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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Uma Análise Qualitativa Fenomenológica de Cartas de Suicidas

[Artigo científico escrito em 2012 e apresentado no 12o. Congresso Nacional de Iniciação Científica.]

Resumo

Este trabalho teve como objetivo identificar e compreender os sentimentos presentes nas cartas de pessoas que cometeram suicídio, fazendo uma reflexão que venha a contribuir para a elaboração de estratégias de prevenção. Como metodologia foi utilizada a análise qualitativa fenomenológica, adotando-se a análise de conteúdo para a identificação das unidades de significado durante a leitura das cartas. A compreensão do fenômeno mostrou que o indivíduo que comete suicídio manifesta sentimentos de rejeição, traição, vazio, falta de escuta e acolhimento, inadequação, cansaço, frustração, derrota e a esperança de uma vida melhor em outro plano. Este resultado é confirmado por outros pesquisadores do tema em livros e artigos científicos. Pode-se concluir que, além do trabalho de profissionais da área da saúde, é de extrema importância a criação de campanhas públicas para a conscientização da população para a identificação dos sentimentos comuns nesta situação de risco e a orientação sobre como lidar com os indivíduos de forma a ajudá-los. Apesar de se tratar de um problema de saúde pública, o tema continua sendo um tabu, o que dificulta o trabalho de prevenção.

Palavras-Chave: suicídio; cartas de suicidas; fenomenologia; análise qualitativa.

1. Introdução

“Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia” (CAMUS, 1942, p.17).

O suicídio acontece desde os primórdios da vida humana, apresentando diferentes funções e significados nas diferentes culturas e momentos históricos (PALHARES e BAHLS, 2003).

Na Grécia Antiga, quem desejasse se matar deveria apresentar seus motivos perante o Senado. Caso autorizado, o interessado recebia veneno para consumar o ato. Em alguns casos, o próprio Senado induzia o indivíduo ao suicídio, como aconteceu com Sócrates, condenado a ingerir cicuta (PALHARES e BAHLS, 2003). Se o indivíduo cometesse o ato sem autorização, eram-lhe negadas as honras de sepultamento e sua mão era decepada e enterrada à parte (SILVA, 1992).

Na Idade Média o suicídio era condenado teologicamente, pois matar-se era um atentado contra a propriedade de Deus, criador do homem e o único com direito de tirar sua vida. Os mortos por suicídio eram comparados a ladrões e assassinos, não tinham direito a rituais religiosos de sepultamento e seus herdeiros não recebiam seus bens materiais (SILVA, 1992).

Para os vikings, uma morte violenta (em batalha ou através de suicídio) era a garantia de entrada no paraíso e de participação em um banquete com Odin, o deus supremo. Em sociedades primitivas de Uganda, uma mãe deveria se matar caso um de seus filhos morresse (assim como as mulheres hindus, após a morte do marido). Na China antiga, alguns guerreiros cometiam suicídio antes de uma batalha com o intuito de que seus espíritos furiosos auxiliassem o grupo durante a luta (PALHARES e BAHLS, 2003).

Atualmente o suicídio é considerado um problema de saúde pública (TURECKI, 1999). A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo (OMS, 2012) e estima-se que para cada suicídio ocorram 10 tentativas não consumadas (BOTEGA et al, 2006).

De acordo com o Ministério da Saúde (2006), no Brasil as taxas de suicídio variaram de 3,9 a 4,5 para cada 100 mil habitantes a cada ano, entre 1994 e 2004. Apesar de ser uma taxa relativamente baixa, para determinadas faixas etárias e regiões do país as taxas de suicídio já podem ser consideradas elevadas segundo os critérios da OMS, além de apresentar uma tendência de ascensão neste período.

“Na faixa etária entre 15 e 35 anos, o suicídio está entre as três maiores causas de morte. (...) Para cada suicídio há, em média, 5 ou 6 pessoas próximas ao falecido que sofrem consequências emocionais, sociais e econômicas” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006, p.7).

As tentativas de suicídio são a segunda maior causa de internação da população de 10 a 19 anos do sexo feminino na rede do SUS – Sistema Único de Saúde (BENINCASA e REZENDE, 2006).

De acordo com Botega et al (2006), dois terços dos indivíduos que cometem suicídio comunicam claramente a pessoas próximas sua intenção uma semana antes de fazê-lo.

Uma ampliação do conhecimento sobre os sentimentos presentes no momento do suicídio auxilia na compreensão empática de pessoas em situação de risco. A redução da taxa de suicídios contribui para a diminuição do ônus financeiro deste comportamento além de reduzir o impacto traumático que a experiência do suicídio causa na família e no grupo social do qual o indivíduo faz parte.

Na próxima seção são apresentados os objetivos deste trabalho. A metodologia utilizada na realização da pesquisa é apresentada na seção 3. A leitura das cartas, identificação de unidades de significado e compreensão do fenômeno estão agrupados na seção 4, intitulada de desenvolvimento. A seção 5 apresenta como resultado das análises uma sugestão para a prevenção do suicídio. Por fim, na seção 6, são feitas considerações finais.

2. Objetivo

Este trabalho teve como objetivo identificar e compreender os sentimentos presentes na carta de pessoas que cometeram suicídio, contribuindo para a exploração e ampliação do conhecimento sobre este tema e consequentemente auxiliando na reflexão e elaboração de estratégias de prevenção do suicídio.

3. Metodologia

Amatuzzi (2009) entende a fenomenologia proposta por Husserl como um modo de pensar, uma maneira de se fazer filosofia em que o sujeito considera a experiência em si mesma, independente de preconceitos e juízos de valor.

Este estudo foi realizado seguindo-se os passos propostos por Amatuzzi (2009) para uma pesquisa qualitativa fenomenológica:

•       delimitação do objeto de estudo e definição do tipo de olhar direcionado a este objeto;
•       encontro com o fenômeno (acesso à experiência vivida);
•       análise do material coletado;
•       busca de unidades de significado e conexões;
•       produção de um texto com a síntese das análises;
•       compreensão do fenômeno;
•       diálogo com a comunidade científica.

A identificação das unidades de significado foi feita através da análise de conteúdo, uma estratégia para a organização de informações bastante utilizada em pesquisa qualitativa. Baseia-se na leitura flutuante (atenção uniforme a tudo o que é lido, sem dirigir a observação para algo específico); na capacidade intuitiva do pesquisador para compreender e interpretar (raciocínio indutivo e dedutivo) e na categorização por relevância (CAMPOS e TURATO, 2009).

4. Desemvolvimento

O fenômeno pesquisado foi delimitado pela seguinte pergunta: Quais os sentimentos presentes em cartas de suicidas?

O encontro com o fenômeno se deu através da leitura de 16 cartas de suicidas que se encontram agrupadas na dissertação de mestrado “Suicídio – Tramas da Comunicação” (SILVA, 1992). O autor da dissertação realizou suas análises buscando identificar as representações sociais do gesto suicida, neste estudo o olhar foi direcionado para a identificação e compreensão dos sentimentos manifestados nas cartas.

4.1.    Identificação de unidades de significado

Durante a leitura das cartas, foram grifados os trechos que manifestavam emoções, pensamentos e sentimentos. Em seguida, os trechos foram lidos novamente e foi feita uma primeira identificação dos sentimentos manifestados. Os conteúdos semelhantes nas diferentes cartas foram comparados e categorizados em unidades de significado comuns.

A seguir são apresentados os sentimentos encontrados durante o desenvolvimento desta pesquisa, agrupados em unidades de significado, e as transcrições de alguns trechos das cartas que permitiram a identificação destes sentimentos.

Rejeição:
 “Se tomei esta iniciativa foi simplesmente pelo fato de saber que nunca mais o teria de volta” (Silva, 1992, p.54)

Traição:
“porque você fingiu, porque você mentiu para mim este tempo todo" (Silva, 1992, p.53)
“estou morrendo aos pouco [sic] desde o dia que encontrei aquela mulher com ele no carro." (Silva, 1992, p.58)

Vazio:
“não encontrei mais nenhuma existência para mim.” (Silva, 1992, p.54)
“trabalhar e estudar não foram suficientes para mim. E foi tudo o que me restou. Prefiro morrer do que viver com a morte dentro de mim.” (Silva, 1992, p.56)

Falta de escuta e acolhimento:
“Eu precisava tanto falar contigo, pena, você não deixou (...) Você não quiz [sic] me ouvir.” (Silva, 1992, p.54)
“A criança crescida quer voltar para lhe contar seus sofrimentos, desilusões, a morte de suas esperanças... para encontrar novamente o aconchego (...) onde poderá descansar sua cabeça cansada e abatida e onde poderá, enfim, chorar as suas lágrimas que não encontram onde chorar.” (Silva, 1992, p.56)

Inadequação:
“Mãe - eu não quero ser mais uma ovelha desse sistema (me faça um favor de me enterrar como estou)” (Silva, 1992, p.59)
“Faço isso pensando em mim, pois assim finalmente descanso. Faço isso pensando nos outros, pois assim paro de perturbar os outros. Assim creio agradar gregos e troianos” (Silva, 1992, p.60)
“Tentei transmitir amor, paz, compreensão, amizade, para um mundo que já se esqueceu de tudo isso (...) tento passar para um outro plano, talvez um lugar em que eu me encontre e não me sinta tão deslocado” (Silva, 1992, p.63)

Cansaço:
“Estou cansada” (Silva, 1992, p.57)
“é uma decisão minha para meu descanso eterno, é meu desejo.” (Silva, 1992, p.59)
“assim finalmente descanso” (Silva, 1992, p.60)

Frustração e derrota:
“Volto derrotada porque não fui capaz de viver” (Silva, 1992, p.56)
“Não sou um vencedor como você disse, pois minha única vitória é sua felicidade” (Silva, 1992, p.60)
“não consigo tocar mais a vida” (Silva, 1992, p.66)

Dor:
“está sendo duro resistir esta dor tão grande” (Silva, 1992, p.53)

Esperança de uma vida em outro plano:
“Sou como você mesmo disse, um espírito em evolução necessitando de tudo isso. Ao seu lado, estou certo que caminharei paralelamente à vida” (Silva, 1992, p.62)
“não acho que desapareci e sim tento passar para um outro plano” (Silva, 1992, p.63)

Outros:
Foram identificados outros sentimentos decorrentes da decisão de colocar fim à própria vida como preocupação com o destino dos bens materiais, culpa por ter decidido se matar, necessidade de justificar o ato suicida e preocupação em avisar as pessoas próximas sobre a própria morte.

4.2.    Compreensão do fenômeno

Com base na análise das cartas pode-se compreender que o indivíduo que comete suicídio sente-se rejeitado, não encontrando escuta e acolhimento por parte das outras pessoas. Há sentimentos de traição, vazio, frustração, derrota e dor. Ele também se diz cansado da vida e inadequado com relação ao meio em que vive, podendo haver a esperança de uma vida melhor em outro plano.

A comunidade científica relata sentimentos semelhantes ou complementares ao que foi identificado neste estudo, conforme referências que seguem.

Silva (2006) destaca a presença de sentimentos de desesperança, solidão e fadiga nos indivíduos com ideação suicida. Botega et al (2006) também chamam a atenção para os sentimentos de solidão e desesperança. Souza et al (2010) identificaram em uma pesquisa com adolescentes entre 12 e 18 anos que o planejamento suicida está relacionado aos sentimentos de tristeza e solidão.

Cremasco e Brunhari (2009), a partir de entrevistas com pessoas que tentaram o suicídio, identificaram sentimentos de raiva, tristeza, sofrimento e necessidade de escuta.

O Ministério da Saúde (2006) em seu manual de prevenção do suicídio dirigido aos profissionais das equipes de saúde mental, refere-se aos sentimentos dos indivíduos que pensam em se matar como os 4D´s: depressão, desesperança, desamparo e desespero.

5. Resultados

Pelo que foi exposto até o momento pode-se perceber que os sentimentos identificados nas cartas analisadas neste estudo já são do conhecimento dos pesquisadores do tema suicídio. Antes de partir para a sugestão de ações de prevenção é interessante analisar qual a estratégia de prevenção em prática no momento em nosso país baseada neste conhecimento adquirido.

O Portal da Saúde (s.d.) cita entre as ações da estratégia nacional para prevenção do suicídio: criação de um grupo de trabalho com representantes do Ministério da Saúde, Universidades e organizações civis; publicação das Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio; criação da logomarca Amigos da Vida; realização do I Seminário Nacional de Prevenção do Suicídio; lançamento do Projeto ComViver  de acompanhamento para parentes de pessoas que cometeram suicídio e lançamento do Manual de Prevenção do Suicídio para Profissionais das Equipes de Saúde Mental.

Além de listar as ações, o Portal da Saúde (s.d.) também disponibiliza algumas publicações da Organização Mundial da Saúde para a prevenção do suicídio voltada para agentes prisionais, atenção básica, médicos clínicos gerais, imprensa, profissionais do ensino médio e fundamental, grupos de sobreviventes, profissionais de aconselhamento e ambiente de trabalho – todas em inglês.

Uma pesquisa no Google (www.google.com.br) com a expressão “prevenção do suicídio”, leva a alguns sites do ministério da saúde e de universidades com informações sobre a estratégia nacional de prevenção do suicídio, manual dirigido aos profissionais da área da saúde mental e listas de publicações acadêmicas sobre o tema.

Não foi encontrado um site de um órgão público com informações dirigidas à população e suas possibilidades de colaboração para a prevenção. Entretanto, “dos que morrem por suicídio, 50-60%, nunca consultaram com um profissional de saúde mental ao longo da vida” (BOTEGA et al, 2006, 214).

Uma pesquisa similar com a expressão “prevenção da dengue” leva a uma infinidade de sites do ministério da saúde, secretarias de saúde de vários estados, prefeituras e outros órgãos públicos. Uma das primeiras referências apresentadas pelo Google é o site http://www.combateadengue.com.br, que reúne informações sobre os sintomas da dengue, forma de transmissão, diagnóstico, tratamento e ações simples a serem colocadas em prática pela população, com o objetivo de prevenir a doença ou identificá-la em seu estágio inicial. Tudo isso em linguagem acessível e formato de fácil acesso.

Ebraico (2004) explica que diferentemente do que acontece com a saúde física, que vem divulgando informações relevantes para a população, na saúde mental o conhecimento continua à margem do conhecimento público.

Como já foi dito anteriormente, a taxa de suicídio no Brasil variou entre 3,9 e 4,5 para cada 100 mil habitantes a cada ano, de 1994 a 2004 (Ministério da Saúde, 2006), ou seja, considerando a população atual de 190 milhões de habitantes (IBGE, 2010), a cada ano temos mais de 7.400 mortes por suicídio no país. Em 2010, ano em que o Brasil viveu uma das quatro grandes epidemias de dengue, houve o registro de 656 óbitos por casos graves da doença (Portal da Saúde, 2012).

 “Para que a ciência seja de real utilidade pública, suas descobertas não devem ficar apenas ao alcance de profissionais” (EBRAICO, 2004, p. 13).

As informações já existem, mas aparentemente encontram-se reservadas a uma parcela da população ou escondidas atrás de links que levam a manuais e documentos extensos. Falta um trabalho que proporcione maior acesso, visibilidade e discussão sobre o assunto.

Uma possível ação para a prevenção do suicídio seria a criação de uma campanha pública nos mesmos moldes do que é feito com a dengue e a tuberculose, envolvendo e conscientizando a população através da colocação de cartazes informativos nos postos de saúde, propagandas na TV e no rádio, criação de uma página específica na internet.

Este material informativo conteria informações sobre os sinais que indicam risco de suicídio, auxiliando parentes e amigos a identificá-los. As pessoas sob o risco de suicídio, em geral, apresentam três características principais: ambivalência (querem morrer e ao mesmo tempo viver), impulsividade (agem sem pensar) e rigidez (a solução para os problemas é baseada no “tudo ou nada”, sem enxergar outras opções disponíveis). Algumas frases comuns da pessoa em risco de suicídio são: “Eu preferia estar morto”,“Eu não posso fazer nada”,“Eu não aguento mais”, “Eu sou um perdedor e um peso pros outros”, “Os outros vão ser mais felizes sem mim” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006, p.53).

Outra informação importante diz respeito aos sentimentos comuns nestas situações, já citados neste estudo no item “Compreensão do fenômeno”.

Seria interessante divulgar também qual a forma adequada de conversar com as pessoas sob risco de suicídio, o que ajuda e o que agrava a situação.

A melhor maneira de lidar com o indivíduo é ouvindo-o com atenção, compreendendo seus sentimentos e respeitando suas opiniões e valores. Não diminuir o problema da pessoa, nem dizer simplesmente que tudo vai ficar bem. Não fazer julgamentos morais (o que é certo e o que é errado) sobre o ato suicida (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006).

Por fim, seria importante derrubar alguns mitos.

Perguntar sobre suicídio induz a pessoa ao suicídio. Falso! Conversar sobre as idéias suicidas de maneira acolhedora ajuda o paciente a sentir-se ouvido e compreendido. A melhor maneira de saber se a pessoa tem pensamentos suicidas é perguntar para ela (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006).

Quem quer se matar não avisa. Falso! Dois terços das pessoas que cometem suicídio avisam claramente pessoas próximas (BOTEGA et al, 2006).

Para prevenir o suicídio é essencial que se fale sobre suicídio.

6. Considerações finais

Apesar de se tratar de um problema de saúde pública, pode-se perceber com o que foi relatado neste estudo que o tema suicídio continua sendo um tabu.

Não se fala abertamente sobre o assunto. E não se falar sobre suicídio contribui justamente para a falta de escuta constatada nas cartas, sentimento manifestado por indivíduos que cometeram suicídio.

A partir desta pesquisa foi possível notar que o conhecimento adquirido é de difícil acesso àqueles que não dominam a linguagem científica dos acadêmicos e não fazem parte de grupos, instituições e órgãos públicos que se ocupam da saúde mental.

Fica a impressão de que a prevenção só pode partir de especialistas, as informações só podem ser compartilhadas em um ambiente planejado e controlado por quem entende do assunto e direcionadas a um público específico. E onde faltam informações confiáveis brotam especulações e mitos.

Com a melhor das intenções familiares e amigos tentam lidar com o sofrimento do outro, mas podem adotar uma abordagem que não apenas não ajuda como agrava a situação do indivíduo.

É interessante ressaltar também que o suicídio é o desfecho para um sofrimento psíquico extremo. Antes de chegar a este nível o sujeito acumula em seu dia-a-dia gotinhas de rejeição, vazio, solidão, falta de escuta, que com o passar do tempo fazem o copo transbordar.

O trabalho de lidar com o mal psíquico em suas formas menos graves também não deve ficar restrito aos consultórios. Alterações de humor, ansiedade, depressão, stress, compulsões e fobias também precisam de escuta e acolhimento.

São comuns os relatos de psicólogos sobre atendimentos em que o simples fato de se sentir ouvido era terapêutico para o paciente. Já passou da hora de ensinar as pessoas a ouvir.


Referências

AMATUZZI, Mauro Martins. Psicologia fenomenológica: uma aproximação teórica humanista. Campinas, 2009. Disponível em: . Acesso em: 8 Out. 2011.

BENINCASA, Miria; REZENDE, Manuel Morgado. Tristeza e suicídio entre adolescentes: fatores de risco e proteção. Boletim de Psicologia, São Paulo, v. 56,  n. 124, jun.  2006 .   Disponível em: . Acesso em:  03 Mai. 2012.

BOTEGA, Neury José; WERLANG, Blanca Susana Guevara; CAIS, Carlos Filinto da Silva; MACEDO, Mônica Medeiros Kother. Prevenção do Comportamento Suicida. Psico, Porto Alegre, v. 37, n. 3, pp. 213-220, set./dez. 2006. Disponível em: < http://revistaseletronicas.pucrs.br/revistapsico/ojs/index.php/revistapsico/article/viewFile/1442/1130 >. Acesso em: 01 Mar. 2012.

CAMPOS, Claudinei José Gomes Campos; TURATO, Egberto Ribeiro. Análise de conteúdo em pesquisas que utilizam metodologia clínico-qualitativa: aplicação e perspectivas. Rev Latino-am Enfermagem, 2009, março-abril; 17(2). Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/rlae/v17n2/pt_19.pdf>. Acesso em: 25 Mai. 2012.

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. 1942. 8ª. edição. Rio de Janeiro: Record, 2010.

CREMASCO, Maria Virgínia; BRUNHARI, Marcos Vinícius. Da angústia ao suicídio. Rev. Mal-Estar Subj.,  Fortaleza,  v. 9,  n. 3, set.  2009 .   Disponível em . acessos em  16  set.  2012.

EBRAICO, Luís César. A Nova Conversa. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
COMBATE À DENGUE. Disponível em: . Acesso em: 29 Set. 2012.        

IBGE. Censo 2010: população do Brasil é de 190.732.694 pessoas. 2010. Disponível em:< http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1766 >. Acesso em: 27 Ago. 2012.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Prevenção do Suicídio - Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. Brasil, 2006. Disponível em: < http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_editoracao.pdf>. Acesso em: 8 Out. 2011.

OMS. Suicide Prevention (SUPRE). 2012. Disponível em: < http://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/suicideprevent/en/>. Acesso em: 01 Mar. 2012.

PALHARES, Patrícia Almeida e BAHLS, Saint-Claire. O suicídio nas civilizações: uma retomada histórica. Revista Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal, n. 84-85, mar. 2003.

PORTAL DA SAÚDE. Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio. s.d.. Disponível em:< http://portal.saude.gov.br/portal/saude/cidadao/visualizar_texto.cfm?idtxt=25605>. Acesso em: 16 Set. 2012.

___________________ Óbitos por casos graves de dengue. 2012. Disponível em:< http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/obitos_por_dengue_1990_2011_21_06_12.pdf>. Acesso em: 27 Ago. 2012.

SILVA, Marcimedes Martins da. Suicídio – Tramas da Comunicação. São Paulo, 1992. Disponível em< http://www.i9ensino.com/livros/doc_view/641-trabalho-suicidio-o-trama-da-comunicacao.html>. Acesso em: 8 Out. 2011.

SILVA, Viviane Franco da. Ideação suicida: Um estudo de caso-controle na comunidade. Campinas, 2006. Disponível em:< http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000396556&fd=y>. Acesso em: 09 Set. 2012.

SOUZA, Luciano Dias de Mattos; ORES, Liliane; OLIVEIRA, Gabriela Teixeira de; CRUZEIRO, Ana Laura Sica; SILVA, Ricardo Azevedo; PINHEIRO, Ricardo Tavares; HORTA, Bernardo Lessa. Ideação suicida na adolescência: prevalência e fatores associados. J. bras. psiquiatr.,  Rio de Janeiro,  v. 59,  n. 4,   2010 .   Disponível em: . Acesso em: 16 Set. 2012.

TURECKI, Gustavo. O suicídio e sua relação com o comportamento impulsivo-agressivo. Revista Brasileira de Psiquiatria,  São Paulo,  1999 .   Disponível em: Acesso em:  10  Fev.  2012.

Análise comparativa entre livros de autoajuda e livros de psicologia

[Artigo científico escrito em 2013 e apresentado no 13o. Congresso Nacional de Iniciação Científica.]

Resumo

Nos últimos anos os livros de autoajuda conquistaram prateleiras exclusivas nas livrarias e uma categoria específica nas listas de livros mais vendidos. As respostas que a população busca nestes livros referem-se a problemas que permeiam o campo de estudo da psicologia. Neste estudo foi realizada uma análise comparativa entre livros de autoajuda e livros de psicologia, com o objetivo de compreender os motivos que levam a população a buscar orientação para problemas de ordem psicológica em um livro de autoajuda e avaliar o alinhamento das informações transmitidas por estes livros com a dos livros de psicologia, contribuindo, desta forma, para a divulgação do conhecimento científico conforme prega o código de ética profissional do psicólogo. Para isso foram analisados seis livros: três de autoajuda e três de psicologia, utilizando como metodologia a análise de conteúdo. Perceberam-se diferenças significativas entre os livros no que diz respeito à base epistemológica, a como lidar com pensamentos e sentimentos, como comunicar-se e como agir. Apesar de os livros de psicologia basearem-se no conhecimento científico e apresentarem um caminho para o autoconhecimento e a autonomia, a simplicidade da autoajuda parece ser mais atraente para grande parte dos leitores.

Palavras-Chave: análise comparativa, psicologia, autoajuda.

1. Introdução

A Câmara Brasileira do Livro registrou em 2001 um crescimento de 700% na venda de livros de autoajuda a partir de 1994, enquanto o crescimento na venda de livros em geral foi de 35% no mesmo período (AGUIAR, 2009).

Os livros de autoajuda tratam de questões como o luto, a rejeição, as frustrações, os conflitos familiares, a dificuldade em lidar com os próprios defeitos e os dos outros, o medo de envelhecer, o medo da morte e os questionamentos sobre o sentido da existência humana (BOSCOV e ROGAR, 2009) – todos temas que fazem parte do escopo de atuação do psicólogo.

Este panorama faz pensar nos motivos que levam a população a buscar orientação para os problemas de ordem psicológica em um livro de autoajuda e não em um livro de psicologia.
O Código de Ética Profissional do Psicólogo estabelece entre seus princípios fundamentais que “o psicólogo contribuirá para promover a universalização do acesso da população às informações, ao conhecimento da ciência psicológica, aos serviços e aos padrões éticos da profissão” (CRP-SP, 2012).

Analisar a qualidade das informações divulgadas atualmente pelos livros de autoajuda em comparação com a produção científica na área da psicologia é uma maneira de reforçar o papel social do psicólogo.

2. Objetivo

Este trabalho teve como objetivo compreender os motivos que levam a população a buscar orientação para os problemas de ordem psicológica em um livro de autoajuda e avaliar o alinhamento das informações transmitidas por estes livros com o conhecimento científico, contribuindo para a promoção do acesso da população aos conhecimentos da ciência psicológica, um dos princípios fundamentais do código de ética do psicólogo.

3. Metodologia

A pesquisa foi desenvolvida de forma qualitativa, utilizando como metodologia a análise de conteúdo (AC).

A AC surgiu nos Estados Unidos no século XX com o objetivo de analisar o conteúdo dos jornais. A partir da década de 1940, estendeu-se para várias áreas do conhecimento (CAREGNATO e MUTTI, 2006), sendo, atualmente, uma das metodologias de pesquisa mais utilizadas em ciências da saúde, enfermagem e psicologia (CASTRO, ABS e SARRIERA, 2011).

Para Bardin (2011) – principal referência da AC na atualidade – a análise de conteúdo consiste em um conjunto de técnicas baseadas na dedução (ou inferência).
No desenvolvimento do estudo foram utilizados os passos propostos por Bardin (2011): 1) pré-análise: escolha do material a ser analisado, leitura do material e definição de critérios de categorização; 2) exploração do material: categorização das informações; 3) tratamento dos resultados: síntese das informações obtidas, inferência e interpretação.

4. Desenvolvimento

Na categoria autoajuda foram escolhidos livros que apareceram na lista de mais vendidos do site Publishnews (2012) no período de janeiro a outubro de 2012. Foram excluídos aqueles voltados estritamente às questões financeiras, profissionais, dietas alimentares, religiosos e esotéricos. Livros selecionados: O Segredo de Rhonda Byrne (2002); Casamento blindado: o seu casamento à prova de divórcio de Renato Cardoso e Cristiane Cardoso (2012) e O que realmente importa? de Anderson Cavalcante (2012).

Os livros de psicologia foram escolhidos entre aqueles escritos por psicólogos e direcionados à população não especializada no assunto. Para que as comparações fossem abrangentes foi selecionado um livro de cada linha teórica da psicologia. Livros selecionados: A nova conversa do psicanalista Luís César Ebraico (2004); Um jeito de ser do psicólogo humanista Carl Rogers (1987) e Terapia cognitivo-comportamental para leigos dos terapeutas cognitivo-comportamentais Rhena Branch e Rob Willson (2011).

Após a leitura dos livros definiu-se um critério de categorização semântico. As informações foram classificadas nas seguintes categorias: base epistemológica (em que se baseou o autor para escrever o livro), pensamento (o que o autor diz sobre os pensamentos, o que pensar, o que fazer com os pensamentos), sentimento (o que o autor diz sobre os sentimentos, o que sentir, o que fazer com os sentimentos), comunicação (o que o autor diz sobre as comunicações, como comunicar-se com os outros, o que se deve comunicar) e ação (o que o autor diz sobre as ações, como se deve agir).

A seguir é apresentada uma síntese das informações categorizadas.

4.1.       Base Epistemológica
Em O Segredo, a autora diz que seu primeiro contato com o conhecimento que ela compartilha veio através de um livro centenário que ganhou de sua filha – o nome do livro não é citado – e de encontros com mestres que lhe forneceram depoimentos e contaram suas experiências de vida. Ela chama este conhecimento adquirido de lei da atração (BYRNE, 2002).

Os autores de Casamento Blindado explicam que o conteúdo transmitido no livro baseia-se em: experiências pessoais do casamento (Renato é casado com Cristiane), anos de aconselhamento de casais e no “uso da inteligência espiritual” (CARDOSO e CARDOSO, 2012, p. 18). Ao longo do livro os autores também fazem menção de alguns conceitos de administração de empresas e de religião.

Em O que realmente importa? (CAVALCANTE, 2012), o autor não fala explicitamente sobre a fonte de seu conhecimento, mas para embasar suas ideias ele cita experiências pessoais, trechos de livros de autores diversos, parábolas religiosas, conversas com amigos e observações que fez de situações do dia a dia. Em alguns trechos ele utiliza conceitos de antroposofia, fundamentos de gestão de pessoas, ferramentas de gerenciamento de projetos e técnicas de controle de qualidade de produtos.

O livro A nova conversa tem como bases a psicanálise freudiana e a experiência prática do autor em trinta e cinco anos de atendimento em psicologia clínica (EBRAICO, 2004).

Um jeito de ser baseia-se na abordagem centrada na pessoa (ACP), um conjunto de atitudes psicológicas facilitadoras identificadas pelo autor ao longo de sua atuação como psicoterapeuta (ROGERS, 1987).

Terapia cognitivo-comportamental para leigos, como o próprio nome indica, tem como base o comportamentalismo ou behaviorismo.

4.2.       Pensamento
Byrne (2002) de O Segredo entende que você atrai para a sua vida aquilo em que você mais pensa. “Seus pensamentos se transformam em coisas” (p. 20).

Tendo como base esta ideia, a autora sugere que os pensamentos negativos sejam reprimidos: “Decida agora ter apenas bons pensamentos, e, declare para o Universo que todos os seus pensamentos positivos são poderosos e que quaisquer pensamentos negativos são fracos” (p. 19).

Cardoso e Cardoso (2012) de Casamentos Blindados não falam sobre o que se deve pensar, mas defendem que a razão seja colocada no controle das emoções.

Em O que realmente importa?, Cavalcante (2012), assim como Byrne (2002), sugere que o leitor “livre-se de todos os pensamentos restritivos e limitadores” (CAVALCANTE, 2012, p. 52).

Em seu livro A nova conversa, Ebraico (2004) discorda de Byrne (2002) e Cavalcante (2012) e explica que “a experiência clínica, aliás, demonstra que simplesmente ‘deixar vir’ um pensamento – sem desejá-lo ou crer vivamente em sua ocorrência – é, bem ao contrário, uma das melhores garantias contra sua concretização.” (p. 80, grifos do autor). Ele faz uma ressalva dizendo que apenas em alguns casos raros é necessária cautela ao facilitar o acesso dos conteúdos mentais à consciência: pessoas que não tenham capacidade para se conter e transformem imediatamente o pensamento em ação.

Ebraico (2004) defende também que a racionalidade saudável “resulta da integração, entre outras coisas, do pensamento com o afeto” (p. 103).

Rogers (1987) condena qualquer tipo de manipulação ou julgamento dos pensamentos. Para ele, quando as pessoas “são aceitas como são, revelam-se muito criativas e plenas de recursos para examinar e transformar suas próprias vidas.” (p. 80).

Branch e Willson (2011) classificam alguns pensamentos como negativos ou distorcidos. Para os autores, trata-se de “falhas de pensamentos” que devem ser identificadas através de evidências (observação objetiva dos fatos, conversas com outras pessoas) e deixadas de lado (p. 19).

4.3.   Sentimento
Para Byrne (2002) os sentimentos são sinais que indicam o tipo de pensamento que a pessoa está tendo naquele momento. Caso esteja se sentindo mal, ela deve mudar o pensamento para algo que a faça sentir-se bem.

 “A coisa mais importante que você deve saber é que é impossível sentir-se mal e, ao mesmo tempo, ter bons pensamentos. Isso desafiaria a lei, porque seus pensamentos produzem seus sentimentos.” (BYRNE, 2002, p. 23).

Cardoso e Cardoso (2012) analisam o papel dos sentimentos em uma briga conjugal: “sentimento não é ferramenta para resolver problemas” (p. 63). Para os autores, os cônjuges devem ignorar o sentimento e colocar o foco na ação. “Focando no problema e tirando a emoção – assim as empresas sobrevivem e prosperam; assim seu casamento também poderá vencer todos os desafios.” (p. 67).

Cavalcante (2012) sugere que o leitor faça de tudo para prolongar os sentimentos de plenitude e de amor, que controle o medo e que não se permita ficar chateado, estressado, ansioso ou triste por motivos que não valham a pena.

Para Ebraico (2004), todo e qualquer sentimento deve ter livre acesso à consciência. Ele explica que sentimentos reprimidos podem dar origem a problemas de ordem psicológica: traumas, fixações e sintomas neuróticos.

Rogers (1987) defende o auto respeito e auto aceitação tanto dos pensamentos quanto dos sentimentos, assim como a integração de ambos. Para ele “quando uma pessoa está funcionando plenamente, não há barreiras, inibições que impeçam a vivência integral do que quer que esteja presente no organismo.” (p. 65).

Branch e Willson (2011) reconhecem que é natural sentir-se mal quando coisas ruins acontecem, mas recomendam que a pessoa não piore a situação encontrando mais motivos para continuar com os sentimentos prejudiciais. Eles concordam com Byrne (2002) quando dizem que:

“Quanto mais negativo for o significado que você dá a um episódio, mais negativo você vai se sentir, e provavelmente você vai acabar agindo de um jeito que vai manter esse sentimento. Quando você se sente negativo, você fica mais propenso a criar pensamentos negativos. (...) Essa é só uma das razões pelas quais você deve se livrar rapidinho dos seus pensamentos negativos.” (BRANCH e WILLSON, 2011, p. 40).

4.4.       Comunicação
Byrne (2002) defende uma comunicação em que apenas conteúdos positivos sejam verbalizados e acolhidos:

“Se você se queixar, a lei da atração trará para a sua vida mais situações sobre as quais se queixar. Se você ouve a queixa de outra pessoa e se concentra naquilo, se solidariza com a pessoa, concorda com ela, naquele momento você está atraindo para si mais situações sobre as quais se queixar.” (p. 16).

Para Cardoso e Cardoso (2012), quando surge um problema no casamento, na primeira oportunidade o casal deve se reunir e iniciar a comunicação sobre o assunto. E destacam a importância da escuta para “colher informações, deixando a pessoa bem livre para se expressar” (p. 71).

Cavalcante (2012) sugere que os leitores não deixem as irritações se acumularem e que sempre falem sobre o que incomoda, ficando atento à maneira de falar. Mas em outro trecho se contradiz: “Em vez de reclamar de algo que não vai bem, agradeça pelo que vai bem. Não fique reclamando da vida!” (p. 127).

Ebraico (2004) defende que há um tipo de comunicação mais adequada para a promoção da saúde psicológica do indivíduo. Esta conversa deve ser composta de “frases autológicas [em primeira pessoa], microscópicas [relativas a situações específicas], veiculadoras de emoções e/ou desejos e que dispensam, para enunciar-se, quaisquer outras razões além de satisfazer o desejo de seu emissor de as ter escutadas.” (p. 171, grifos do autor). O autor não faz restrições sobre o conteúdo que mereça ser verbalizado ou reprimido.

Além da maneira de falar, Ebraico (2004) aponta também a importância da forma de ouvir. Para o autor, em uma comunicação saudável, a escuta não deve ser fóbica (que minimize a importância da mensagem) nem ávida (que insista em ouvir mais do que o outro deseja falar).

No que diz respeito à comunicação, Rogers (1987) valoriza a escuta profunda e explica que a livre expressão favorece o progresso da relação interpessoal.

Branch e Willson (2011) falam pouco sobre comunicação. As recomendações contidas no livro dizem respeito, principalmente, a mudanças individuais. Apenas em alguns trechos eles sugerem que, para identificar falhas de pensamento, o indivíduo converse com outras pessoas para checar as distorções.

4.5.   Ação
Para Byrne (2002) existem dois tipos de ação: a pura e a inspirada. A ação pura, de tentar obter o que deseja, é o mesmo que andar para trás. Já a ação inspirada, “quando você está agindo para receber” é fácil e “a sensação é maravilhosa porque você está na frequência em que se recebe.” (p. 36).

Cardoso e Cardoso (2012) entendem que a ação é a parte mais importante para a resolução de um problema: “vocês precisarão ignorar o sentir, a própria vontade, e simplesmente fazer o que é correto e necessário para chegar à solução.” (p. 79, grifos dos autores).

Para Cavalcante (2012) as pessoas devem agir guiadas pela emoção: “Faça o que seu coração manda. Seja fiel à sua essência. Não ofereça resistência ao que você realmente deseja. (...) Obedeça ao seu coração.” (p. 30). Mas em outro trecho diz que “para agir é preciso antes sentir, pensar e perceber.” (p. 116).

Ebraico (2004) defende que a ação deve ser pautada pelo respeito:

“Respeitar alguém refere-se essencialmente a duas coisas: primeiro, à disposição de facilitar, o quanto possível, que o sujeito, ao agir, não o faça ‘fora de si’; segundo, à disposição de, estando ele ‘em si’, reconhecer seu direito de atuar segundo seu alvitre, arcando, naturalmente, com as consequências que isso implica.” (p. 82).

  Rogers (1987), ao falar sobre os workshops que realizava, aponta que após participar dos encontros “muitos voltam-se para uma ação mais lúcida e eficiente” indicando a influência da escuta profunda e da livre expressão sobre o agir (p. 83).

No que diz respeito às ações, para Branch e Willson (2011) é mais indicado expor a si mesmo do que evitar situações que causem emoções desagradáveis: “Um dos meios mais poderosos de modificar suas emoções de uma vez por todas é agir contra suas crenças improdutivas” (p. 96). Eles afirmam que, agindo assim, a emoção vem à tona, flui e desaparece.

5.  Resultados

Percebe-se que os autores dos livros de psicologia, como era de se esperar, ao formular suas ideias aliam uma teoria à experiência prática enquanto nos livros de autoajuda a última é a principal fonte de conhecimento.

No que diz respeito aos pensamentos e sentimentos, enquanto Rogers (1987) e Ebraico (2004) – tendo como base a ACP e a psicanálise, respectivamente – defendem que o equilíbrio entre razão e emoção contribui para a saúde psicológica e o crescimento pessoal, Cardoso e Cardoso (2012) sugerem o domínio da razão sobre a emoção – apoiando-se na premissa de que a vida deve ser conduzida como uma empresa.

Apesar de concordarem sobre a importância de se livrar de pensamentos e sentimentos negativos, Branch e Willson (2011) – tendo como base a ciência behaviorista – apresentam um método sistemático para fazê-lo, diferentemente de Byrne (2002) e Cavalcante (2012) que acreditam que o indivíduo, sempre que desejar e decidir, possa mudar seus pensamentos e sentimentos como num passe de mágica. Além disso, o método proposto por Branch e Willson (2011) promove a reflexão sobre pensamentos e sentimentos, o estabelecimento de conexões entre eles e a definição de estratégias de enfrentamento, contribuindo para o autoconhecimento e a autonomia do indivíduo. Tendo em vista o alto volume de vendas dessas obras parece ser mais fácil e atraente acreditar em mágica do que seguir um método científico.

Quanto à comunicação, as discordâncias estão relacionadas, sobretudo, aos conteúdos que devem ser comunicados ou reprimidos. Byrne (2002) defende a verbalização e escuta apenas de conteúdos positivos; Cardoso e Cardoso (2012), Ebraico (2004) e Rogers (1987) não fazem restrições; enquanto Cavalcante (2012) se contradiz, oscilando entre a repressão e a livre expressão dos conteúdos desagradáveis. Ebraico (2004) é o único que aborda a forma mais adequada para uma boa comunicação, trazendo explicações detalhadas sobre como fazê-lo ao longo de todo o livro.

A importância da boa escuta é citada brevemente por Cardoso e Cardoso (2012), merece um capítulo do livro de Ebraico (2004) e permeia toda a obra de Rogers (1987). Nem sempre é agradável ouvir (ou falar) sobre sofrimento, queixas e reclamações; talvez a recomendação de Byrne (2002) e Cavalcante (2011) de que estes conteúdos devam ser reprimidos seja algo mais fácil de colocar em prática do que uma escuta acolhedora e livre de julgamentos.

Ao falar sobre a forma de agir, Byrne (2002) e Cavalcante (2012) valorizam a ação inspirada, o agir com o coração. Cardoso e Cardoso (2012) entendem que o sentimento deve ser ignorado e defendem a ação racional e objetiva, enquanto Branch e Willson (2011) veem a ação como um meio para enfrentar e modificar as emoções. Ebraico (2004) e Rogers (1987) não apresentam recomendações sobre como agir, apontam apenas a importância do livre arbítrio, do respeito e da consciência dos próprios atos – fatores que estimulam a autonomia e a responsabilidade pelas consequências, algo que nem todos estão dispostos a encarar.

6. Considerações Finais

Analisando os resultados obtidos pode-se considerar que nem todas as pessoas estão abertas ao tipo de mudança interna promovida pela psicologia.

Pode-se supor também que existem dois tipos de leitores dos livros de autoajuda: os que não tiveram acesso a outras possibilidades de ajuda e os que tiveram acesso a outras possibilidades, mas optaram pelo livro de autoajuda.

Para o segundo grupo a única coisa a fazer é respeitar sua escolha. Alguns buscam ajuda na psicologia, outros preferem a leitura de livros de autoajuda, participação em grupos religiosos, meditação, viagens, ou formas menos saudáveis como o uso de drogas. Todos têm o direito de decidir como lidar com os conflitos e o sofrimento.

Para o primeiro grupo é interessante que se faça a divulgação de outras possibilidades. Cabe a nós, psicólogos, promover o acesso da população ao conhecimento científico da nossa área de formação. É ampla a publicação de artigos científicos em revistas e de livros para o público especializado, mas falta a preocupação com os leitores leigos no assunto. Os livros de psicologia não aparecem nas listas de mais vendidos. Nas estantes de livros de autoajuda nota-se uma lacuna que poderia ser ocupada por publicações em linguagem simples e atraente, mas embasadas nos conhecimentos da psicologia como ciência.

Referências

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BRANCH, R.; WILLSON, R. Terapia Cognitivo Comportamental para Leigos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2011.
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