Este blog encontra-se inativo. Se quiser continuar lendo o que escrevo me acompanhe aqui:http://sheilaromejon.blogspot.com.br/

domingo, 31 de maio de 2015

O Segredo

Quando alguém elogia ou recomenda o livro O Segredo da australiana Rhonda Byrne eu fico meio sem graça. Eu sei que a intenção da pessoa é das melhores, já o livro...

Sim, eu li. E para mim ele deveria vir com um aviso na contracapa semelhante ao dos maços de cigarro: "O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: Aplicar em sua vida as recomendações contidas neste livro faz mal à sua saúde mental".

Por quê?

A autora defende que você atrai para a sua vida aquilo em que você mais pensa (“Seus pensamentos se transformam em coisas”e sugere que os pensamentos negativos sejam reprimidos (“Decida agora ter apenas bons pensamentos, e, declare para o Universo que todos os seus pensamentos positivos são poderosos e que quaisquer pensamentos negativos são fracos”).

Para ela os sentimentos são sinais que indicam o tipo de pensamento que a pessoa está tendo naquele momento. Caso esteja se sentindo mal, ela deve mudar o pensamento para algo que a faça sentir-se bem.

Ela recomenda que apenas conteúdos positivos sejam verbalizados e acolhidos ("Se você se queixar, a lei da atração trará para a sua vida mais situações sobre as quais se queixar. Se você ouve a queixa de outra pessoa e se concentra naquilo, se solidariza com a pessoa, concorda com ela, naquele momento você está atraindo para si mais situações sobre as quais se queixar").

Resumindo, ela recomenda que você não pense e nem fale sobre aquilo que te incomoda, seus medos e suas angústias. E mais, que você também não dê ouvidos àqueles que te procuram para desabafar e falar sobre seus problemas.

Se seguirmos estes conselhos teremos uma sociedade formada por indivíduos que fingem o tempo todo que está tudo bem enquanto em seu íntimo muita coisa vai mal. Teremos uma quantidade cada vez maior de pessoas se entupindo de antidepressivos para esconder seu sofrimento e sustentar um falso sorriso no rosto. E ouviremos diariamente a expressão "pense positivo", um mantra que tudo cura e tudo resolve como num passe de mágica.

Pois é, o livro foi um sucesso de vendas. Isso explica muita coisa, não?

Se quiser ler mais sobre o assunto, coloquei aqui no blog um artigo científico que escrevi em 2013: Análise comparativa entre livros de autoajuda e livros de psicologia.

domingo, 24 de maio de 2015

A infelicidade de quem tem "tudo"

Como é possível alguém que tem tudo para ser feliz apresentar sintomas de ansiedade ou de depressão?

O sujeito não tem problemas de saúde, tem dinheiro, um bom emprego, uma família, amigos queridos... Pronto, pacote completo, não tem do que reclamar. E se reclama é mal agradecido pois tem muita gente que não tem metade do que ele tem e vive feliz. 

Só que a nossa vida não se resume aos fatos concretos, ao que temos ou deixamos de ter, ao que fazemos ou deixamos de fazer.

Diariamente temos contato com acontecimentos agradáveis e desagradáveis que afetam a nossa vida. Estas situações fazem parte do ambiente em que estamos inseridos. No entanto o ambiente não é tudo. Existem outros fatores que compõem o nosso metambiente*. 

O ambiente é formado por todas as possibilidades e limitações que norteiam as nossas ações. Já o metambiente é composto pelos fatores que permitem ou impedem a  expressão de nossos desejos e emoções a respeito daquilo que vivenciamos.

Uma pessoa que tem uma vida confortável, família, amigos, pode não ter entre estas pessoas ninguém
que o escute e o acolha quando ele tem necessidade de falar sobre seus sentimentos. Ou seja, apesar do ambiente ser bom, o metambiente é ruim.

O contrário também pode acontecer, ter uma situação de vida complicada, passar por necessidades financeiras, problemas de saúde, mas encontrar no seu círculo de amigos ou na família alguém capaz de ouvir as suas dores e acolher suas angústias.

Pode acontecer de o primeiro sofrer com crises de ansiedade enquanto o segundo consegue lidar com seus problemas de maneira serena e equilibrada, mantendo-se psiquicamente saudável.

No que diz respeito à saúde mental, mais importante do que aquilo que se passa conosco é a possibilidade de podermos falar o que pensamos e como nos sentimos a respeito do que aconteceu. Os eventos por si só não causam os transtornos mentais, a falta de escuta e de acolhimento sim.

* Conheci este termo através do Ebraico, em seu livro A Nova Conversa.

domingo, 17 de maio de 2015

Não matem o mensageiro

Quando eu falo que sou psicóloga e que atendo pela internet a maioria das pessoas me olha com um ar de incredulidade, aquela cara de "mas pode isso?". Eu respondo que sim, que é regulamentado pelo Conselho Federal de Psicologia e que tenho autorização para fazê-lo. E a próxima pergunta é "mas funciona? Não é estranho? Não fica um atendimento frio, distante?". Não, eu não acho.

Você já ouviu alguém falar assim "nossa, eu adoro conversas presenciais, são tão íntimas e acolhedoras"? Eu nunca ouvi. Acho que é meio óbvio que, quando você tem a oportunidade de encontrar com alguém e conversar pessoalmente, o que torna esta conversa agradável são as falas da pessoa, a maneira como ela se expressa e como reage àquilo que você diz. Ou todas as conversas que você tem pessoalmente, não importa com quem, são sempre boas e profundas? 

Agora, quando você ouve alguém contar uma barbaridade com que teve contato através da internet a culpa é da internet. Adultério? Culpa da internet que facilita o contato entre as pessoas. Pedofilia? Culpa da internet que permite a exibição de imagens de crianças. Difamação? Culpa da internet que possibilita a transmissão rápida e maciça da informação. 

Isso me lembra muito aquelas histórias antigas em que os mensageiros chegavam trazendo as notícias ao rei. Se a notícia fosse boa ele era recompensado. Se fosse ruim era executado sem dó nem piedade. Quando as pessoas torcem o nariz para aquilo que é feito pela internet, quando diminuem o valor do que é feito online comparando àquilo que se faz presencialmente, a impressão que eu tenho é essa, de que estão matando o mensageiro.

Grandes amigos que tenho hoje são pessoas que conheci online. Algumas amizades se tornaram também presenciais, outras continuam virtuais e tão significativas quanto as primeiras.

Eu entendo que nem todos se sintam tão à vontade para se comunicar por email ou videoconferência quanto se sentem em uma conversa presencial. Da mesma forma que entendo que muitas pessoas têm mais facilidade no contato virtual. É uma questão de perfil, de gosto, de preferência.

O que eu tenho ouvido de algumas pessoas que me procuram é que nunca fizeram terapia e que gostaram de saber que existe o atendimento online pois acreditam que se sentirão mais à vontade para se abrir desta forma do que presencialmente. E eu fico feliz que esta possibilidade exista.

Eu não acho que um meio de atendimento seja melhor do que o outro. São diferentes. E as pessoas também ;)

domingo, 10 de maio de 2015

Feliz dia das mães

Na semana passada meu filho mais velho veio me mostrar um desenho que tinha feito na aula de matemática (era uma atividade envolvendo formas geométricas). Eu estava lendo um texto no computador.

- Mãe, olha o desenho que eu fiz.
Eu olhei para o desenho por três segundos e disse:
- Que legal! Adorei.
E enfiei a cara no computador de novo. 
Ele insistiu:
- Você percebeu que são duas setas?

Aí eu me dei conta de que tinha dado uma resposta bem preguiçosa para encerrar logo a conversa e retomar o que eu estava fazendo. Deixei o computador de lado e peguei o desenho na mão:
- Verdade, tem uma seta apontando pra cima e outra pra baixo. E esta aqui está na frente e a outra atrás, né?
- É. Primeiro eu desenhei esta, depois a outra.
- Eu gostei das cores que você usou, o contraste ficou bonito.
- Quer ver o papel que a professora deu e como eu fiz pra chegar nesse desenho?
- Quero!
Ele foi pegar o papel com a proposta da atividade e ficamos alguns minutos conversando. No final ele pegou o desenho e saiu. Feliz por ter compartilhado comigo a satisfação dele com o que havia feito.

Imagine como seria se você encontrasse com o seu pintor preferido e ele viesse te mostrar sua última obra de arte. O que você diria quando visse a pintura? "Parabéns, você pinta muito bem!" e viraria as costas? Acho que não, né? Provavelmente você comentaria sobre algum elemento que te chamou a atenção no quadro, falaria sobre o que ele te fez pensar, sentir, demonstraria interesse pela técnica utilizada. Então por que com os nossos filhos é diferente? 

Acho que a gente (e me incluo nesta) dá respostas bem preguiçosas para as crianças. Como se aquilo fosse suficiente, como se qualquer atenção adicional não fosse necessária. Olhamos para aquilo que eles criam de forma superficial e emitimos elogios vazios. E tem mais. Muitas vezes aquilo que dizemos tem um tom avaliativo. "Muito bom!", "Ficou lindo!", "Você desenha muito bem!". É como se estivéssemos colocando nosso selinho de aprovação. 

Será que a criança continuará tendo o mesmo prazer de desenhar, escrever, pintar e a mesma alegria em compartilhar suas criações com a gente? Será que ela não se sentirá pressionada a fazer algo que seja bom e bonito aos nossos olhos para continuar recebendo elogios? Será que o valor que ela dá para aquilo que faz (e a ela mesma como pessoa) não estará condicionado ao nosso reconhecimento?

Eu acho que deveríamos trocar a avaliação e a aprovação por uma postura mais apreciativa. Deveríamos falar que aquela paisagem nos lembra um lugar onde estivemos juntos nas nossas últimas férias e perguntar se foi de lá que a criança tirou sua inspiração. Deveríamos dizer que gostamos da cor do vestido da menina e pedir para ver o lápis de cor que a criança usou para pintá-lo. Deveríamos compartilhar com a criança que temos a impressão de que está fazendo frio naquela cena que ela retratou, ou calor, ou que parece que vai chover. Deveríamos perguntar se aquela árvore que ela desenhou dá alguma fruta ou flor. Um comentário autêntico e sincero, depois de olhar para o desenho com a atenção que uma obra de arte merece.

Sim, precisa ter mais tempo para fazer isso. Cinco minutos e não cinco segundos.

Eu fico feliz que meu filho tenha insistido. Espero que ele continue insistindo e chamando a minha atenção quando eu erro. No momento em que ele deixar de fazer isso eu preciso ficar bem preocupada. Será um sinal de que ele perdeu a esperança de ter uma mãe melhor.

Feliz dia das mães!


domingo, 3 de maio de 2015

Não vamos tapar o sol com a peneira

A maioria das pessoas têm uma dificuldade muito grande para lidar com a perda. A morte de alguém, o término de um relacionamento, o fim de um sonho. A tendência é sempre fazer algo para desviar a atenção daquilo que aconteceu.

A criança fica triste porque o cachorrinho de estimação morreu. O que os pais fazem? Arrumam outro cachorro para colocar no lugar do que se foi.

A pessoa termina um namoro de anos, fica mal, chorando inconsolável. O que os amigos fazem? Chamam para sair, se distrair e não pensar no que aconteceu.

O indivíduo não consegue passar no concurso para o qual estudou durante todo o seu tempo livre no último ano. O que as pessoas dizem para "consolar"? Ah, não fica assim, agora é pensar no próximo.

O que estas atitudes têm em comum? 

Em todas elas o objetivo de quem presencia o luto é tirar o foco do sentimento que se apresenta no momento, é criar uma situação agradável ou trazer um pensamento feliz no intuito de deixar a tristeza de lado.

O problema é que este lado não é o lado de fora. Muito pelo contrário. Essa tristeza deixada de lado, fica do lado de dentro, escondidinha num canto, censurada, impossibilitada de sair pela via mais saudável, que é a fala, procurando outra forma de se expressar. Não dar voz a essa tristeza é tapar o sol com a peneira.

É importante que a gente permita que a tristeza exista, que ela possa ser sentida e expressa. Não é gostoso, não é agradável, mas é preciso. 

Expressar essa tristeza, desabafar, não necessariamente fará com a pessoa fique feliz como consequência, mas a ajudará a lidar com a situação de forma mais serena. 

Como escreveu o Luis César Ebraico:

"Felicidade é algo por demais dependente de circunstâncias que escapam ao nosso controle. (...) A serenidade – não a felicidade – frente aos fatos da vida, sejam eles prazerosos ou desprazerosos, é uma das características universais da saúde psicológica (...)"