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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Crianças que falam "como adultos"

Hoje eu fiz um comentário bastante infeliz sobre este tema porque cometi o erro de começar a falar antes de estruturar melhor o que eu queria dizer. Fiquei mal porque sinto que magoei a pessoa com quem estava conversando. Deu vontade de escrever este texto para organizar as ideias e esclarecer para ela, e para mim, o que eu penso de fato.

Você já deve ter ouvido este tipo de comentário antes: "Nossa, a filha do Fulano fala como adulto. Umas palavras difíceis, um raciocínio elaborado, muito madura para a idade dela!"

É normal isso? É saudável para a criança? O que será que acontece na casa dela para ela ser assim? Será que ela só convive com adultos e não brinca com crianças da idade dela?

A princípio eu tinha pensado o seguinte, uma criança tem uma fala mais elaborada quando ela lida com situações difíceis. Quando o seu vocabulário "de criança" não dá conta de expressar o que ela quer, ela precisa ir buscar no "mundo dos adultos" palavras e expressões para verbalizar aquilo que ela precisa falar.

Mas me soou bem triste. Como se a criança que fala bem, usa palavras difíceis, fosse aquela que teve que dar um salto, abrir mão da infância, das brincadeiras, para correr atrás de recursos para lidar com algo que está além da sua capacidade e que não deveria ser preocupação dela. 

Não, pensando melhor, eu não acho que isso seja verdade.

Depois pensei, uma criança desenvolve uma fala mais elaborada quando ela tem contato com mais estímulos, mais desafios. Não necessariamente situações difíceis ou negativas, elas podem ser agradáveis também. Quando ela vivencia algo novo, diferente, ela sente a necessidade de buscar outras palavras e ideias para dar conta de expressar o que está experimentando. Sim, acho que este é um ponto, estímulos são importantes mas não acho que seja tudo.

Em seguida me ocorreu que a questão na verdade não está apenas relacionada ao ambiente dela e à necessidade de expressar-se sobre aquilo que vive, mas com a forma como a sua fala é recebida por quem convive com ela. Ou seja, se ela é ouvida e se dão valor e importância às suas ideias (sobre o que quer que seja, não importa!), é provável que ela continuará falando, contando histórias, compartilhando suas conclusões. E quanto mais o faz, mais recursos ela adquire para continuar fazendo. Mais vocabulário, construções mais complexas, raciocínio mais elaborado.

Resumindo, eu acredito que as crianças se comunicam melhor quanto têm a oportunidade de se expressar livremente, quando são encorajadas a fazê-lo, quando são ouvidas e percebem que aquilo que dizem tem valor e merece ser dito.

E complementando, eu não acho que o fato de conversar "como um adulto" vá impedir que ela continue brincando e se divertindo "como criança". Não acho que uma coisa exclua a outra. Em alguns momentos ela vai querer conversar (e ser levada a sério sobre o que diz) e em outros ela vai querer rolar no chão, fazer bolinhas de sabão e se divertir com histórias inventadas. E tudo bem.

2 comentários:

  1. Acho ótimo termos condições de acolher e estimular as demandas e necessidades das crianças, sejam elas quais forem. Isso diminui a sensação de inconformidade que ela sente com o meio em que vive. O que vc falou é o retrato da minha infância. Sofri muito bullying por ser "nerd" e "cdf" que retraí isso dentro de mim até que finalmente tomei "coragem" de ser quem eu era. Isso afastou muita gente de mim (quantitativamente), mas me atraiu uma porção de outras (qualitativamente). Para alguns isso é fácil, para outros, como eu, significa ter que lidar com várias questões relativas a reconhecimento, apego, etc. Parabéns pela reflexão.

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    1. "até que finalmente tomei "coragem" de ser quem eu era"
      Que lindo isso! É tão bom, né?

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