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sábado, 28 de novembro de 2015

É possível atender um conhecido? - continuação

Quando escrevi este texto eu disse que voltaria a escrever sobre este assunto caso aparecesse alguma ideia nova a respeito dele. E apareceu.

Tem uma questão que não abordei porque não tinha me passado pela cabeça. É algo meio improvável mas acho válido mencionar.  

Acredito que eu não consiga atender um conhecido caso a questão que ele traga para tretar tratar (eu tinha digitado tretar quando queria escrever tratar, olha o ato falho, rs) na terapia esteja ligado à sua relação comigo. Acho muito difícil que a Sheila-psicóloga consiga olhar de forma imparcial para o paciente e para a Sheila-pessoa e ajudá-lo a resolver um problema entre os dois.Também acho difícil que o paciente, dentro do consultório, seja capaz de separar as coisas e me ver apenas como a Sheila-psicóloga que quer ajudá-lo e não como a Sheila-pessoa tentando puxar a sardinha para o lado dela.

Acho que esta situação não tinha me ocorrido porque acredito que alguém que me conhece não me procuraria em terapia para resolver um problema comigo, provavelmente esta pessoa me procuraria como amiga, fora do consultório. E teríamos uma conversa e não uma sessão de terapia.

Da mesma forma, quando meus filhos e meu marido conversam comigo sobre a minha relação com eles, eu não respondo como psicóloga, mas como mãe e esposa. Certamente a psicologia me ajuda a enxergar algumas coisas com mais clareza mas ela não me garante imparcialidade científica quando estou falando de mim mesma e da minha relação com eles. Mesmo que eu tentasse falar como psicóloga, acredito que a imparcialidade só seria possível se eu conseguisse não me deixar influenciar pelo amor que sinto por eles. E eu não quero ser essa pessoa.


sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Trate os outros como você gostaria de ser tratado. Será?

Já ouvi e já falei isso várias vezes. É uma daquelas frases que a gente acha bonita e sai repetindo.

Vamos pensar sobre ela?

Se eu trato o outro como eu gostaria de ser tratado eu estou assumindo que o outro gosta de ser tratado da mesma forma que eu gosto. Eu estou assumindo que o outro é parecido comigo e que gostamos das mesmas coisas. 

E isso não é verdade. A gente assume que é e não se dá conta do quanto esta suposição pode atrapalhar um relacionamento.

Algumas situações hipotéticas para ilustrar:

Eu passo um mês organizando uma super festa surpresa para um amigo, empolgadíssima. Quando o amigo é surpreendido ele não dá bola, não parece estar muito feliz. E eu fico chateada, achando ele um ingrato que não deu valor para uma festa que deu um trabalhão planejar. Eu iria adorar se tivessem feito isso para mim. EU iria adorar. EU. 
Ele é ele. Eu sou eu. Se eu exigir dele a mesma reação que eu teria, provavelmente vou me decepcionar. Da próxima vez, se eu quiser agradá-lo, talvez seja melhor tentar saber do que é que ele gosta tanto quanto eu gosto de festa surpresa.

Eu gosto de arrancar os cabelos brancos do meu namorado e ele não liga que eu o faça. Ele gosta de arrancar os meus cabelos brancos e eu odeio que ele o faça. Ele fica bravo comigo, não entende porque eu não deixo sendo que ele deixa. 
É importante que ele entenda que não somos a mesma pessoa. Ele não se incomoda, eu me incomodo. Se ele não quiser mais que eu faça isso, que me fale, da mesma forma que eu falo para ele que não gosto.

Eu pego uma blusa emprestada da minha irmã e ela fica uma fera. Eu não me importaria nem um pouco se ela pegasse uma roupa minha emprestada, não entendo porque ela ficou tão brava! 
Ela não quer emprestar as roupas dela para mim e talvez nem queira as minhas emprestadas. Ela não é igual a mim. 

Meu filho usa o computador da minha filha sem pedir. Quando ela vê, briga com ele. Eu falo para ele não fazer mais aquilo e, no intuito de fazê-lo entender o lado dela, pergunto para ele como ele se sentiria caso ela pegasse o computador dele sem pedir. Ele diz que não se importaria, que ela pode usar sempre que quiser. Eu não consigo "provar o meu ponto" e fico com cara de tacho.
A gente pode imaginar como se sentiria no lugar do outro para tentar entender como ele está se sentindo. E a gente pode perguntar para o outro como ele está se sentindo. A primeira nunca vai substituir a segunda.

Na dúvida, pergunte para o outro como ele gostaria de ser tratado e, se possível, trate-o de acordo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Crianças que falam "como adultos"

Hoje eu fiz um comentário bastante infeliz sobre este tema porque cometi o erro de começar a falar antes de estruturar melhor o que eu queria dizer. Fiquei mal porque sinto que magoei a pessoa com quem estava conversando. Deu vontade de escrever este texto para organizar as ideias e esclarecer para ela, e para mim, o que eu penso de fato.

Você já deve ter ouvido este tipo de comentário antes: "Nossa, a filha do Fulano fala como adulto. Umas palavras difíceis, um raciocínio elaborado, muito madura para a idade dela!"

É normal isso? É saudável para a criança? O que será que acontece na casa dela para ela ser assim? Será que ela só convive com adultos e não brinca com crianças da idade dela?

A princípio eu tinha pensado o seguinte, uma criança tem uma fala mais elaborada quando ela lida com situações difíceis. Quando o seu vocabulário "de criança" não dá conta de expressar o que ela quer, ela precisa ir buscar no "mundo dos adultos" palavras e expressões para verbalizar aquilo que ela precisa falar.

Mas me soou bem triste. Como se a criança que fala bem, usa palavras difíceis, fosse aquela que teve que dar um salto, abrir mão da infância, das brincadeiras, para correr atrás de recursos para lidar com algo que está além da sua capacidade e que não deveria ser preocupação dela. 

Não, pensando melhor, eu não acho que isso seja verdade.

Depois pensei, uma criança desenvolve uma fala mais elaborada quando ela tem contato com mais estímulos, mais desafios. Não necessariamente situações difíceis ou negativas, elas podem ser agradáveis também. Quando ela vivencia algo novo, diferente, ela sente a necessidade de buscar outras palavras e ideias para dar conta de expressar o que está experimentando. Sim, acho que este é um ponto, estímulos são importantes mas não acho que seja tudo.

Em seguida me ocorreu que a questão na verdade não está apenas relacionada ao ambiente dela e à necessidade de expressar-se sobre aquilo que vive, mas com a forma como a sua fala é recebida por quem convive com ela. Ou seja, se ela é ouvida e se dão valor e importância às suas ideias (sobre o que quer que seja, não importa!), é provável que ela continuará falando, contando histórias, compartilhando suas conclusões. E quanto mais o faz, mais recursos ela adquire para continuar fazendo. Mais vocabulário, construções mais complexas, raciocínio mais elaborado.

Resumindo, eu acredito que as crianças se comunicam melhor quanto têm a oportunidade de se expressar livremente, quando são encorajadas a fazê-lo, quando são ouvidas e percebem que aquilo que dizem tem valor e merece ser dito.

E complementando, eu não acho que o fato de conversar "como um adulto" vá impedir que ela continue brincando e se divertindo "como criança". Não acho que uma coisa exclua a outra. Em alguns momentos ela vai querer conversar (e ser levada a sério sobre o que diz) e em outros ela vai querer rolar no chão, fazer bolinhas de sabão e se divertir com histórias inventadas. E tudo bem.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Empatia

Terminei de assistir a primeira temporada de Sense8 e fiquei com vontade de escrever sobre empatia. Para quem não assistiu ainda, texto sem spoiler, ok?

A série conta a história de oito pessoas que se encontram conectadas entre si a ponto de sentirem exatamente o que o outro sente, apesar de todas as diferenças que os separam. 

É ficção científica, claro. Na vida real conseguimos no máximo imaginar como nos sentiríamos caso estivéssemos passando pela mesma situação que o outro, mas nunca vamos conseguir sentir o que ele sente de fato. Mesmo que eu já tenha passado por uma situação igualzinha nada me garante que o que eu senti é igual ao que ele sentiu.

Mas não é sobre isso que eu quero falar. Não sobre a capacidade de sentir empatia, mas sobre a disponibilidade interna para empatizar com o outro. Era algo que já vinha passando pela minha cabeça e um diálogo na série casou com o que eu estava pensando.

Dois personagens estão conversando, vou chamá-los de A e B. A está sofrendo com uma perda terrível enquanto B se encontra em uma situação de perigo, precisando da ajuda de A para sair dela. B explica que precisa da ajuda de A, fala do risco que estão correndo, mas A está sentindo uma dor tão grande que não consegue ouvi-lo. Até que B diz o seguinte:

“Eu sei o quanto isso dói. Sei que você quer deitar aqui e nunca mais levantar. Sei porque também sinto isso. Eu posso sentir isso.”

Eles se olham e choram. Em seguida B diz:

“Isso significa que de alguma forma em algum lugar você também sente o que estou sentindo.”

E então A consegue ouvi-lo e ajudá-lo.

Tudo acontece muito rápido. Na vida real dificilmente a situação se resolve assim com duas falas, mas resume bem como eu acredito que as coisas funcionem.

Na cena fica muito claro como é absurdo pedir para que alguém se sensibilize com o nosso problema quando este alguém sente uma dor devastadora. Chega a ser cruel pedir empatia com a nossa situação para uma pessoa que se encontra inundada pelos próprios sentimentos. A pessoa simplesmente não ouve. Não há disponibilidade interna para ouvir.

Nessas situações, se eu quiser de fato ter uma conversa saudável, antes de falar sobre os meus sentimentos talvez eu precise me deixar um pouco de lado, ouvir e acolher o que o outro tem a dizer.