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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

É possível atender um conhecido?

Quem me procura para fazer terapia geralmente chega até mim através da indicação de um amigo ou de algum texto meu no facebook (que a pessoa leu pois faz parte da minha lista de amigos). São pessoas com quem já tive algum contato anterior. E às vezes eu fico na dúvida se devo atender ou não. 

E se fizemos um curso juntos há três anos e nunca mais nos vimos? E se nos conhecemos na festa de aniversário de um amigo em comum e talvez venhamos a nos encontrar novamente? E se conversamos esporadicamente em um grupo do facebook mas não nos conhecemos pessoalmente? Qual seria o limite da proximidade para que este atendimento seja possível?

É a pergunta que eu sempre me faço e seria ótimo se houvesse uma equação matemática que me desse uma resposta exata, mas não existe.

O Código de Ética Profissional do Psicólogo também não estabelece nenhuma regra a este respeito. Ele diz apenas que é vedado ao psicólogo "estabelecer com a pessoa atendida, familiar ou terceiro, que tenha vínculo com o atendido, relação que possa interferir negativamente nos objetivos do serviço prestado". Ou seja, a restrição não diz respeito ao vínculo em si mas à forma como o psicólogo percebe este vínculo e como imagina que ele possa interferir no atendimento. É uma questão de bom senso.

Se a preocupação é com o que interfere negativamente no tratamento, acredito que a questão não esteja exatamente ligada à proximidade com o paciente, mas à forma como o terapeuta lida com aquilo que aparece na sessão e com as relações que estabelece entre o que é trazido pelo paciente e o que é de conhecimento prévio do terapeuta.

A pergunta a ser respondida na verdade é outra e não deve ser feita apenas no início da terapia, mas constantemente; e não apenas para quem já conheço, mas para todos que me procuram: eu sou capaz de atender esta pessoa?

Eu tenho percebido na minha prática que para fazer um bom atendimento eu devo ser capaz de:

1) Deixar de lado o que já conheço de antemão para focar minha atenção naquilo que o paciente me relata. Mesmo atendendo um completo desconhecido, no momento em que eu o vejo eu posso fazer uma série de suposições sobre quem ele é, posso distorcer minha visão baseando-me em elementos que ele tenha em comum com outras pessoas que conheci anteriormente. O ponto aqui não é há quanto tempo eu o conheço ou qual o nível de contato que tenho com ele, mas a minha disposição para me despir dos meus julgamentos enquanto converso com essa pessoa. Certamente isso é mais difícil de fazer com alguém que eu conheço muito, mas não acho que seja impossível.

2) Separar as minhas questões das questões do paciente. Quando eu ouço alguém me contar sua queixa é comum perceber nela pontos em comum com a minha história de vida, meus valores, meus conflitos. É inevitável para mim fazer estas associações. Se por um lado isso me ajuda a olhar para a pessoa de forma empática, por outro exige um cuidado muito grande para não misturar as minhas questões com as do paciente. É natural que tenhamos mais afinidade com amigos mais próximos e que nossas histórias se cruzem, mas pode acontecer também de eu encontrar com uma pessoa pela primeira vez na vida, ouvir seu relato, seus conflitos e me identificar intensamente com eles. O desafio aqui é não projetar no paciente aquilo que é meu, fazendo dele um espelho das minhas próprias angústias.

Ainda não me vi incapacitada de atender alguém pelo primeiro motivo (apesar de poder imaginar uma série de questões dentro de mim que eu teria bastante dificuldade para deixar de lado), mas já interrompi um atendimento pelo segundo. Eu teria como saber que não daria certo logo no início? Acredito que não. Foi algo que apareceu no decorrer das sessões e que me deixou bastante frustrada, mas faz parte do trabalho reconhecer minhas limitações.

A minha proposta é tentar e ver se dá certo.

Talvez daqui a algum tempo eu consiga ter uma visão mais clara sobre esta questão, talvez eu mude de opinião. Se acontecer, volto aqui para contar ;)

Obs.: Pensei mais um pouco a respeito e escrevi uma continuação aqui.

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