser verdadeiro não é necessariamente real, que a fantasia e o fato concreto, ambos importantes, são entretanto distintos um do outro". E há quem chame isso de manha...

A quarta causa de choro é a tristeza. Para Winnicott o choro triste é musical, é um pranto que passa por diversos tons. As lágrimas também são mais características do choro triste do que do de raiva. Trata-se de um choro mais complexo. "Quando o seu bebê mostra que pode chorar de tristeza, você poderá deduzir que ele percorreu uma longa jornada no desenvolvimento de seus sentimentos".

"(...) o choro triste é algo muito complicado, algo que significa já ter a criança conquistado seu lugar no mundo. (...) Já começou a assumir sua responsabilidade com relação ao meio. Em lugar de reagir apenas às circunstâncias, passou a sentir responsabilidade sobre as circunstâncias. O problema está em que começa a sentir-se totalmente responsável pelo que lhe sucede e pelos fatores externos da sua vida. Só gradualmente começa a fazer distinção entre aquilo por que é responsável e aquilo tudo por que se sente responsável."

"(...) um bebê triste poderá necessitar o amor físico e demonstrativo da mãe. O que ele não precisa, contudo, é ser distraído efusivamente (por exemplo, fazê-lo saltar no colo, provocar cócegas, etc) da sua tristeza. Digamos que ele se encontra num estado de luto e requer certo período de tempo para recuperar-se." Sabe aquela nossa mania de dizer "não fica assim, não chora"? Então, melhor não. Nem para um bebê.

E ele finaliza dizendo que na verdade existe um quinto tipo de choro, o de desamparo e desespero, que é para onde todos os quatro tipos convergem "se não restar qualquer esperança no espírito do bebê". Winnicott diz que provavelmente as mães nunca ouçam este tipo de choro e que ele é comum em instituições "onde não existem meios nem possibilidades de fornecer uma mãe para cada bebê".

E ele finaliza com esta frase: "O fato de que a mãe está disposta a cuidar pessoalmente do filho significa que ele tem sorte; a menos que sucedesse, por acaso, alguma coisa que viesse perturbar os cuidados rotineiros, ele estará em condições de seguir decididamente para a frente, demonstrando à mãe quando está zangado com ela e quando a ama, quando quer livrar-se dela, quando está ansioso ou com medo, ou quando apenas quer que a mãe compreenda que ele está triste."

Não é lindo?

domingo, 12 de abril de 2015

Todo mundo erra

Eu tento sempre tratar meus filhos com respeito e carinho, mas às vezes eu erro.

Ultimamente, com um bebê de dez meses que ainda acorda à noite, tenho ficado bem cansada física e emocionalmente. Dormir pouco me deixa irritada e tenho perdido a paciência com as crianças com mais facilidade.

Esta semana estávamos entrando no carro e meu filho jogou o material da escola em cima de umas sacolas de mercado com coisas frágeis. Eu explodi: "Poxa, você não está vendo as sacolas? Como você joga suas coisas assim em cima sem saber o que tem dentro?". E ele me respondeu: "Nossa! Eu não vi, precisava gritar?". Pedi desculpas e disse que não, não precisava gritar. Expliquei que estava nervosa com outras coisas e acabei descontando nele. E ele me disse: "Tá tudo bem, mãe".

Eu já pedi a eles várias vezes para não gritarem um com o outro. Disse que às vezes eu perco a paciência e acabo gritando mas que não quero fazer isso e caso aconteça eu gostaria que eles chamassem a minha atenção pois eu estou errada. E eles fazem. Eles me cobram para que minhas atitudes sejam condizentes com o que peço a eles. 

Uma coisa que eu tenho feito também é avisá-los quando percebo que estou começando a ficar irritada. Alguns períodos do dia são mais tumultuados aqui em casa, momentos em que estou sozinha com os três e tentando fazer várias coisas ao mesmo tempo. Nestas horas, quando eles começam a insistir muito para que eu pare o que estou fazendo para atender um pedido deles que pode esperar eu acabo perdendo a paciência, sendo grossa. Então comecei a dizer assim: "Olha, agora está difícil, não dá para eu parar o que estou fazendo. Eu estou ficando irritada e quando fico assim eu acabo te tratando de um jeito que eu não gosto. A gente pode deixar isso pra depois?". Geralmente eles entendem e até perguntam se podem fazer alguma coisa para me ajudar. Eu tenho minhas limitações e acho importantíssimo que eles saibam disso.

Eu percebo que a maioria das pessoas tem muita dificuldade para admitir seus erros e suas fragilidades, principalmente com as crianças. Acho que há uma cobrança muito grande para ser a mãe e o pai perfeitos, que nunca erram. Quando erram disfarçam o erro, fingem que não foi nada demais, como se reconhecer-se falível fosse abalar a "autoridade" dos pais junto aos filhos (não gosto da palavra autoridade pois me vem a ideia de hierarquia, algo que eu acho que não deveria existir dentro de uma família). Por outro lado, quando a criança "erra", quando seu comportamento foge do esperado pelos pais, isso logo é apontado por eles. Deve ser muito difícil sentir-se a errada e imperfeita convivendo com estes pais que não erram nunca.

Eu não sei qual a utilidade de manter no imaginário da criança esta figura idealizada de pai e mãe. Acredito que a criança tenha muito mais a aprender com pais reais, que erram, reconhecem o erro, se arrependem, pedem desculpa e aprendem com isso. Admitir que somos imperfeitos nos torna pessoas mais tolerantes. E as crianças aprendem também a ser tolerantes e compreensivas com os próprios erros e com os dos outros.

domingo, 5 de abril de 2015

A ansiedade do terapeuta

Eu me lembro de uma supervisão do estágio de Psicologia Clínica na faculdade em que eu estava super frustrada. A minha paciente que na semana anterior havia tido um insight (aquele estalo que você tem e tudo parece fazer sentido) e tinha saído da sessão resolvida a mudar várias coisas em sua vida, voltou naquela semana contando novamente tudo o que ela já havia falado deste o começo da terapia, tudo o que a incomodava e que queria mudar. Parecia que ela tinha esquecido o que tinha decidido fazer na sessão anterior. Eu fiquei ouvindo sem saber muito bem o que dizer.

Na supervisão me queixei à professora supervisora dizendo que eu não entendia o que tinha acontecido. Se ela já sabia como resolver o problema dela por que ela não resolvia? A supervisora me deu um puxão de orelha: "Ela vai resolver no tempo dela, não no seu tempo. Segura a sua ansiedade".

Eu percebi que tinha uma visão idealizada da terapia (e muitos pacientes também têm). A gente acha que depois de algumas sessões tudo passa a fazer sentido, uma mudança marcante e transformadora acontece, o terapeuta dá alta para o paciente e todos vivem felizes para sempre. Mas não é assim. Ou raramente é assim.

Estes são os casos que encontramos nos livros, aqueles que o psicólogo escolhe a dedo para mostrar como é bom e como sua abordagem funciona. Só que ele não conta que para cada caso marcante, há uma dezena em que ele se sente impotente sessão após sessão e tem a sensação constante de que nada acontece, nada muda.

Esta mesma paciente que atendi na faculdade em uma outra sessão me disse que ela não tinha esperança de que fosse conseguir resolver a sua situação e que ir à terapia todas as semanas para desabafar como sua vida era difícil era o que deixava mais leve a sua carga e tornava possível continuar vivendo. Neste dia eu vi que a expectativa dela com a terapia era muito diferente da minha. O que eu queria e esperava dela estava além do que ela estava disposta e preparada para fazer naquele momento.

Não é fácil este tipo de atendimento, pelo menos para mim não é. Eu tenho um desejo muito forte de que o paciente mude, resolva, recomece e é difícil controlar a minha expectativa, mas isso é um problema meu, não do paciente. Sou eu quem precisa ter clareza desta minha ansiedade e me controlar para não transmitir este sentimento para o paciente pressionando-o ou cobrando para que ele tome uma atitude que não está pronto para tomar.