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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O lado B da maternidade

Você sabe de onde vem o termo “lado B”?

Para quem é da época dos discos de vinil... Você se lembra que, quando comprávamos um disco, aquela música que mais queríamos ouvir geralmente era a primeira ou a segunda faixa do lado A? E se lembra que quando virávamos o disco para ouvir o lado B as músicas eram meio diferentes, desconhecidas, às vezes parecia até outra banda que estava tocando? O lado A era o lado mais comercial, com as músicas que todos queriam ouvir. Já no lado B o artista costumava mostrar um lado novo, inesperado – e nem todo mundo gostava.

Pois é, a maternidade é como esse disco.

O lado A é o que todo mundo espera que você fale sobre o bebê, sobre a experiência de ser mãe, a plenitude, o amor incondicional. O lado B é aquilo que a gente diz quando se sente à vontade, sem medo de ser julgada, a dor para amamentar e o medo da dor quando a próxima mamada se aproxima, a vontade de chorar (e a gente nem sabe por que está chorando), a dificuldade de pensar com clareza sobre as coisas práticas do dia a dia quando você não dorme direito há meses, os questionamentos sobre a nossa capacidade para cuidar do bebê, a vontade de sumir por um tempo e ficar sozinha, a saudade da vida antes do bebê... 

São dois lados de um mesmo disco. O amor que eu sinto pelo meu filho não impede que existam tantos outros sentimentos. Eu posso amá-lo e me sentir desesperada, eu posso estar feliz e ao mesmo tempo cansada, cheia de dúvidas, insegura e ansiosa. Uma coisa não exclui a outra.

Ser mãe é muito difícil. Quando não se fala sobre isso fica a impressão de que você é a única que sofre para desempenhar este papel. E é esse sofrer solitário que acaba com as nossas forças e aumenta nossas inseguranças. 

Quando a gente ouve outra mãe dizendo que sente algo parecido, dá um alívio tão grande! Aquela sensação de “Ufa! Eu sou normal!”. 

Antes de ser mãe você sabe que bebê dá trabalho, você sabe que vai dormir menos, mas você não sabe como o seu corpo e o seu humor respondem à privação de sono e a tantas outras mudanças na sua rotina. E mesmo que soubesse, esse conhecimento prévio não tira o seu direito de desabafar e de chorar quando sentir necessidade. Se eu sabia que ia ser assim agora o que me resta é sofrer em silêncio? Tenho que ficar quieta, fingindo que está tudo bem? 

Vamos fazer uma analogia com uma dor física? Imagine que você tenha feito uma cirurgia e que você sabia que provavelmente sentiria um pouco de dor no pós operatório. E você de fato está sentindo dor. Você chama o médico e diz que está com dor. O que ele diz? Você já sabia que ia doer, vira as costas e vai embora? É assim mesmo, vai passar? Dói mesmo, mas olha só a família linda que você tem? Não, né? E por que com a dor emocional é diferente? Por que quando alguém reclama de alguma coisa a gente diz é assim mesmo, logo passa? Por que a gente diz é difícil, mas olha que bebê lindo você tem? No caso da dor psíquica, do sofrimento emocional, o melhor analgésico que existe é escuta e acolhimento. É ouvir sem julgar, é mostrar que a pessoa não está sozinha. Evitar falar do sofrimento e desviar o foco não ajuda. Ela precisa de alguém com quem conversar sobre a dificuldade que está tendo e não sobre quão feliz deveria estar.

Eu entendo o sentimento de quem escuta, eu entendo o desejo de querer que a pessoa pense nas coisas boas da vida e sorria, eu entendo o ímpeto de fazer algo prático para resolver a situação e acabar logo com aquele falatório; mas é importante que antes de dizer ou fazer algo você se pergunte: o que você está resolvendo ao agir desta forma? Você está diminuindo o sofrimento do outro ou o seu próprio desconforto ao ouvir esse desabafo? A melhor forma de ajudar é perguntar que tipo de ajuda a pessoa precisa. Muitas vezes tudo o que ela quer é um ombro para chorar.

O que nos protege de transtornos emocionais mais graves é o apoio social, é sentir-se ouvida, compreendida, amparada. Quando eu falo sobre as minhas angústias, medos e frustrações e sou acolhida, eu consigo enxugar as lágrimas e retomar o meu papel de mãe com o coração mais leve.

Observação: Agradeço às mães do Grupo Pós Parto Samaúma & Aninhar com quem tive o prazer de conversar sobre esse tema na última segunda-feira. É com relatos como os de vocês que eu mais aprendo! Obrigada de coração.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

É possível atender um conhecido?

Quem me procura para fazer terapia geralmente chega até mim através da indicação de um amigo ou de algum texto meu no facebook (que a pessoa leu pois faz parte da minha lista de amigos). São pessoas com quem já tive algum contato anterior. E às vezes eu fico na dúvida se devo atender ou não. 

E se fizemos um curso juntos há três anos e nunca mais nos vimos? E se nos conhecemos na festa de aniversário de um amigo em comum e talvez venhamos a nos encontrar novamente? E se conversamos esporadicamente em um grupo do facebook mas não nos conhecemos pessoalmente? Qual seria o limite da proximidade para que este atendimento seja possível?

É a pergunta que eu sempre me faço e seria ótimo se houvesse uma equação matemática que me desse uma resposta exata, mas não existe.

O Código de Ética Profissional do Psicólogo também não estabelece nenhuma regra a este respeito. Ele diz apenas que é vedado ao psicólogo "estabelecer com a pessoa atendida, familiar ou terceiro, que tenha vínculo com o atendido, relação que possa interferir negativamente nos objetivos do serviço prestado". Ou seja, a restrição não diz respeito ao vínculo em si mas à forma como o psicólogo percebe este vínculo e como imagina que ele possa interferir no atendimento. É uma questão de bom senso.

Se a preocupação é com o que interfere negativamente no tratamento, acredito que a questão não esteja exatamente ligada à proximidade com o paciente, mas à forma como o terapeuta lida com aquilo que aparece na sessão e com as relações que estabelece entre o que é trazido pelo paciente e o que é de conhecimento prévio do terapeuta.

A pergunta a ser respondida na verdade é outra e não deve ser feita apenas no início da terapia, mas constantemente; e não apenas para quem já conheço, mas para todos que me procuram: eu sou capaz de atender esta pessoa?

Eu tenho percebido na minha prática que para fazer um bom atendimento eu devo ser capaz de:

1) Deixar de lado o que já conheço de antemão para focar minha atenção naquilo que o paciente me relata. Mesmo atendendo um completo desconhecido, no momento em que eu o vejo eu posso fazer uma série de suposições sobre quem ele é, posso distorcer minha visão baseando-me em elementos que ele tenha em comum com outras pessoas que conheci anteriormente. O ponto aqui não é há quanto tempo eu o conheço ou qual o nível de contato que tenho com ele, mas a minha disposição para me despir dos meus julgamentos enquanto converso com essa pessoa. Certamente isso é mais difícil de fazer com alguém que eu conheço muito, mas não acho que seja impossível.

2) Separar as minhas questões das questões do paciente. Quando eu ouço alguém me contar sua queixa é comum perceber nela pontos em comum com a minha história de vida, meus valores, meus conflitos. É inevitável para mim fazer estas associações. Se por um lado isso me ajuda a olhar para a pessoa de forma empática, por outro exige um cuidado muito grande para não misturar as minhas questões com as do paciente. É natural que tenhamos mais afinidade com amigos mais próximos e que nossas histórias se cruzem, mas pode acontecer também de eu encontrar com uma pessoa pela primeira vez na vida, ouvir seu relato, seus conflitos e me identificar intensamente com eles. O desafio aqui é não projetar no paciente aquilo que é meu, fazendo dele um espelho das minhas próprias angústias.

Ainda não me vi incapacitada de atender alguém pelo primeiro motivo (apesar de poder imaginar uma série de questões dentro de mim que eu teria bastante dificuldade para deixar de lado), mas já interrompi um atendimento pelo segundo. Eu teria como saber que não daria certo logo no início? Acredito que não. Foi algo que apareceu no decorrer das sessões e que me deixou bastante frustrada, mas faz parte do trabalho reconhecer minhas limitações.

A minha proposta é tentar e ver se dá certo.

Talvez daqui a algum tempo eu consiga ter uma visão mais clara sobre esta questão, talvez eu mude de opinião. Se acontecer, volto aqui para contar ;)

Obs.: Pensei mais um pouco a respeito e escrevi uma continuação aqui.