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domingo, 19 de abril de 2015

Por que choram os bebês?

Todo mundo diz que a mãe aprende a reconhecer os diferentes tipos de choro do bebê e sabe quando ele chora de fome, de dor ou de sono. Eu tenho muita dificuldade! Não acho simples fazer esta distinção e desvendar o que o bebê está tentando comunicar. Mesmo no terceiro filho às vezes eu confundo o choro dele com o gemido do cachorro do vizinho.

Em seu livro "A criança e seu mundo", Winnicott escreveu um capítulo só sobre isso: "Por que choram os bebês?". 

Para ele os bebês choram por um destes quatro motivos: satisfação, dor, raiva e tristeza.

Sobre o choro de satisfação, ele diz que às vezes a criança chora para exercitar os pulmões, chora pelo prazer de exercitar aquela função física que descobriu em seu corpo. Ter um bebê que nunca chora não é necessariamente um bom sinal. Winnicott diz preferir um "bebê chorão, que acabou por dar-se conta da sua capacidade total para fazer ruído" ao bebê que não chora. Ele explica que o choro é um recurso do bebê para tranquilizar-se em um momento de dificuldade, ou seja, o prazer que ele experimenta com o choro alivia a angústia que ele está sentindo.

O choro de dor é o mais fácil de identificar, é um som penetrante, um grito. E Winnicott entende a fome como um tipo de dor. Nós, adultos, não nos lembramos da dor da fome porque não nos permitimos sentir fome de um modo doloroso, fazemos tudo o que está ao nosso alcance para garantir que sempre teremos a provisão necessária de comida. Ele explica que o choro de dor também refere-se à apreensão de que irá sentir dor em breve. Quando identifica uma situação já familiar que provocará sensações desagradáveis, ele pode começar a chorar assim que a reconhece. Por isso, a base do choro de medo é a dor e o pranto soa de forma semelhante nos dois casos.

A terceira causa para o choro é a raiva. Por mais que a mãe se esforce para atender todas as necessidades do bebê é inevitável que ela o decepcione algumas vezes e nestas situações ele chora de raiva. Mas ao mesmo tempo em que sente raiva, ele chora também por ter esperança de que este choro a comoverá, ou seja, o choro de raiva é também um sinal positivo de que o bebê confia nos cuidados da mãe.

Ainda sobre o choro de raiva: "É uma coisa saudável para o bebê conhecer a extensão completa da sua capacidade de fúria. Compreenda-se: o bebê não se sente inofensivo quando está raivoso. As mães conhecem bem o ar com que ele fica. Grita, esperneia e, se já tiver idade para isso, levanta-se e sacode as grades do berço. Morde, arranha, cospe, vomita, arma uma barafunda infernal. (...) Por alguns minutos, sua intenção é realmente destruir ou, pelo menos, danificar tudo e todos, e nem sequer lhe importa destruir a si próprio no decorrer da crise. (...) Se o bebê chora num acesso de raiva e sente como se tivesse destruído o mundo inteiro mas, em sua volta as pessoas mantêm-se calmas e ilesas, essa experiência fortalece enormemente sua capacidade de apreender que o que ele acha ser verdadeiro não é necessariamente real, que a fantasia e o fato concreto, ambos importantes, são entretanto distintos um do outro". E há quem chame isso de manha...

A quarta causa de choro é a tristeza. Para Winnicott o choro triste é musical, é um pranto que passa por diversos tons. As lágrimas também são mais características do choro triste do que do de raiva. Trata-se de um choro mais complexo. "Quando o seu bebê mostra que pode chorar de tristeza, você poderá deduzir que ele percorreu uma longa jornada no desenvolvimento de seus sentimentos".

"(...) o choro triste é algo muito complicado, algo que significa já ter a criança conquistado seu lugar no mundo. (...) Já começou a assumir sua responsabilidade com relação ao meio. Em lugar de reagir apenas às circunstâncias, passou a sentir responsabilidade sobre as circunstâncias. O problema está em que começa a sentir-se totalmente responsável pelo que lhe sucede e pelos fatores externos da sua vida. Só gradualmente começa a fazer distinção entre aquilo por que é responsável e aquilo tudo por que se sente responsável."

"(...) um bebê triste poderá necessitar o amor físico e demonstrativo da mãe. O que ele não precisa, contudo, é ser distraído efusivamente (por exemplo, fazê-lo saltar no colo, provocar cócegas, etc) da sua tristeza. Digamos que ele se encontra num estado de luto e requer certo período de tempo para recuperar-se." Sabe aquela nossa mania de dizer "não fica assim, não chora"? Então, melhor não. Nem para um bebê.

E ele finaliza dizendo que na verdade existe um quinto tipo de choro, o de desamparo e desespero, que é para onde todos os quatro tipos convergem "se não restar qualquer esperança no espírito do bebê". Winnicott diz que provavelmente as mães nunca ouçam este tipo de choro e que ele é comum em instituições "onde não existem meios nem possibilidades de fornecer uma mãe para cada bebê".

E ele finaliza com esta frase: "O fato de que a mãe está disposta a cuidar pessoalmente do filho significa que ele tem sorte; a menos que sucedesse, por acaso, alguma coisa que viesse perturbar os cuidados rotineiros, ele estará em condições de seguir decididamente para a frente, demonstrando à mãe quando está zangado com ela e quando a ama, quando quer livrar-se dela, quando está ansioso ou com medo, ou quando apenas quer que a mãe compreenda que ele está triste."

Não é lindo?

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